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Nós, os gringos



Fonte
artigo de Rovílio Costa e Luís de Boni, publicado no livro "Nós, os gaúchos", da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenação de Sergius Gonzaga e Luís Augusto Fischer e publicado em 1992.

Se perguntarem quem somos nós, os gringos do Rio Grande do Sul, surgirão as respostas mais diferentes. Nossos irmãos da 4a Colonia Imperial, Silveira Martins, dirão que eles são os conservadores da mais legítima tradição italiana no Estado. Já na zona colonial do nordeste talvez se fale em galeto, polenta e vinho. Em Santa Vitória do Palmar, na fronteira e nos campos de Cima da Serra, somos aqueles que não sabem e não aprendem a andar a cavalo. Em Porto Alegre, e nas cidades em geral, somos alegres comerciantes, donos de restaurantes. Quer usemos a pacata fala vêneta, quer a fala cantante da Calábria, orgulhamo-nos de nossa italianidade, mas somos entranhadamente apegados ao solo e à cultura gaúcha.

Podem chamar-nos de italianos - e gostamos de ser conhecidos como tais -, mas então chamem-nos de italianos do Rio Grande do Sul, pois não somos a Itália banhada por mares em três direções, mas uma nova Itália, banhada por diferentes etnias por todos os lados. Não repetimos e não somos um pedaço da Itália: somos gaúchos. Talvez algum de nossos patrícios diga mesmo que é "gaússo", mas é com este sotaque que abrimos CTGs em todas as nossas cidades, que os levamos ao norte do País e que enchemos o Brasil de "Churrascaria Gaúcha". Constituímos cerca de 20% da população do Estudo, concentrados nas zonas onde houve colonização, mas espalhados hoje por todo o Rio Grande, principalmente no artesanato, no comércio e na indústria das cidades.

Nossa presença em solo gaúcho é muito antiga, bem anterior à grande imigração do século passado. Como jesuítas, diversos de nossos patrícios trabalharam nas Reduções; dois capuchinhos italianos estiveram na pia batismal do Rio Grande do Sul português, na qualidade de capelães da tropa de Silva Pães, quando da fundação do Forte Jesus-Maria-José, em 1737; mais de 50 padres italianos trabalharam por estas bandas antes de 1875; entre o Tratado de Madrid (1750) e a Independência (1822) diversos oficiais originários da velha península serviram no Exército português que por aqui esteve em operações militares.

Se há um traço marcante, mas pouco ressaltado entre os historiadores, é o da vocação artística de muitos de nossos irmãos. Como arquitetos, escultores, pintores, músicos, cientistas e cartógrafos, temos em solo gaúcho uma presença tricentenária. As ruínas da igreja de São Nfiguel, nas Missões, ainda deixam perceber a grandeza do plano arquitetônico elaborado pelo jesuíta milanês Giovanni Battista Prímoli; a catedral de Bagé é projeto de Giovanni Obino; a de Porto Alegre, de Giovanni Battista Giovanelli; a prefeitura velha da capital, projeto de Carraro-Cofosco. Na escultura e na pintura iniciamos com o irmão jesuíta Giuseppe Brazzanelli, na redução de São Borja, passamos por nomes como os de Bernardo Grasselli, Adriano Pitanti, Tarquínio Zambelli, Carlos Torelli, entre outros, para chegarmos a Aldo Locatelli, com a obra-prima que é a pintura da igreja de São Peregrino em Caxias do Sul. Não falamos aqui dos arquitetos e artistas anônimos que, na zona colonial, edificaram e adornaram igrejas e moradias, algumas de muito bom-gosto e com engenhosas soluções técnicas.

