Movimento de repatriamento dos restos mortais de Anita


Nos últimos anos, alguns lagunenses ilustres, tomaram iniciativa para tentar repatriar os espólios mortais de Anita. A última iniciativa que se tem notícia, aconteceu em 1970, com o apoio do jornal O Correio do Povo, que deflagrou uma campanha com este propósito. Por motivos desconhecidos, não foi levada adiante.

Em uma viagem à Itália, acontecida em 1996, amigos do autor o questionaram sobre o aparente desinteresse brasileiro quanto a memória da Heroína, o que foi contestado. No entanto, este questionamento fez com que, ao regressar, o autor, que é rotariano, colocasse o assunto em apreciação em uma das reuniões semanais do Rotary Clube de Laguna República Juliana. Feito um relatório, a entidade nomeou o autor e outros membros para estudarem as possibilidades de ser desencadeada uma campanha visando o cívico resgate. O ponto de partida deveria ser o reconhecimento judicial de sua nacionalidade, procedendo-se o registro de nascimento tardio. Em um programa radiofônico efetuado na Rádio Laguna, com o jornalista Ivan Pimentel, aferiu-se o grande interesse da população lagunense no assunto.

Ficou decidido, então, ser criada uma instituição destinada a tutelar, zelar, administrar, divulgar, recolher e reconstruir todo o patrimônio material, histórico e moral de Anita Garibaldi. Em reunião especialmente convocada pelo referido clube rotário, no dia 22 de março de 1999 foi criada a Fundação Anita Garibaldi, que dentre os seus objetivos também deveria deflagrar e conduzir uma campanha visando o repatriamento. Neste histórica reunião compareceram diversas outras entidades, representadas por seus titulares, sendo eleita a sua diretoria que ficou assim constituída:

Presidente - Adílcio Cadorin Vice Presidente - Antônio Carlos Marega
Secretario - Luiz Carlos Melo de Oliveira Vice Secretaria - Hilda Soares Bicca
Tesoureira - Almerinda Guedes de Castro Vice Tesoureira- Turquesa Tasso
Conselheiros Titulares : Dr. Carlos Prudêncio - João Gualberto Pereira - Padre Antônio Herdt
Suplentes: Dr. Adib Massih - Sebastião Honorato - Dr. Márcio Rodrigues
Departamento Jurídico: Dr. Helder Remor de Sousa
Departamento Pesquisas e Arquivo : Antônio Carlos Marega
Departamento Comunicação Social: Paula Trevisan

A fundação passou a efetuar contatos com o Ministério das Relações Exteriores - Itamaraty, a quem foi remetido um longo dossiê contendo um histórico e fazendo a apologia da necessidade do repatriamento dos restos mortais de Anita. Com a colaboração e participação dos deputados federais Pedro Bittencourt, Fernando Agostini e do deputado estadual Paulo Bornhausen, o Ministro concedeu uma audiência ao autor e a representantes de entidades lagunenses, em nome da Fundação Anita Garibaldi, quando então foi narrado ao Ministro Luiz Fernando Lampreia, todos os desdobramentos até então ocorridos. Também ficou definido que oportunamente o Ministro viria a Laguna, para receber das mãos das autoridades lagunenses a certidão de nascimento da Heroína, documento este que outorga legitimidade ao Governo Brasileiro para solicitar o repatriamento ao Governo italiano.

Avizinhando-se a data de 04 de agosto de 1999, quando deverão ser reverenciados os 150 Anos de Morte de Anita Garibaldi, o Governador do Estado de Santa Catarina, Esperidião Amin, através do Decreto 199, 03 de maio de 1999, nomeou uma Comissão Oficial, composta por onze entidades, com o intuito de preparar os atos de reverenciamento à memória da Heroína. Em reunião desta Comissão, por proposição da Fundação Anita Garibaldi, que é entidade-membro, ficou decidido que além de organizar os atos comemorativos, também será de sua competência invitar todos os esforços possíveis para o repatriamento, prorrogando suas atividades e existência até que o mesmo seja efetivado.

Contado pela Fundação Anita Garibaldi, o deputado estadual Gilmar Knesel, Presidente da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, convocou a mesa diretora da instituição e assumiu oficialmente, em nome do Poder Legislativo, a campanha pelo repatriamento. Com estas decisões das duas maiores autoridades executivas e legislativas do Estado, a campanha passou a ser uma postulação oficial de Santa Catarina.

