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ERVA-MATE Tem açúcar no chimarrão
JORGE CORREA
Tem gaúcho de faca na bota sorvendo mate de comadre. Isso mesmo: embora cante aos quatro ventos que só bebe chimarrão amargo, muito tradicionalista de cepa pode estar, involuntariamente, enchendo a cuia com uma erva-mate levemente adocicada preparada em algumas indústrias espalhadas pelo rincão rio-grandense. É o que revelam duas análises encomendadas por Zero Hora ao Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 10 das marcas mais vendidas no Rio Grande do Sul, onde são consumidos mensalmente 10 milhões de quilos do produto. Na primeira amostra, foi apurado que as marcas Amável, Ferrari, Rei Verde, Casseri e Vier continham cristais de açúcares em microscópio. Traduzindo: o fabricante poderia ter adicionado sacarose – originária da cana – na composição química da erva, sem informar na embalagem. Nas ervas Barão, Saphira, Madrugada e Amanda (argentina), só havia o açúcar natural da planta. A UFSM retificou , por falha técnica, o primeiro resultado na erva Ximango, que apontava sacarose. No segundo, não constavam cristais no produto. Na nova análise, a Casseri também não apresentava cristais. As amostras de Amável, Ferrari, Vier e Rei Verde tinham novamente partículas de açúcares. Apenas a última marca é autorizada a adicionar 3% do produto na erva. O resultado torna ainda mais amarga a discussão em torno da mistura ou não de açúcar na erva-mate, deflagrada assim que o Ministério da Saúde publicou, em 9 de dezembro de 1998, a portaria 978 que abria uma consulta pública sobre o assunto. Desde então, as caravanas dos prós e dos contras – ambas com produtores, industriais e políticos engajados – têm se deslocado a Brasília com a missão de fazer pesado lobby junto ao Ministério. A pressão é tanta que o órgão hesita em editar a portaria que autorizaria a adição de até 5% do açúcar na erva-mate (50 gramas em um quilo). O secretário da Vigilância Sanitária, Gonzalo Vecina Neto, promete uma definição no prazo de 15 dias. Qualquer decisão vai colocar mais lenha na fogueira de um embate já transferido do campo sanitário para o terreno mercadológico. |