Nosso primeiro representante, como músico, foi também um jesuíta missioneiro, o padre Domenico Zippoli, de quem algumas partituras são executadas até hoje. O oriundo Radamés Gnatalli foi nosso último compositor de música erudita. Bem, a respeito de cartografia até não vamos falar muito, pois há séculos sabemos que nos consideram os melhores cartógrafos do mundo. Desde os jesuítas Antonio Ripari e Antonio Maccholii estamos fazendo mapas do Rio Grande de São Pedro, e basta recordar que, quando do Tratado de Madrid, os jesuítas, os portugueses e os espanhóis apelaram para os conhecimentos geográficos dos italianos. Permitam-nos, enfim, recordar um período áureo das letras sul-riograndenses, durante o qual pontificaram nomes como o de Mansueto Bernardi e José Bertaso.

A vocação marítima, o individualismo aventureiro e o gosto por negócios, quando não a fuga por motivos políticos ou por crime, trouxeram muito italianos para o outro lado do Atlântico. E, então, navegamos pelos rios e lagos gaúchos, fomos mascates, abrimos casas de comércio e hotéis. Durante a Guerra dos Farrapos, os rebeldes mandavam moer grãos em Pelotas, no moinhos de Pietro Brisolara, enquanto, na mesmi época, o Conselho Municipal de Porto Alegre queixava-se de que os italianos liavitm-se adona(lo do comércio d carne na cidade, com prejuízo para os consumidores. Os registros de nascimeu to e de casamento nos dois primeiros quartéis do século 19 comproval-n qti nossa presença já então era signi ficativa.

Na política, tivemos tinia experiência gloriosa com os farrapos. Zambeccari, Rossetti, Anzani, Garibaldi, e cerca de outros 100 mercenários, marcaram a história gaúcha daquela época. Depois, porém, nos calamos. No final do grande período imigratório vimos as revoluções de 93 e 23 e, desculpem-nos mas nos assustamos com aquilo: tínhamos a impressão de estar assistindo torneios de degola. Anos mais tarde, fizemos nossas excursões no campo da política. Continuamos citando nomes somente dos que não se encontram mais entre os vivos: o dr. Raul Pilla, teórico brasileiro do parlamentarismo, e de quem estamos recordando o centenário; o senador Alberto Pasqualini, um do grandes pensadores políticos deste país; o egenheiro Ildo Meneghetti, matreiro como os melhores políticos das Gerais, duas vezes eleito governador do Estado em pleitos memoráveis, com vitórias por pequena margem de votos. Observe-se, também, que, embora alguns dos nossos tenham ganho um bom dinheiro com o falecido milagre econômico, não costumamos registrar o gen. Emílio Médici como um dos nossos, preferindo considerá-lo pelo lado materno, com o sobrenome basco Garrastazu.

Examinando nosso modo de ser, devemos confessar que, desde que aportamos nesta abençoada Província de São Pedro, sempre tivemos uma discreta inveja da vida do gaúcho: bombachas, pala, botas, lindos arreios, amplas propriedades, tudo isso nos falava simbolicamente da fartura e da liberdade, dois dos motivos pelos quais deixamos a velha península. Apesar dessa admiração, porém, poucos de nós tornaram-se fazendeiros, pois não tínhamos dinheiro para adquirir campos e, quando o viemos a ter, já havíamos descoberto que era bem mais rentável investir os nossos recursos na economia urbana.

Investir, fazer negócios, ganhar dinheiro, nisto nos julgamos mestres insuperáveis. Para falar de nossa competência no ramo, observamos com orgulho que não houve firma de judeu que tenha conseguido sobreviver em Caxias do Sul. Admitimos, com toda franqueza, que nossos métodos nem sempre são os mais honestos, ou melhor, que a gente, para vencer na vida, tem que ser "furbo" (astuto): descobrir o furo da lei, sonegar sempre que possível, pedir concordara na hora certa, "ciavar i baúchi" (enganar os tolos), que podem ser nossos familiares ou sócios. Quem melhor captou esse traço de nossa personalidade foi ítalo Balen, na obra "Os pesos e as medidas", baseada no fato histórico da encomenda à França dos pesos oficiais, feita pelo intendente de Caxias do Sul, a fim de controlar os pesos utilizados nas balanças dos comerciantes locais. Havia quilo de 750 gramas para cima, mas para tudo havia uma explicação: em nome da liberdade de comércio cada um usava os pesos que bem queria; havia pequenos defeitos de fábrica; os pesos estavam um pouco gastos de tanto uso; ingerência indevida dos franceses em assuntos brasileiros, etc.

