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E o gaúcho, morreu?



Fonte
Artigo de Antonio Augusto Fagundes, publicado no livro "Nós, os gaúchos", da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenação de Sergius Gonzaga e Luís Augusto Fischer e publicado em 1992.

Estamos em 1992, já na segunda metade do ano, vendo o século 20 rebolear a cola. O estado do Rio Grande do Sul, na extremidade meridional do Brasil e encravado corno uma cunha no coração do Prata, em pleno cone sul da América, vive ainda e em grande parte do gado. O resto é lavoura, é indústria, é comércio.

Ao contrário do que se tem propalado, não foi o arame, na segunda metade do século passado, quem limitou o poderio da estancia, mas a expansão da lavoura colonial, mini-fundiária.

A Guerra do Paraguai (l865-70) funcionou historicamente como divortium aquarum nos usos e costumes rio-grandenses. Nessa época chegou o arame, é verdade, e com ele a (de)limitação dos campos, as invernadas, os postos, mas esse choque (?) foi rapidamente absorvido. Afinal de contas, os limites já existiam antes: eram naturais (rios, lagoas, cerres, matos) ou erigidos pelo homem (valos escavados, cercas de pedras).

Na esteira mercantilista da Guerra do Paraguai veio também a gaita, que destronou a viola no reino dos bailes. E ao som das "duas conversas" as velhas danças do ciclo dos fandangos, sapateadas e completas (cada uma com canto, música e coreografia), foram substituídas por "maneiras de dançar" impostas pelos novos ritmos trazidos no bojo dos foles: valsa, mazurca, polca, havaneira, chotes... E veio também a bombacha, de origem turca, que os comerciantes ingleses despejavam aos fardos no porto de Montevidéo, como sobra de guerra - restos do fardamento de seus exércitos colonialistas e imperialistas e mercantilistas.

Diante de tudo isso, o gaúcho trovou:

A gaita matou a viola,
o fósfre, matou o isqueiro.
A bombacha, o chiripá
e a moda, o uso campeiro.

Ao fim da Guerra do Paraguai, isso tudo, com ares de modernismo, parecia verdade. Aconteceu, até que dois anos antes do fim da guerra foi fundado em Porto Alegre o Partenon Literário, estuante de Regionalismo, subcorrente do Romantismo, que jogara o ultrapassado Classicismo nos caldeirões de Pedro Botelho... Inicialmente o Regionalismo (e até o Condoreirismo!) voltava-se para o gaúcho a partir dos muito brasileiros e nordestinos José de Alencar e Castro Alves, quando gatícho ainda estava mais para palavrão do que para palavra. Os sábios do Partenon, capitaneados por Apolinário Porto Alegre (e pré-capitaneados por Caldre e Fião, é bom que se diga, por justiça) foram atrás e se adonaram do gaúcho.

Para salvá-lo?
Não. Para decretar a sua morte.

Claro: chegara a cerca, limitando o seu cenário. As suas danças tinham envelhecido. A sua indumentária, caído em desuso. Assim, o gaúcho só podia morrer, mesmo. Então, intelectuais de gabinete, comodamente instalados na capital gaúcha, trataram de enterrá-lo, sem examinar se estava morto.

Quem era o gaúcho para esses intelectuais?

Bem, eis aí o nó da questão. Como bons intelectuais (oigalê, palavrinha de merda!), que eram eles, descoheciam a realidade e idealizavam o gaúcho, perseguindo um mito que outros intelectuais haviam criado: o centauro dos pampas, o monarca das coxilhas. Esses "testamentos" campeiros, criados artificialmente via literatura regionalista, eram tão falsos como os "índios" de Alencar e de Gonçalves Dias (e um pouco, também - e por que não'? - os escravos e as escravas de Castro Alves).

A partir de um soneto de Caldre e Fião em O Corsário "nasceu" o monarca das coxilhas e os temas da monarquia, tão gratos a Augusto Meyer, Guilhermino Cesar e outros intelectuais. Tudo bem. Só com um defeito: o monarca das coxilhas nunca existiu, e o gaúcho nunca se presumiu tal. E, claro, quem nunca viveu, jamais morrerá...

Já o centauro dos pampas é a projeção, igualmente intelectual, do guerreiro que fez pátria ao longo de dois séculos, louvado até por Garibaldi, nas campanhas da Itália. O centauro era o gaúcho enquanto guerreiro (que não se use para ele a palavra soldado), atropelando nas cargas de lança em riste, "por gusto a la farra", lutando com a mesma galhardia sob esta ou aquela bandeira, usando lenço desta ou daquela cor.

