Cidade da serra gaúcha. Feira de produtos vegetais orgânicos. Invariável cena de sábado de manhã, cedinho. De abrigo e tênis, às voltas com as compras de acelgas e alfaces, olho para o lado. Os índios estão acordando, patéticas figuras de Goya emergindo de seu monturo de trapos. Aparece um, depois já são três, quatro. Com as crianças, vão a seis. Dormiram na rua. Olham para os lados, espreguiçam-se e, suspendendo um bocejo, conferem rápida e visualmente se ainda estão ali os coloridos cestos que vão vender durante o dia. Estão. Ninguém vai roubar cesta de índio. As crianças têm um olhar límpido de inocência, e são todas belas, mesmo na indigência. Pacíficos, quase apáticos, eles se levantam e vão em fila a uma latrina que a caridade lhes propiciou para que não venham a sujar o passeio público. Passeio público é lugar que os cidadãos querem sempre limpos. Os cidadãos têm imóveis, pagam seu IPTU e sentem-se, naturalmente, plenos de direitos - inclusive de fazer o que fazem: reclamar a cada sábado daquela presença constrangedora e pré-histórica, ali debaixo de seus narizes.
Apesar de várias iniciativas, inclusive de algumas ONGs, num processo que remonta ao século do marechal Rondon, os índios são sempre vistos como "os outros", isto é, como alguém que exige alguma ação: dar-lhes esmola, aplicar-lhes vacina, ensinar-lhes a ler e a usar liquidificador, demarcar suas terras, dizer-lhe como são os hábitos da vida civilizada. O resultado é pífio e insatisfatório, haja vista os inúmeros confrontos. Os índios seqüestram um diretor da Funai; o diretor aparece na foto, muito seqüestrado, muito engravatado, muito cercado de arcos e flechas de artesanato brega, mas com uma espécie de sorriso compassivo, como a dizer: "Não se preocupem. É brincadeirinha deles. Deixem que eu resolvo isso".
A conclusão é simples: o Brasil ainda não sabe o que fazer com seus índios. Nunca soube. Depois de dizimá-los quase à totalidade, ignorou-os por 300 anos. Em pleno Romantismo estético, transformou-os em metáfora do brasileiro livre, não contaminado pela decadência européia. O índio deu antigüidade e validou o vasto império amazônico-tropical. Produziu conversas amenas, alegorias para selos de correio e panos de boca de teatros e, de quebra, alguma literatura de gosto discutível. Quando os positivistas e militares empolgaram o poder pelo golpe de Estado do 15 de novembro, o índio, identificado malgré lui com a monarquia, foi remetido às trevas de seus misteriosos bosques. Tomada de remorsos, a república - sempre enfrentando instabilidades e deposições, sempre paradoxal, desarvorada e improvisadora - só soube atrapalhar, instituindo um órgão específico para "proteger" o índio; para lá de perpetrar um ato político cruelmente discriminatório em relação às restantes etnias, a mesma república acalenta até hoje essa estrutura burocrática que revelou ser um problema a mais no panorama de nossas crônicas dificuldades.
A solução não é fácil. Sabemos, entretanto, que passa pelo amadurecimento da solidariedade, isto é, passa por uma reforma das mentes que reconheça o índio não como "o outro", mas um de nós, sujeito dos mesmos direitos e capaz de assumir as mesmas responsabilidades. Passa, enfim, por nós mesmos. Dessa forma, ele não precisará acordar aos sábados, bisonho e perplexo, em meio a sacos de estopa e cercado por gente de tênis e abrigo, que disputa rabanetes e couves-flores.
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Origem: artigo de Luiz Antonio de Assis Brasil, publicado na edição de 14 de março de 2004 no periódico Zero Hora.
Publicado por Roberto Cohen em 14/03/2004.