Além de "furbo", o indivíduo tem que ser trabalhador e econômico. Quem na segunda-feira pela manhã não está a postos, quem vai tomar seu trago durante o trabalho, quem entra madrugada adentro jogando cartas, por rico que seja, está em perigo, e elencamos a história de inúmeros conhecidos que morreram pobres.

E como admiramos nossos irmãos de sangue que acumularam fortuna!!! (Em homenagem a eles vale até ressuscitar o ponto de exclamação.) Em nossas rodas de conversa - mais que de mulheres e de caçadas - tratamos de negócios, aventamos novas formas de sucesso, gostamos de mostrar como estamos bem de finanças. Talvez tenhamos que pagar mais tempo de purgatório por nosso apego ao dinheiro do que pela gula. Aliás, é de um nosso patrício de Mântua a frase: "Na verdade, a que coisas não obrigas os mortais, ó fome sagrada do ouro".

Esta visão economista nos torna até mesmo um tanto daltônicos à cor da pele humana: nossa prevenção ante o negro, geralmente, têm pouco de racismo e muito de desaprovação devido ao modo como ele encara a vida e o trabalho. Convém mesmo observar que nossos pais usavam o termo "brasilián" (brasileiro) tanto para indicar o luso-brasileiro, como para indicar o negro.

Prevenções contra outros grupos, em nosso caso, nem sempre eram contra outras etnias. Entre nós, seguidamente, os indivíduos de uma província da Itália manifestavam suas reservas ante os de outra. E atualmente, quando este tipo de discriminação está quase desaparecido, pois vai-se esvaindo a consciência de nossa localidade de origem, encontramos os imigrados das últimas décadas, ou aqueles um pouco mais viajados ou supostamente mais instruídos, que procuram transplantar para nosso meio, macaqueando, a cisão reinante entre o norte e o sul da Itália.

Quanto à religião, nos julgamos mais e melhores católicos que os demais. Aliás, não é por nada que o papa reside em Roma e que (o português) santo Antônio, santa Rita de Cássia e tantos outros santos eram italianos, e que exportamos padres, frades e freiras (tal como vinho) de nossa região colonial para todo o país e até mesmo para o exterior. É verdade o que dizem alguns pesquisadores, quando afirmam que, por vezes, por trás da religião existem outras motivações, como a daqueles que, tendo enganado o próximo, são depois generosos em seus donativos à igreja; ou no caso de alguns que, tendo deixado o catolicismo, encontram-se hoje muito bem estabelecidos como prósperos donos de terreiro. Tais exceções não infirmam, porém, a regra: em nossa grande maioria somos católicos, e geralmente católicos praticantes.

Precisamos também dizer algo a respeito de mulheres e de sexo. Quanto à vida sexual, a moral repressiva com (que fomos educados nos tornou um tanto reticentes. Falamos pouco deste assunto. O sistema de produção familiar em pequena propriedade favoreceu a família monogamica não só de direito, mas também de fato. As experiências pré-matrimoniais aconteceram menos entre nós que entre outros grupos étnicos, não sendo raros os jovens que se casaram donzelos. Nas pequenas cidades coloniais passaram-se anos antes que se abrisse uma casa de prostituição, e quantas delas foram fechadas no grito. Que estas afirmações, porém, não sirvam para falsear a realidade: comparação entre os livros paroquiais de casamento e de batismo mostra que tanto hoje como então nem sempre o primeiro filho esperava nove meses para nascer. Quando se viajava a Porto Alegre, sabia-se muito bem que no Oitavo podiam-se passar amenas horas noturnas. Cidades maiores, como Bento Gonçalves e Caxias, primavam pelos requintes do amor oferecido por mulheres até agora recordadas pela geração mais velha que, ainda, sem fazer nomes, conta discretamente a história do dono de fábrica que promoveu uma estranha festa no mato e que, junto com os amigos, teve que esperar até a noite para voltar, porque as esposas descobriram de que se tratava e, sorrateiramente, aproximaram-se do local, levando a roupa de seus alegres consortes. A velha geração caxiense consumiu com um número de um jornal comunista local que, na manhã após o fechamento do PCB pelo congresso nacional, na década de 40, contava com pormenores onde, como e com quem a burguesia local comemorou o fato.