Como estava programada viagem de delegação de deputados catarinenses às regiões e províncias do Vêneto e do Trento, na Itália, para tratarem de outros assuntos, foi agregado ao roteiro desta delegação diversas visitas oficiais com vistas a preparação de posterior pedido de repatriamento que deverá ser feito pelo Governo Brasileiro. Multi-partidária, a delegação foi composta pelos deputados estaduais Gilmar Knesel, Ivan Ranzolin, Volnei Morastoni, Reno Caramori, Rogério Mendonça, Romildo Titon, Ronaldo Benedet, Onofre Agostini, Gelson Sorgato, pelo deputado federal Pedro Bittencourt Neto, pelo representante do Governador de Santa Catarina, Mauro Beal e pelo autor, como representante da Fundação Anita Garibaldi.

A delegação levou um dossiê contendo publicações jornalísticas nacionais sobre Anita Garibaldi, e teve a oportunidade de entrega-lo em Roma à Senadora Patrícia Tóia, sub-secretária da Farnesina - Ministério de Relações Exteriores da Itália, que concedeu audiência e recebeu a delegação catarinense acompanhada por Annita Garibaldi Jallett, bis-neta da Heroína. Ainda em Roma, tiveram longo encontro com a Associazione Reducci Garibaldini, em cuja sede os recebeu a Sra. Erika Garibaldi- esposa de um dos netos de Anita - e o Sr. Giuseppe Garibaldi, bisneto de Anita. Neste encontro também foi entregue idêntico dossiê, como testemunha do valor e importância que Laguna e Santa Catarina devotam a memória de Anita. Na província e cidade de Ravenna, a Delegação foi recebida pelos deputados provinciais e pelas autoridades municipais, onde foi enaltecido o fato de que Laguna, por ter sido a terra natal de Anita, deva celebrar um gemellagio, tornando-se cidade irmã de Ravena, por ter sido o lugar onde Anita faleceu.

Nestes encontros a Delegação efetuou convites para que os descendentes de Anita venham a Laguna para participarem das celebrações de reverenciamento aos 150 de sua morte. A delegação também visitou o Monumento à Anita, na Colina do Gianícolo, em Roma onde atualmente repousam seus restos mortais. Nestas audiências as autoridades italianas afirmaram sua disposição em colaborar com todas as iniciativas brasileiras que visem o enaltecimento da memória e a preservação dos feitos de Anita Garibaldi. A Senadora Patricia Tóia enfatizou que quando o Governo Brasileiro fizer o pedido de repatriamento, o mesmo será analisado com muita consideração, pois existem diversos fatores que merecem ser considerados, tais como ser o Brasil um grande parceiro comercial da Itália, ter o Brasil imolado o sangue de seus soldados pela libertação italiana na 2ª Guerra Mundial e ser o Brasil o país que acolheu o maior número de imigrantes italianos.

Todos os descendentes com os quais a delegação teve a oportunidade de conversar, manifestaram-se satisfeitos e profundamente grato com a mobilização que está sendo feita em prol do repatriamento. Embora não fosse a missão da delegação, os familiares externaram que quanto a um possível pedido de repatriamento, o mesmo deverá ser decidido pelo Governo italiano, e não pelos descendentes. A delegação, posteriormente, foi recebida pelo embaixador brasileiro em Roma, Ministro Paulo Tarso Flecha de Lima, que declarou-se um soldado do movimento pelo repatriamento, disposto a colaborar com tudo quanto seja necessário.


DURANTE O REVERENCIAMENTO E COMEMORAÇÕES DOS 150 ANOS DE MORTE DE ANITA, LAGUNA FOI CAPITAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA

Avizinhando-se o dia 04 de a No dia que completou 150 anosde morte de Anita, ocupando o balcão da antiga sede da República Catarinense, hoje transformada em Museu Municipal, discursaram o Governador do Estado Esperidião Amin, o Presidente da Assembléia Legislativa Deputado Gilmar Knesel, o presidente do Tribunal de Justiça Desembargador João Martins, o representante do Prefeito Municipal de Laguna Dr. Adib Massih e o auator, na qualidade de Presidente da Fundação Anita Garibaldi.


gosto de 1999, quando celebrou-se os 150 de morte da Heroína, a Fundação Anita Garibaldi e a sociedade civil lagunense, envidaram todos os esforços para transformar a data num ato cívico de grande significado. Foram feitos os contatos com as autoridades estaduais. Sensibilizadas e demonstrando grande interesse em marcar historicamente a data, o Governador do Estado de Santa Catarina, Esperidião Amin, através do Decreto 199 de 03.05.199, resolveu nomear uma Comissão Oficial, que em nome do Estado organizasse as comemorações e os atos de reverenciamento. Integraram esta Comissão as seguintes pessoas e personalidades:

- Dr. Celestino Secco - Chefe do Gabinete do Governador do Estado
- Dr. Iaponan Soares - Fundação Catarinense de Cultura
- Dr. Carlos Prudêncio - Desembargador
- Dr. Norberto Ungarethi - Desembargador
- Dr. Adilcio Cadorin - Presidente Fundação Anita Garibaldi
- Dr. Flavio de Almeida Coelho - Presidente da Santur
- Dr. Pedro Henrique Bucker Bastos - Fundação Catarinense de Desporto
- João Gualberto Pereira - Prefeito de Laguna
- Professora Mirian Schlickmann - Secretaria Estadual de Educação e Desporto
- Reitor Raimundo Zumblick - Universidade do Estado de Santa Catarina
- Reitor Silvestre Herdt - Reitor da Universidade do Sul de Santa Catarina
- Cel. Friedrich Tiemann - Chefe da Casa Militar
- Colombo Machado Salles - Ex-Governador do Estado de Santa Catarina

A Comissão, que inicialmente tinha atividade até o dia 4 de agosto, resolveu, em reunião ordinária, por deliberação unânime, incluir em seus propósitos o repatriamento dos restos mortais de Anita, devendo ser considerada extinta somente após atingido este seu objetivo.

Paralelamente, além dos atos cívicos do dia 04 de agosto, também elaborou uma larga programação, que ainda está sendo desenvolvida em todo o Estado de Santa Catarina. Tais atos e programas, que têm como tema e motivação a valorização da Heroína, compreendem atos cívicos, peças teatrais, concursos de monografias, de poesias, de contos, de pinturas e de artes plásticas, além de eventos e maratonas esportivas, muitas das quais ainda estão sendo executadas pelas secretarias de Educação, de Esportes, de Ação Social, Fundação Catarinense de Cultura, Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Santur, Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Prefeitura Municipal de Laguna, Fundação Lagunense de Cultura, além de diversas outras instituições não governamentais.

Para deixar gravado o sentimento de gratidão e reverenciamento que o povo catarinense nutre à memória de Anita, os chefes dos três poderes do Estado de Santa Catarina, Esperidião Amin, como Governador do Estado;Deputado Gilmar Knesel,, como Presidente da Assembléia Legislativa, e o Desembargador João Martins, como Presidente do Tribunal de Justiça, tomaram a decisão conjunta de transferirem a sede dos três poderes e portando do Governo do Estado para a cidade de Laguna.

Às 10 horas da manhã, ocupando o balcão da antiga sede da República Catarinense, hoje transformada em Museu Municipal, discursaram o Governador do Estado, o Presidente da Assembléia Legislativa, O presidente do Tribunal de Justiça, o representante do Prefeito Municipal de Laguna Dr. Adib Massih, além do autor, na qualidade de Presidente da Fundação Anita Garibaldi. Na seqüência houve desfile cívico, com a participação de organizações militares, cavalarianos e entidades civis.

Posteriormente, foram realizados os atos de instalação do Governo do Estado em laguna, como Capital do Estado durante todo o dia 4 de agosto, tendo sido descerrada uma placa de bronze comemorativa a tão significativo ato. A Assembléia Legislativa instalou-se no Clube Congresso Lagunense, e, com a presença de seus quarenta deputados, fez uma sessão solene, onde pronunciaram-se as autoridades. O Tribunal de Justiça instalou-se no Clube Blondin, onde também efetuou uma sessão solene, da qual participaram todos os desembargadores do Estado, manifestando-se seus expoentes em reverenciamento à Anita. No Centro Comunitário da Igreja matriz, instalou-se o Poder Executivo, com todos seus secretários, tendo o Governador Esperidião Amin assinado decretos e praticado atos de governo, consolidando a transferência da Capital do Estado para Laguna, naquele dia. No final da tarde e durante a noite houveram diversos lançamentos de obras literárias sobre Anita, sendo a primeira edição desta uma delas.

Abaixo a transcrição do pronunciamento feito pelo autor, durante tão importante solenidade:


"ANITA - FATOR DE GERAÇÃO DE ORGULHO PARA ALAVANCAR NOSSO DESENVOLVIMENTO SOCIAL, CULTURAL E ECONOMICO.

No instante em que Laguna foi guindada a condição de Capital do Estado de Santa Catarina, a FUNDAÇÃO ANITA GARIBALDI não pode deixar de manifestar sua gratidão por tão significativo reconhecimento à memória de Ana Maria de Jesus Ribeiro.

A transferência dos Tres Poderes Estaduais, fortalece e demonstra que passo a passo, a cada dia que passa, Laguna fica mais próxima da realização de um velho e acalentado desejo: o de repatriar os restos mortais de sua mais ilustre filha, a Anita Garibaldi.

De fato, o Poder Judiciário Catarinense, com a isenção que lhe é peculiar, logo após apreciar e julgar requerimento de instituições lagunenses, reconhecendo a nacionalidade brasileira e naturalidade lagunense da Heroína, emoldurou com inesquecível solenidade jurídica o ato de seu registro de nascimento tardio.

