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Laço



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Reportagem realizada para a Série "Símbolos Gaúchos", publicado em Zero Hora de 23 de setembro de 1999. Autoria de Nilson Mariano com fotos de Mário Brasil.

Nesta reportagem sobre os objetos de adoração do gaúcho, que começou na última segunda-feira e terminará amanhã, ZH apresenta as origens e a utilidade atual do laço. Inúmeros artesãos do Estado, chamados de “guasqueiros”, continuam fazendo esse instrumento de capturar animais bravios e indispensável nas lides campeiras. O laço é um dos fetiches dos rio-grandenses, assim como a faca, a bombacha, o vestido de prenda, o poncho, a bota e a bomba de tomar chimarrão.

"No campo surgiam com laços e aprisionavam o inimigo com destreza que não sabiam exibir no uso de um mosquetão." Observação de John Luccock, em 1809, referindo-se aos gaúchos de uma milícia de Rio Grande.

Nos tempos indômitos da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, laços e boleadeiras foram imprescindíveis para os gaúchos que precisavam capturar bois e cavalos selvagens. As boleadeiras viraram peça de museu, tamanha a violência com que se abatiam sobre animais e homens, às vezes espatifando ossos, mas o laço continua sendo utilizado como instrumento de trabalho.

A origem do laço é remota. Foi manejado por guerreiros tártaros (Ásia, ao sul da Sibéria), conforme observações do viajante belga Fernand Verbiest (1623-1688). No Rio Grande do Sul, o uso da corda de couro trançado para laçar animais foi introduzido pelos índios guaranis, das missões jesuíticas. O laço surgiu em decorrência da necessidade de prear as manadas de gado – o pilar econômico da província, pois fornecia a carne como alimento e a courama para as habitações e os utensílios. O historiador Aurélio Porto pesquisou a origem dos bois que se espalharam por aqui:

– O gado que os jesuítas introduzem, em 1634, no território que se estende a oriente do Rio Uruguai, e que vai se constituir o casco da pecuária rio-grandense e uruguaia, procede, em suas origens primitivas, dos rebanhos brasileiros de São Vicente, aí introduzidos um século precisamente antes, por ordem do donatário dessa capitania, Martim Afonso de Souza...

O lendário Maneco Pereira ganhou fama ao laçar animais utiliznado os pés

A prática continuada formou exímios laçadores, gaúchos intrépidos que não temiam touros ferozes de aspas pontudas, mesmo quando os cavalos se atolavam em tremedais. Um dos mais afamados foi Manuel Bento Pereira (1848-1926), nascido em Rio Pardo e que morou na região de Rosário do Sul e de São Gabriel. O historiador Osório Santana Figueiredo, 73 anos, resgatou as façanhas de Maneco Pereira, no livro O Homem que Laçava com o Pé.

– Entre todos os grandes laçadores de sua época, ele foi o maior de todos os tempos – ressalta Figueiredo, que entrevistou familiares e testemunhas dos feitos.

Maneco Pereira aprendeu laçando galinha e quero-quero, com instrumentos de barbante. Quando pôde empunhar um laço – de 12 a 15 braças de comprimento (de 26 a 33 metros), trançado com quatro tentos (tiras) de couro cru – tornou-se o mais rápido e preciso. Quando outros gaúchos já reboleavam o laço no encalço da rês, ele ainda estava com o seu apresilhado no lombilho (sela do cavalo). Mesmo arrancando depois, era o primeiro a alcançar os chifres do boi. A proeza de pealar (laçar um bicho em disparada pelas patas dianteiras, derrubando-o numa cambalhota) se consolidou em Bagé. Um fazendeiro desafiou Maneco, prometendo presentear-lhe os carneiros que conseguisse pealar manejando o laço com o pé. Quando o quinto animal caiu na laçada, o boquiaberto criador encerrou a aposta, receoso de perder todo o rebanho.

O laço também foi usado em tempos de ira. Há relatos de gaúchos que teriam arremetido contra infantarias, laçando canhões fumarentos. John Luccock admirou-se, em 1809, de que os rio-grandenses eram mais hábeis no laço do que ao gatilho dos mosquetões. O historiador Alfredo Varela, no livro História da Grande Revolução, relatou a eficácia da laçada:

– ... Com ela não erram jamais a pontaria ou o golpe... é arrojada por um destes cavaleiros, à distância de 30 metros, com a velocidade da bala e com a mesma é seguro ou arrastado o objeto alcançado. O sargento Nóbrega foi desgraçada vítima desta arma.


