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Açúcar em quatro marcas

Pesquisa: ZH escolheu 10 das marcas mais
consumidas no Estado para analisar, em
laboratório, se os produtos contêm açúcar em
sua composição (foto Carlos Rodrigues/ZH)
Apenas um fabricante tem a autorização para fazer a mistura, e os demais alegam contaminação
O gaúcho apreciador do bom chimarrão pode estar consumindo um produto com açúcar mesmo quando não é alertado pela embalagem. Das dez marcas escolhidas por Zero Hora para realização de análise no Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), apenas a Rei Verde apontava no pacote o teor de 3% de açúcar. Mas os testes realizados pela equipe do professor Ernesto H. Kubota revelaram que outras três marcas continham cristais originários da cana. Duas delas, a Ferrari e a Amável, são fabricadas pela Safra, ervateira de Ilópolis, no Vale do Taquari. O presidente da empresa e também da Associação Rio-Grandense da Indústria do Mate (Arim), Sandro Paganela, é defensor da adição de açúcar. A empresa produz a marca Amável em duas versões: com e sem sacarose. Mas Paganela revelou surpresa quando foi informado do resultado.
– Tenho o protocolo solicitando no Ministério da Saúde a autorização para fabricar a erva-mate com açúcar. A adição deveria constar na embalagem – afirma.
Nos pacotes de Ferrari e Amável enviadas por Zero Hora à UFSM não havia indicação de outro produto que não fosse a erva-mate. Paganela atribui a presença dos cristais a uma provável “contaminação” porque os equipamentos para fabricação do produto, açucarado ou não, são os mesmos. O dirigente afirma que protocolou um pedido no Ministério da Saúde e aguarda o parecer favorável à adição do açúcar. Antes mesmo de a autorização chegar, pretende investir cerca de R$ 50 mil em máquinas próprias para fabricação de erva adoçada. E diz que as empresas que colocam a mistura na erva-mate têm hoje uma fatia de 40% do mercado brasileiro. Quatro delas possuem contratos com mais de 12 mil produtores.
A Casseri, fabricada em Soledade, apresentou cristais de açúcar no primeiro teste. Mas, segundo o diretor Ivalino Sanson, a empresa suspendeu a adição não autorizada de 3% do produto em algumas embalagens tão logo começou a polêmica em Brasília. Com uma produção de 100 mil quilos de erva-mate por mês, a Indústria de Erva-Mate Sanson possui apenas o protocolo no Ministério da Saúde. Para o presidente, a descoberta de açúcar na embalagem enviada a Santa Maria se deve à data da fabricação – agosto de 1998 –, quando era feita a mistura.
Ervateira Vier contesta a análise da UFSM e manda fazer a contraprova da erva na Cientec
Para Carlos Airton Corrêa, gerente de vendas da Indústria Ervateira Vier, a presença de açúcar nos exames realizados pela UFSM pode ser atribuída também a uma provável contaminação. A empresa de Santa Rosa, que detém cerca de 8% do mercado gaúcho e possui mais de 3 mil pontos de vendas no Rio Grande do Sul, fabrica quatro tipos de erva – Vier Tradicional (Chimarrão), Vier Grossa, Vier com açúcar e Sepé. Em fax encaminhado à Zero Hora pela direção da empresa, foi lembrado que o controle laboratorial é realizado pela Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec).
A Vier encaminhou à Cientec uma contraprova da produção do dia 11 de janeiro de 1999, o mesmo lote em que foi fabricado o primeiro pacote enviado por Zero Hora à UFSM. O resultado ainda não foi divulgado.
– Contesto o resultado da UFSM porque eles já fizeram um trabalho para o pessoal do açúcar. A análise da Cientec é mais confiável – afirma Corrêa.
O dirigente não concorda com o resultado por microscopia, que confirma a existência ou não de cristais de açúcar. Prefere a medição por glicose, que na sua opinião poderá mostrar o uso de outros produtos adoçantes, como stevia, amido de milho e bagaço de cana. Sobre a fabricação de erva-mate com açúcar sem autorização do Ministério da Saúde, Corrêa diz que empresa tem um protocolo encaminhado ao órgão. Na sua avaliação, a falta de resposta a este documento no final de 180 dias dá ao fabricante o direito de colocar o produto no mercado. Ou seja, o protocolo se transforma automaticamente em autorização. Corrêa assegura que as embalagens de Vier com açúcar identificam a presença da mistura.
