EPÍLOGO


Embora tenha sido considerado durante muitos anos como sendo uma mulher inculta, na verdade, após retirar-se de Laguna, Anita teve inúmeras oportunidades para adquirir cultura geral, e as aproveitou muito bem. Convivendo com pessoas cultas, literatos, jornalistas, oficiais graduados, vultos e líderes da campanha farroupilha, da independência do Uruguai e da unificação italiana, Anita impôs-se por sua forte personalidade, fazendo-se respeitar por onde quer que tenha andado.

Quase analfabeta, acultuou-se com este tipo de convivência e com os conhecimentos das leituras das diversas obras que teve oportunidade de ler. Ao falecer falava português, espanhol e italiano fluentemente. Também dominou razoavelmente o francês, além do dialeto típico do Piemonte. Sua aguçada sensibilidade com os problemas sociais da época, a tornaram precursora dos sentimentos de liberdade das populações oprimidas e excluídas;Dedicou parte e colocou em risco sua própria vida em defesa da República Catarinense, da República Riograndense, da República Uruguaia e da República Romana.

Foi protagonista e guerrilheira contra as tiranias, os centralimos, a favor dos oprimidos, a favor da descentralização, a favor dos direitos das mulheres. Hoje diríamos, a favor do federalismo e da paridade de oportunidades. No Brasil, antecipou-se em meio século a implantação definitiva do regime republicano. Os movimentos pela implantação do regime republicano, alimentavam as esperanças de mudanças políticas e sociais, pois exigia o democrático exercício do poder pelo voto da população. Esta perspectiva do poder ser exercido pela livre escolha dos cidadãos, era fundamental para as mudanças que pregavam o fim dos regimes autoritários, despóticos e centralizadores remanescentes.

A República, era, portanto, a forma mais imediata de combater o poder discricionário dos governantes da época. Engajada integralmente neste ideal, Anita foi o único vulto feminino da história da humanidade que lutou pelo movimento republicano em quatro países diferentes de dois continentes. Deve, portanto, ser homenageada e festejada como um dos vultos mais importantes para o Movimento republicano. A simples referência ao seu nome, mesmo depois de morta, diante de seus restos mortais, serviu para levantar o orgulho e a coragem do povo italiano, que comandados por Garibaldi, formaram novos exércitos, consolidando definitivamente a unificação da Itália;Por ser guerreira, enfrentou e venceu as barreiras e os preconceitos sociais da época, sem no entanto abdicar e perder sua feminilidade e maternidade, colocando o amor ao seu homem, acima de sua própria vida.

Em diversos momentos, como mulher insistiu na prática das emergentes teorias da revolução francesa sobre a igualdade entre homens e mulheres. Sua personalidade meiga, seu caráter de fidelidade ao seu companheiro e aos ideais de liberdade aos oprimidos, agregados à forte e extraordinária coragem com que, como guerreira, dedicou-se aos combates, não lhe impediram de tornar-se zelosa mãe e inigualável esposa. Sua vida foi de lutas, dores e sofrimentos, sem abandonar seus ideais republicanos. Mulher sensível a dor e ao sofrimento humano, em diversas ocasiões compadeceu-se de seus inimigos feridos, servindo-os como sua enfermeira. Após os combates organizava os serviços de enfermagem mais emergentes, improvisando os primeiros socorros com os meios que dispunha.

Com sua consoladora presença e amparo, aliviava as dores e o sofrimento que as lutas causavam Todos estes fatores outorgam-lhe um lugar de destaque na história da humanidade, sem paralelo, superando nomes lendários, como de Julieta, Joana D'Arc, Eva Peron, Catarina da Russia, Maria Antonieta e outras. Anita Garibaldi foi, sem dúvida alguma, uma grande e incomparável expressão feminina que nossa civilização gestou.