Com este gesto, o Judiciário Catarinense outorgou ao Brasil e à Laguna o instrumento indispensável ao início do procedimento que poderá tornar realidade o sentimento e o desejo pelo repatriamento. Como advogado, orgulho-me pessoalmente, não como patrocinador deste histórico e inédito processo. Orgulho-me em poder dizer, de cabeça erguida, que faço parte da família jurídica catarinense, que é exemplo nacional em todos os sentidos, passando incólume por este difícil momento que outros tribunais brasileiros atravessam.

Tão logo foi expedida a certidão de Anita, e avizinhou-se esta data, o Poder Executivo do Estado de Santa Catarina, entendendo a grandiosidade do momento, teve a sabia inspiração de nomear por Decreto Estadual, uma Comissão Especial, a quem delegou a incumbência de preparar os atos de reverenciamento aos 150 anos de morte de Anita. Não apenas nomeou cinco lagunenses para esta Comissão, como ainda delegou-lhe os poderes para que a mesma seja extinta somente quando os restos mortais da Heroína repousarem definitivamente em solo pátrio, na sua terra natal, em Laguna.

Sensibilizados pelos movimentos que a Fundação Anita Garibaldi desenvolvia, o Poder Legislativo Catarinense, através da Assembléia Legislativa, não exitou um instante sequer em apoiar o projeto de repatriamento. Em corajoso gesto, secundado pelos 9 deputados que nos acompanharam à Itália, inicialmente incompreendido por alguns segmentos da imprensa, não foi o de apenas hipotecar solidariedade, mas, tal qual Anita fez enquanto Giuseppe Garibaldi a aguardava no Uruguai, foi o de missão precursora, destinada a abrir as portas da sensibilidade italiana, preparando o terreno, lá lançando, no fértil solo da fraternidade ítalo-brasileira, a semente da frondosa árvore da gratidão, que brevemente, após ser regado pelo Governo Federal Brasileiro, permitirá que a Laguna e o Brasil colham o fruto tão desejado e sonhado que se chama repatriamento dos restos mortais de Ana Maria de Jesus Ribeiro.

Indiscutível portanto, o fato de que a Fundação Anita Garibaldi e Laguna desfrutam de incondicional solidariedade e apóio dos Tres Poderes do Estado de Santa Catarina para este projeto, que além de resgatar um débito histórico que temos para com a memória da mais importante Heroína Brasileira, é também uma forma de alavancar o sentimento de auto-estima e de orgulho da gente catarinense e brasileira.

É assim que interpretamos este apóio e solidariedade que o Governo Estadual manifestou com sua inédita instalação e presença em Laguna.

Povo que não tem orgulho, povo que não cultiva seus heróis e sua história, é povo que não tem memória. E povo que não tem memória e nem orgulho, é povo que se deixa explorar e escravizar. E não se desenvolve em nenhum dos campos humanos.

A campanha pelos restos mortais da heroína não é apenas o pagamento de uma dívida para com nossa história.

A Anita representa para nós a retomada do exercício de nossa plena cidadania. Quando manifestamos nosso desejo de repatria-la, estamos dando ao Mundo um demonstração de elevado sentimento de respeito aos nossos valores morais e históricos, impondo que nos olhem com respeito e admiração, fatores estes que, lamentavelmente, o Brasil tem conseguido apenas com atividades esportivas.

Embora somente agora estejamos despertando para o sentimento cívico que os grandes e corajosos atos e a história de Anita encerram, ainda há tempo suficiente para projetarmos e alavancarmos novos campos de atividades, calcados na sua história de mulher revolucionária, de enfermeira, de mãe, de amante, de precursora dos ideais republicanos e da justiça social que ainda não temos.

Seus exemplos e feitos, podem e devem alavancar novas revoluções, como, por exemplo, nas indústrias do turismo e cinematográfica, nas artes cênicas, na literatura, na cultura, e principalmente, na formação de um novo perfil dos futuros cidadãos catarinenses, que adquirirão consciência da importância de indispensável fator de desenvolvimento cultural, econômico e social: o orgulho barriga-verde! "

No dia seguinte, 5 de agosto, em Florianópolis, aconteceu a Exposição Anita Garibaldi, evento celebrativo ao Sesquicentenário da Morte da Heroína dos Dois Mundos, promovido pela Assembléia Legislativa, em seu Salão Nobre, cuja exposição contou com o acervo do Prof. Wolfgang L. Rau, além do lançamento oficial da primeira edição desta obra. Novamente, as autoridades estaduais prestigiaram a memória de Anita, ali fazendo-se presentes.