Dois laudos revelam o amargo ou o doce de 10 produtos
Zero Hora recolheu no comércio pacotes de erva-mate em diversos pontos do Estado e os enviou para análise no Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), um dos mais conceituados do Rio Grande do Sul. Segundo o professor Ernesto H. Kubota, chefe do setor, a determinação do açúcar foi feita de acordo com o método descrito pelo Instituto Adolfo Lutz e a microscopia realizada diretamente em 10 gramas de amostra com aumento de 40 vezes. Zero Hora solicitou duas análises que foram realizadas em dias diferentes e com lotes diversos. Na segunda amostra, não foi feito o teste para medir o teor de glicose. O interesse do jornal era saber se havia ou não cristais de açúcar nas ervas-mates. Para atingir este objetivo, basta recorrer à microscopia, segundo o professor Ernesto Kubota. Todos os fabricantes foram informados dos resultados dos laudos.
| Marca: Barão Fábrica: Barão do Cotegipe Laudo 1 – 21/99: Embalagem: dez/98 Validade: 15/11/99 Açúcares totais em glicose: 3,07% Sem cristais de açúcar Laudo 2 – 47/99: Embalagem: sem data Validade: 30/12/99 Sem cristais de açúcar |
| Marca: Casseri Fábrica: Soledade Laudo 1 – 22/99 Embalagem: sem data Validade: ago/99 Açúcares totais em glicose: 5,20% Com cristais de açúcar Laudo 2 – 49/99: Embalagem: sem data Validade: nov/99 Sem cristais de açúcar |
| Marca: Madrugada Fábrica: V. Aires Laudo 1 – 23/99: Embal.: sem data Validade: jan/2000 Açúcares totais em glicose: 2,85% Sem cristais de açúcar Laudo 2 – 46/99: Embalagem: sem data Validade: dez/99 Sem cristais de açúcar |
| Marca: Vier Fábrica: Santa Rosa Laudo 1 – 24/99: Embalagem: 11/01/99 Validade: 10/07/99 Açúcares totais em glicose: 2,74% Com cristais de açúcar Laudo 2 – 48/99: Embalagem: 22/01/99 Validade: 21/07/99 Com cristais de açúcar |
| Marca: Saphira Fábrica: Arvorezinha Laudo 1 – 25/99 Embalagem: sem data Validade: 20/07/99 Açúcares totais em glicose: 1,71% Sem cristais de açúcar Laudo 2 – 45/99: Embalagem: sem data Validade: 20/10/99 Sem cristais de açúcar |
| Marca: Amanda Fábrica: Posadas (Argentina) Laudo1 – 26/99: Embalagem: 09/12/98 Validade: 09/12/99 Açúcares totais em glicose: 2,22% Sem cristais de açúcar Laudo 2 – 44/99: Embalagem: 22/06/98 Validade: 22/06/99 Sem cristais de açúcar |
| Marca: Ximango Fábrica: Ilópolis Laudo 1 – 28/99: Embalagem: sem data Validade: 07/03/99 Açúcares totais em glicose: 4,51% Laudo 2 – 41/99: Embalagem: sem data Val.:13/03/99 Sem cristais de açúcar |
| Marca: Amável Fábrica: Ilópolis Laudo1 – 27/99: Embalagem: 6/01/99 Validade: 90 dias Açúcares totais em glicose: 4,86% Com cristais de açúcar Laudo 2 – 43/99: Data da embalagem: 18/12/99 Validade: 90 dias Com cristais de açúcar |
| Marca: Rei Verde (com 3% de açúcar) Fábrica: Santa Rosa Laudo 1 – 29/99: Emb.: sem data Val.: dez/99 Açúc. totais em glicose: 5,78% Com cristais de açúcar Laudo 2 – 40/99: Embalagem: sem data Validade: jan/2000 Com cristais de açúcar |
| Marca: Ferrari Fábrica: Ilópolis Laudo 1 – 30/99: Embalagem: 6/01/99 Validade: 90 dias Açúcares totais em glicose: 4,20% Com cristais de açúcar Laudo 2 – 42/99: Data de embalagem: 20/01/99 Validade: 90 dias Com cristais de açúcar |