Quando os intelectuais do Partenon lhe decretaram a morte, cometeram duplo engano. O primeiro: o tal centauro andava, por essas alturas (1868) nos chacos do Paraguai, cobrindo-se de barro e glória, compondo pelo menos um terço do total dos efetivos brasileiros enganados na luta e empilhando no peito cerros de condecorações por bravura em combate. O segundo: logo-logo, em 93, o centauro assombraria o mundo dando cargas de cavalaria contra cercas de pedra e laçando canhões e metralhadoras em pleno combate! E depois, bem mais tarde, em 1923, novamente o centauro se pôs a campo. Aliás, ele só vai desaparecer com o fim da guerra a cavalo.

Mas sejamos claros: o monarca das coxilhas e o centatiro dos pampas não eram o gaúcho. O gaúcho deve ser percebido como alguém que cria o gado em regime extensivo e que trabalha a cavalo. Ou como alguém que trabalha para quem cria o gado.

A Antropologia Econômica (não é, Slieppard Forman? Não é, Sérgio Alves Teixeira?) distingue, entre os trabalhadores do campo, o empresário rural, o empregado rural e o camponês.

O primeiro é o estancieiro, o patrão, o proprietário de terras. O segundo é o peão, o capataz, o empregado, enfim. O terceiro é aquele que não tem peão, nem patrão. Trabalha por conta própria, sozinho ou em regime familiar. Todos são trabalhadores rurais, exercem no campo a sua atividade de sobrevivência, criam o gado e andam a cavalo, ocasional ou sistematicamente. Ou será que os intelectuais de hoje acham que a carne que consomem é feita em fábricas? Ou que o gado é criado por esses robôs de cinema?

O gaúcho aparece nas Vacarias do Mar, caçando o gado chimarrão, não é, Madeline Wallis Nichols? Para tanto, precisou desenvolver técnicas e aptidões que se prolongam no tempo, muitas elas chegando até nossos dias. Para vencer as grandes solidões do deserto verde serviu-se do cavalo e da carreta, que o Velho Mundo conhecia, mas não como os europeus deles se serviam. Inventou uma equitação "ex-novo", adaptou uma encilha que fora de carga, na Península Ibérica, e uma indumentária que se nutriade vertentes ibéricas, ameríndias e autóctones. Além disso, esse homem novo no cenário da América inventou, à base de carne, uma sensacional cozinha, adequada à alimentação de quem tem uma vida dinâmica, repleta de ação.

E tudo isso chegou aos nossos dias, ao fim do século 20. O homem é o mesmo, pastor cavaleiro, enfim. A roupa e a alimentação, igualmente. Mesma psicologia, mesma cultura básica luso-brasileira, que se resolve em provérbios, wellerismos, adivinhas, contos, cantos, danças, mitos, lendas e fábulas. O cavalo é o mesmo, domado do mesmo jeito, encilhado com os mesmíssimos arreios.

Os intelectuais de hoje que vivem "enterrando" o gaúcho, com seu cavalo, sua carreta e suas tropas, se se derem ao luxo de viajar pelo interior do Estado, facilmente encontrarão o gaúcho a cavalo. E até tropeando mil, dois mil bois estrada a fora, com pousos e rondas, como sempre. É só visitar a fronteira-oeste e perguntar pelo Tio Flor Magalhães, em Livramento, capataz de tropa por profissão. Se não o encontrarem, será porque ele anda tropeando...

As carretas são encontradas a cada passo, mas são mais numerosas em São Gabriel e em Rio Pardo. Ginetes, domadores, laçadores, pialadores, guasqueiros, carreteiros, tropeiros, peães de estância, gaiteiros, trovadores, contadores de causos, Ternos de Reis, benzedeiras, parteiras, isso é para qualquer lado que se olhe - nas regiões de pecuária, claro.

Além disso, o Estado vive um fenômeno que merece reflexão: o Tradicionalismo. Gente que deixou o campo, recriou na cidade o pagus idealizado, no Centro de Tradições Gaúchas (CTG). Hoje os CTGs ascendem a 1.550 no RGS; mais de 200 em Santa Catarina, mais de 100 no Paraná; mais de 50 no Mato Grosso do Sul; mais de 50 no sul do estado de São Paulo e pelo menos um em cada cidade importante do Brasil. E dois no Paraguai! E são todos centros de tradições gaúchas, ou seja, a expansão do tradicionalismo espalha uma cultura que é essencialmente sul-rio-grandense.

Livros incontáveis se editam e se reeditam na esteira do gauchismo. Gravam-se inumeráveis discos e foram criados espaços nos jornais e revistas, rádio e TV. A filmografla do gaúcho é igualmente expressiva, bem como a iconografia que resulta das artes visuais. Até na publicidade e na política o gauchismo repercute intensamente.

Mas os intelectuais de Porto Alegre (frise-se: só os intelectuais de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul) continuam declarando o gaúcho morto e enterrado. Os mais magnânimos acham que pode estar vivo, mas de a pé...

E, claro, todos eles continuam com o gordo rabo fincado nas macias poltronas de seus gabinetes, sem se dignarem viajar ao interior do Estado, onde o gaúcho sempre viveu. E vive.