E o que dizer então das nossas mulheres? Aqui também a aparência não corresponde de todo à realidade. Não há dúvida: a carga de trabalho que recaiu sobre a mulher foi maior que a dos homens; raras eram as diversões delas; quase não manuseavam dinlieiro. Ainda hoje esta situação mantém-se inalterada, em parte, na região colonial. Não deixa, porém, de ser verdade que as mulheres mandavam e mandam na família. A presença contínua no lar, a autoridade moral de quem não blasfemava e não se embebedava, a dedicação sem limites ao marido e aos filhos colocaram-nas em uma situação privilegiada dentro de casa. Não houve disputa pelo poder, não houve adesão a movimentos feministas, houve apenas a sutil e pacífica ocupação de espaço. Por trás de inúmeros traços machistas, nosso grupo italiano vive sob um verdadeiro matriarcado. Nossas "nonnas" e "mammas" mandam no lar, no marido e nos filhos, e com razão otive-se entre os maridos a afirmação: "Là casa, mi son el gal: canto sempre che Ia patroa comanda" (lá em casa, eu sou o galo: canto todas as vezes que a patroa manda).

Nossos antepassados deixaram a Itália como deserdados da sorte, iluminados, porém, pelo farol da esperança de encontrar uma vida melhor. Chegaram aqui com a roupa do corpo, uns lençóis, alguns instrumentos de trabalho, poucas tiras e a forte convicção de que haveriam de "far Ia cucagna" (fizer fortuna) graças ao trabalho. Casas, escolas, capelas, cemitérios, estradas foram sendo construídas pelo trabalho solidário e associativo. Médicos, professores e padres foram substituídos inicialmente por alguém do grupo. Passamos do artesanato à indústria, da escolinha rural à universidade, da capela aos grandes templos, das vilas às cidades borbulhantes, mas não esquecemos nossos hábitos e nossa história passada, antes a enriquecemos, tal como o fizemos com nossa mesa: à polenta, ao salame, à radíci e ao vinho incorporamos o churrasco, a feijoada, o aipim, o chucrute.

A terra foi para nós um deslumbramento. Por ela nos apegamos estranhamente a este solo, nos sentimos em casa, tivemos a experiência que nunca tivemos, tornou-se realidade aquilo em que sequer tínhamos coragem de pensar na Itália: sermos proprietários.

Vale a pena concluir citando um imigrante de 1885, Andrea Pozzobon. Após descrever a profunda dor de deixar os parentes e amigos, bem como a viagem penosa em navio incomodo, imundo e superlotado, "onde vínhamos apinhados como sardinhas em um barril", diz de sua chegada a Pelotas: "Começamos a viver um pouco a vida italiana, perdida há dois meses. Polenta e peixe, carne assada e vinho de Caxias". Poucas páginas antes, ao chegar em Rio Grande, diz: "Via-se no mercado( ... ) junto à fiscalização, toda sorte de queijos, salame, presuntos, vinhos de Caxias( ... ) O imigrante, ao ouvir mencionar os vinhos de Caxias, Dona Isabel, sentia água na boca, admirado em poder comprar um quilo de salame ou de presunto, ou um litro de vinho a 400 réis. Finalmente o imigrante encontrara, nestas paragens, o paraíso terrestre".