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Símbolo não se planta

Fonte
Gentileza de Simone Saueressig

Que coincidência!

Outro dia umas amigas espanholas me perguntavam qual era a flor símbolo do meu estado.

Tive de responder que não sabia mas eis que dois dias depois me deparo com a notícia de que escolheram ao brinco-de-princesa.

Pelo visto, mais do que flor-símbolo, símbolo por excelência. Me estranha, claro. Para começar, entre tanta flor-de-corticeira, orquídea e umbú, me parece que valia até florzinha de carqueija, essa que se põe no chimarrão quando a barriga anda desandada, porque são plantas com história, costume e tradição. Enfim, suponho que quiseram recordar um espécime autóctono e praticamente esquecido, destes que só lembram as avós que as plantam nos jardins, com um cabo de vassoura cortado e fincado no solo à guiza de suporte. Ali sobem os ramos, agarrando-se à paredes e arames próximos, o fazendo juz ao nome de trepadeira, e florecem em silêncio, como uma chuva de cores.

O que eu não esperava —doce ingenuidade— era a polêmica. Polêmica? Que digo? Atestado de machismo! Já tem até bagual por aí dizendo que flor por flor, uma das mais bonitas é a mulher gaúcha. Arrea! Que dor! Essa cantada é mais velha que Matusalém! Quem se orgulha da literatura que têm, podia ter inventado uma melhor.

O que me levou apensar em sério nessa florzinha, bonita, sim, mas que não cheira e não fede, que se guarda na sombra úmida da mata em algum recanto escondido do sol e da faceirice da brisa. Não como outras, que se entregam à festa das cores, como quem fora china de fronteira. O brinco-de-princesa se guarda paciente, calada, se guarda, dizia eu, àquele beija-flor, àquela abelha, àquele bicho, qualquer que seja, que a descubrirá e se levará sua virgindade botânica, num afã de romanticismo vegetal.

Não, essa flor não é um símbolo, é uma metáfora da prenda exemplar. Pena que é um símbolo tardío, que essa mulher calada e obscura já quase exista somente no verso e na prosa, um verso e uma prosa que às vezes se repete porque sua inspiração já quase desapareceu por artes e obras do Tempo.

Depois me perguntei qual seria o símbolo do Rio Grande do Sul, como quando era pequena e a professora de Estudos Sociais nos introduzia na História e na Geografia do estado.

Pensei que podia ser o pampa, ora, só faltava mais. Mas como se reduz tanta imensidão num desenho estilizado, desses tão de acordo com nossos dias?

Pois bem, o cavalo, quiçá. Mas um logotipo não traduz a beleza, a amizade e a bondade de um pangaré daqueles que até bêbado leva para casa, e, pensando bem, melhor que não vire símbolo, não vá acontecer de que derepente nos encontremos com que está em extinção.

Bem, “que venga el mate”, pensei para mim, e minha boca se encheu de uma sede implacável. Ah, aquele verde!

Aquele cheiro de erva-mate quente, aquele sabor amargo, aquele calor descendo pela garganta, aquecendo o inverno, interminável inverno, fazendo suar o verão mais mormacento. Que simbolozinho vai poder explicar uma coisa dessas para os que não conhecem o chimarrão? Porque símbolo é algo que se identifica, que se reconhece. Ponha a silhueta da cuia com a bomba e terá forasteiros que pensarão que se trata de um cogumelo virado.

Perguntarão, “o que é isso?” e é capaz de haver um espertinho que explique “uma coisa feita de erva que se toma”. E depois convença que focinho-de-porco não é tomada e que a tal da erva não é aquela dos hippies, mas uma que parece um tronco com folhas, que serve de digestivo e de declaração universal de amizade entre estranhos, que tem seus próprios símbolos e sua própria fala de gestos e mãos.

Por último, pensei na figura do gaúcho.

Em especial de um peão de Tapes, que certa manhã emergiu do meio de uma cerração fechada, e que eu nunca mais esqueci, e lá se vão quase vinte anos. Levava bombacha e alpargatas, porque saiu de casa para nos atender no portão. Tinha nas mão o mate quente e nos ombros atirado um poncho que quase se caía.

Mas quiçá, esse gaúcho, que mais simbólico jamais vi outro, um autêntico, um “de verdade”, já não possa ser nosso símbolo. Dele, usa e abusa Argentina, que parece nunca ter tido problemas nem com o peão do campo, nem com o baile “caliente” dos bordéis, que de tanto ser cantado e mostrado, hoje é patrimônio nacional. E depois, esse gaúcho já não o identificamos. É mais fácil reconhecer os que se fantasiam de bagual.

Me sobrou o gaúcho que leva a alma pilchada e corpo vestido de fim-de-século. Mas esse não precisa que lhe inventem símbolos para se identificar, porque sabe quem é. Leva os horizontes ondulados de coxilhas nos olhos e o sopro do Minuano na voz. E quando sua mulher chega do trabalho, é capaz de ter o chimarrão preparado para que, juntos, o tomem à sombra da tarde, debaixo das ramas, que subidas na janela, se multiplicam em brinco-de-princesa em flor.