Prática diária: peões, exímios laçadores, levaram a técnica pastoril para as batalhas

Guasqueiros preservam segredos remotos


Ritual: técnica exige do artesão paciência e capricho para a confecção
do autêntico laço gaúcho, que não corre o risco de rebentar

O artesão Daiço Lemos Lacerda, 57 anos, de Bagé, herdou a sabedoria campeira na arte de fazer o verdadeiro laço gaúcho. Assim como outros “guasqueiros” autênticos, ele conhece segredos atávicos que estão desaparecendo com o tempo. No momento de preparar o couro, observa detalhes como a influência da fase da lua e a uniformidade do pêlo do boi. Com paciência e capricho de ourives, Lacerda elabora peças que subjugam touros xucros sem risco de rebentar e deixar o laçador na mão.

– Um laço feito por mim não pode espichar dois palmos. Não é como esses que vêm de Santa Catarina, mais baratos, mas feitos de qualquer jeito – orgulha-se Lacerda.

O laço que Lacerda faz não desfia e nem encaroça. O ritual começa pela escolha do animal. Lacerda prefere um shorthorn, raça britânica que foi introduzida no Estado por Bagé, em 1902. O boi deve ter cerca de quatro anos de idade e não pode estar rachando de gordo.

– O pêlo deve ser um só, mas não deve ser preto – ensina.

O couro é limpo (raspagem dos pêlos e retirada da graxa) manualmente, com faca, logo depois do abate, sem o uso de produtos químicos. É estendido no chão, bem esticado, sobre um estrado de madeira, com exatas 50 estacas. Nem mais, nem menos. O lado onde tinha a graxa vai para cima, exposto à intempérie, para que a “flor do couro” (onde havia pêlos) não seja danificada pelo sol ou pela chuva.

Depois de seco, o couro começa a ser retalhado. Lacerda e outros guasqueiros de lei aproveitam apenas os dois costilhares (as laterais), dispensando a barriga e o lombo do animal. Os tentos (tiras) são cortados em círculos, por mãos hábeis e seguras, na grossura de um lápis. Os dois tentos (um de cada costilhar) devem atingir 30 braças cada – cerca de 66 metros. Depois, os tentos ficam num molho de água (algo como 12 horas) e são esticados (aproximadamente três dias).

Produtos de qualidade inferior estão prejudicando peças originais

A tarefa de trançar o laço também requer cuidado e paciência. As duas longas tiras (tentos), de 30 braças cada, são emparelhadas, num instrumento rústico chamado “descarnadeira”. Elas ficam na mesma espessura, sem arestas. Então, são dobradas ao meio, transformando-se em quatro tentos, num total de 15 braças (33 metros) cada. Esse será o tamanho final.

Sentado numa cadeira baixa, na garagem da casa onde mora, Lacerda começa a entrelaçar os quatro tentos. Utilizando espuma de sabão para deixar o couro maleável, ele tece pontos simétricos.

A demora para aprontar um laço, desde a escolha do couro ao remate final da presilha, depende das variações do clima e do esmero na elaboração. Lacerda e outros guasqueiros legítimos estão sendo prejudicados por concorrentes que oferecem laços baratos (entre R$ 30 e 50 reais), mas de qualidade inferior. Estabelecidos principalmente em Santa Catarina, eles empregam químicos no curtimento, o que deixa o couro frouxo. Também estão colocando chumbo (essas chumbadinhas de anzol de pescar lambari), para facilitar a armação do laço.

– Tem que gostar do que faz. Acho que é uma coisa que vem de família, o meu pai era guasqueiro – diz Lacerda, atento à próxima fase da Lua minguante, a mais apropriada para selecionar o couro.

Lacerda também confecciona arreios para cavalos. Um jogo completo (buçal, cabresto, rédeas, cabeçada, rabicho e peiteira) custa R$ 500. Fazendeiros da região costumavam encomendar os aperos para os filhos que estavam por nascer. Orgulhosos, pediam para Lacerda desenhar, com fios de couro, a marca do gado da estância na encilha.