Não há morador antigo de Vacaria que não tenha conhecido o "Zeca do Padre". Alto e magro, nariz
adunco, olhos de gavião mirando pinto, sabia de todos e de tudo. Nunca por ele mesmo: "Me contaram - e
se minto é por boca alheia - que..."
Tinha este apelido por haver sido, em jovem e por muito tempo, sineiro da matriz vacariana e íntimo
do padre. Tão íntimo da gente de batina que acabou conseguindo um cartório, cujas funções assumiu
pouco antes dos trinta anos. São várias as histórias que o têm como personagem.
Solteiro, morava numa casa de madeira que lhe servia de residência e cartório, ao mesmo tempo. Sua
mesa ficava junto da janela, de onde, como de um mirante, acompanhava o movimento da vila que as
fazia cidade. Isso por voltas de 1920.
Ao lado de sua casa, numa meia-água de quatro peças, morava uma castelhana " que recebia homens".
Solita, como galinha em gaiola de engorde. Recebia seus amigos - na sua maioria fazendeiros abonados
- depois que se fazia noite. Tinha até uma quase escala de visitantes: segunda-feira, fulano,
terça, sicrano, e por aí se ia. Raramente tinha visitas à tarde.
Mas acontecia. O cliente vinha
pela calçada, assobiando como quem não quer nada e, ao notar que não estava sendo observado,
entrava rapidamente pelo portãozinho de ripas e ia bater na porta dos fundos. A senha era conhecida
dos frequentadores: três batidas fortes, um espaço e nova batida. Abriam-se a porta e os braços
da castelhana. A Zeca do Padre não escapavam esses lances. Chegava ao cúmulo
de anotar nome do incauto, dia e hora da visita.
Certa tarde um moço bem apessoado - forasteiro, notou Zeca do Padre, gente de outras bandas - chegou
à casa da castelhana sem qualquer preocupação. O escrivão notara que, meia hora antes, um cliente
já conhecido se insinuara como um gato pela lateral da casa. A castelhana, por conseguinte, deveria
estar ocupada quando o forasteiro bateu à porta da frente. Uma, duas vezes e nada.
Zeca do Padre chegou à janela. Como quem deseja apenas auxiliar, perguntou ao moço:
- É, acho que não. Ninguém responde.
- Boa tarde, moço. Não tem ninguém em casa?
- Pois se não respondem é porque tem...