Um peão lá da Bossoroca, conhecido como Mano Tasso, ginete
dos buenassos, tinha uma beleza de guaiaca da qual muito se orgulhava.
Ganhou a dita guaiaca num concurso de tiro de laço lá pras
bandas de Santiago do Boqueirão. Era uma guaiaca flor de especial,
couro brazino de touro chucro, muita prata e incrustada com pedras
trabalhadas com arte... Ônix, Ágatas, Turmalinas e até uma baita
esmeralda ornavam a hermosa peça de indumentária, que era o xodó
do índio taura.
Por onde quer que andasse, era comum a admiração causada pela
tal guaiaca. Não poucas nem mixurucas eram as propostas que recebia
para vendê-la ou mesmo cambiá-la. "Dou uma parelha de carneiros",
ou "Troco por um barril de pinga da boa e mais minha guaiaca velha".
- Não importava a proposta, Mano Tasso não se desfazia por nada de
sua bela guaiaca, que tanto chamava a atenção das chinocas pelas
bailantas e bochinchos que frequentava...
Tinha até os que tentavam levar a guaiaca em alguma aposta,
mas não adiantava, pois o taura se garantia - fosse no jogo do osso,
no carteado ou cancha reta - sempre acabava com a guaiaca e as prendas
apostadas pelos incautos. "Alem de bonitaça, ainda me dá sorte esta
minha guaiaca" costumava bravatear...
Certa feita lá pros lados de Santo Angelo, a guaiaca chamou a
atenção de um tal de Chico Espora, que tentou de todas as formas ficar
com a guaiaca - que Mano Tasso às vezes chamava de "meu talismã".
Vendo que nada adiantava, resolveu "desistir" de ganhar a guaiaca e
partiu para uma tática diferente. Não falou mais no assunto e passou
a puxar conversa-fiada e meter trago guela-baixo do dono da guaiaca.
O índio não se entregava fácil pra canha, e foi "perciso"
quase três litros da que matou o guarda pra entortar a guampa do
Mano Tasso. Sentindo que havia se passado no trago, e pressentindo
a maldade, deu um jeito de sair do bolicho - alegando que tinha que
encontrar uma chinoca e que a noite se achegava e tal e cousa.
Montou no zaino e saiu picada a fora, sem perceber que era
seguido pelo maleva do Chico Espora... Pelas tantas, resolveu
apear pra tirar um cochilo encostado numa árvore até esfriar os
miolos e passar a bebedeira.
Era a oportunidade que o Chico esperava, e mal o Mano apagou,
foi subtraído de sua tão estimada guaiaca.
Quando acordou e deu por falta da guaiaca, bateu um misto de
desespero e raiva no coitado do Mano Tasso. "Mas que barbaridade
tchê, isto é cousa que não se faz nem com cachorro comedor de ovelha"
- pensou se sí para persí nosso personagem.
Partiu em louca disparada, levantando polvadeira rumo ao
bolicho onde enchera a cara, disposto a sangrar o desgranido que
levara a guaiaca. Mas nada. O desalmado ladrão havia se escafedido
mundo-fora e o pobre do Mano Tasso - por mais que assuntasse e
procurasse o maleva - não tinha jeito de encontrar.
Alguns meses despues, já quase resignado pela perda da amada
guaiaca, encontra em um bolicho o tal Chico - guaiaca na cintura -
bebendo e contando vantagem numa roda de peões.
Sentindo em suas veias o sangue a ferver, resolve acabar com
a vida do Chico ali mesmo, mas antes disso vai desacatar e desmascarar
o safado, pra que todos saibam quem é o verdadeiro dono da guaiaca e
que a morte é o justo salário para um ladrão.
Como quem não quer nada com nada, se aprochega na roda de charla
e, mão na solinge e olho no olho de sua iminente vítima, dispara:
- Que mal le pergunte, onde arranjou esta guaiaca ?
O Chico, pressentindo o perigo, manteve a calma e respondeu:
- Pues sabes, tchê... Esta belezura de guaiaca eu peguei de um
borracho que encontrei na beira do caminho... Aliás, não foi só a
guaiaca, sabes como é... cú de bêbado não tem dono, então aproveitei
a ocasiã pra pegar a guaiaca e barranquear o pau-d'água - pois que
um traste daqueles não merece uma guaiaca tão bonita... Mas porquê
perguntas da guaiaca? Por acauso conhecias o dono?
E o infeliz do Mano Tasso:
- Por nada não... bonita guaiaca...