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Tchê Music x Tradicionalismo, a polêmica
Há poucos dias, os jornais divulgaram polêmica entre os tradicionalistas e os defensores de um novo movimento musical autodesignado como Tchê Music, colhendo opiniões divergentes de importantes personalidades do meio musical. Os tradicionalistas sustentam que o novo modismo deturpa não somente os gêneros e os ritmos musicais gaúchos mas também a indumentária e a maneira de apresentar-se dos grupos regionalistas.
Por seu lado, os adeptos do Tchê Music dizem que os CTGs estão se intrometendo indevidamente na liberdade de criação e apresentação artística e protestam contra a ameaça de serem os novos grupos barrados nos fandangos dos centros de tradição.
Na minha opinião, a coisa tem que ser vista sob um ponto de vista objetivo, sem se cair na passionalidade.
Em primeiro lugar, é preciso que se diga que a reação dos tradicionalistas, se não foi provocada deliberadamente, pelo menos deveria ter sido esperada pelos promotores do lançamento do Tchê Music que, convenhamos, é provocativo até no nome adotado. Como movimento cultural, o Tradicionalismo não só tem o todo o direito como o dever de barrar o modismo em seus galpões. Ora, manter as tradições é o objetivo essencial do Movimento Tradicionalista. É, portanto, natural e admissível que só contratem para seus bailes típicos os grupos que se afinem com seus objetivos.
Os festivais de música, por sua vez, são promovidos e patrocinados por entidades públicas ou privadas que também tem o direito de definir os perfis de seus festivais, prestigiando gêneros musicais ou exigindo indumentárias, tudo de acordo com os objetivos culturais de cada evento. Afinal, ninguém é obrigado a participar de um festival com o qual não concorda: vai quem quer. O bom, o desejável é que existam muitos festivais diferenciados entre si, proporcionando uma ampla vitrina de todas as tendências musicais existentes, desde aqueles que só aceitam um ritmo, até aqueles em que vale tudo.
Por outro lado, é preciso que se entenda que as gravadoras e os produtores de discos são empresas comerciais que tem como objetivo essencial o lucro. Ninguém pode cobrar-lhes preocupações culturais. Seu negócio é vender discos. Todo mundo sabe como funciona a indústria fonográfica no Brasil. Cria-se através da mídia maciça um modismo que é projetado simultaneamente nas emissoras dos quatro cantos do país. Todos passam a curtir o gênero da moda. Vendem-se milhões de discos, independentemente de sua qualidade artística. Quando o mercado começa a dar sinais de cansaço, cria-se outro modismo. Foi assim com o Forró Nordestino, o Pagode Carioca, o Sertanejo Paulista e o Axé Music, sem falar nos fenômenos passageiros como os Mamonas e o Tiririca. Com o Tchê Music vai ser a mesma coisa.
Entretanto, o mercado tem seus segredos: é preciso enlatar muito bem o produto. A figura tradicional do gaúcho é muito rígida e austera, não funcionando muito bem na televisão, principalmente para o público jovem brasileiro que gosta de se mexer. O próprio Borghetinho, cuja autenticidade ninguém põe em dúvida, até por que se criou dentro de um CTG, foi bem assimilado pelo público nacional não só em razão de seu inegável talento, mas também pela descontração de sua indumentária.
Os produtores de disco são capitalistas e, como tal, não aplicam seu rico dinheirinho onde não possam ter um retorno garantido. Eles sabem das coisas e usam um esquema que já foi provado e deu certo. Então, pergunta-se: e isto é bom para o Rio Grande? É.
Poderá até ter alguns efeitos culturais negativos, mas as gravadoras do Estado venderão mais discos, os músicos gaúchos encontrarão mais trabalho, os autores serão mais conhecidos e poderão talvez até faturar algum direito autoral. Na carona das músicas de qualidade duvidosa subirão também algumas boas que poderão sobreviver ao modismo.
E então, como ficamos? Cada um na sua: o Tradicionalismo cuidando da autenticidade da tradição e o comércio fonográfico vendendo seu peixe. Até certo ponto, inclusive, é possível conciliar os dois interesses, pois os grupos regionais podem muito bem participar dos dois movimentos. Basta adaptarem seus repertórios e indumentárias, conforme o tipo de evento de que participarem, respeitando os objetivos de cada um.
Porto Alegre, 18 de janeiro de 2000.
Nilo Bairros de Brum