Capítulo XVII
Anita e Garibaldi recusaram-se a deporem as armas. Acompanhados por 4.700 legionários, retiraram-se de Roma
ANITA COMBATEU EM ROMA
Em 30 de junho o General Oudinot lançou seu mais decisivo ataque a Roma, bombardeando-a impetuosamente, Os republicanos resistiram dezoito horas de incessantes combates. Quando chegou em Roma, ficou hospedada na residência de Angelo Brunetti, conhecido como "Ciceruacchio" (Pequeno Cícero), porque era muito culto e fazia inflamados discursos em pról da República Romana. Era idolatrado pelos romanos. Sua esposa Lucrezia Brunetti acolheu Anita com vivo entusiasmo.
Na manhã de 30 de junho, Anita amanheceu combalida. Tentou levantar-se para ir ao Gianícolo, onde travava-se o mais ferrenho combate, mas não pode manter-se em pé. Não preocupou-se muito, pois atribuiu aquela sua "fraqueza e tonturas" a sua gravidez de aproximadamente cinco meses. No entanto, provavelmente, era a primeira manifestação do impaludismo que a vitimaria fatalmente alguns dias após. Mesmo assim, queria participar da luta, acompanhar o marido em seus momentos mais difíceis, mas a sua debilidade não o permitiu. Sentindo que mesmo combalida deveria encorajar Garibaldi à combater com todas as suas forças, mandou-lhe um bilhete: "Meu amigo, na hora da peleja, não penses em mim nem em nossos filhos: não cuides senão da Itália". (89)
Irresignada por não participar, mais uma vez falou mais alto a consciência da guerreira, colocando em segundo plano seus sentimentos afetivos, preterindo-os pelos ideais republicanos.
Mesmo distante, mais tarde, sentindo-se restabelecida, Anita não pode conter-se. A sua indisposição e mal estar não foram suficientemente fortes para mantê-la acamada, afastada das linhas de combates. Grávida, combateu e assistiu a triste morte do fiel escudeiro Tenente André Aguiar, o negro que Garibaldi havia libertado na América. No dia seguinte, na ordem do dia de sua Legião, Garibaldi escreveu:
"A América perdeu ontem um filho valente, André Aguiar, e nele um penhor do amor dos livres de toda a Terra pela nossa Itália infeliz". (90).
A RETIRADA DE ROMA
Logo após esta longa e sangrenta batalha, que muito embora tenha sido vencida pelos defensores do papado, ainda não lhe deu a posse total de Roma, os líderes e membros da Assembléia da REPÚBLICA Romana, reunidos sob a liderança de Mazzini sentiram-se compelidos a abdicar da continuidade da luta, e aceitaram um armistício que os obrigava a depor e entregarem as armas. Era o preço exigido e imposto pelos invasores estrangeiros, em troca de não trazerem o combate para dentro de Roma, arrasando seu prédios históricos, com suas arquiteturas, esculturas e obras de artes milenares. Todos concordaram com a imposição, menos Garibaldi, que sentenciou seu desejo de continuar a lutar fora dos limites romanos.
Na manhã do dia 2 de julho, Garibaldi mandou reunir sua legião na Praça de S. Pedro, além da população e dos "livres" que não admitiam o jugo estrangeiro. A Praça ficou apinhada de soldados e de populares, cuja massa humana estendeu-se até a vizinha Praça Rusticucci. Garibaldi chegou alguns momentos após, acompanhado por Anita, que graças aos chás caseiros de sua anfitriã, restabeleceu-se um pouco.
A voz de Garibaldi era esperada por milhares de soldados e populares, que não desejavam render sua jovem República à sagacidade do despótico inimigo invasor. Vivendo e compartilhando com milhares de homens um momento de grande emoção, Garibaldi alçou-se de seu cavalo, ergueu seu chapéu ao céu e pronunciou um breve discurso:
"Irmãos da Itália! Eu saio de Roma ! Quem quiser prosseguir a guerra contra o estrangeiro, que me siga ! Não ofereço pagamento, nem quartel, nem alimento ! Ofereço apenas fome, sede, marcha forçada, lutas com baionetas e morte ! Quem tem o nome da Itália, não apenas nos lábios, mas no coração, venha comigo ! Ao findar o dia, na Praça do Latrão". (91)
Os últimos raios de sol ainda iluminaram quando começou a fluir para a Praça indicada, de todos os cantos da Cidade Eterna, homens armados, a maioria maltrapilhos, judiados pelos incessantes ataques estrangeiros. Grupos formados por dissidentes de formações militares, que não haviam obedecido as ordens de seus superiores para deporem as armas surgiram pelas ruas que alimentavam a Praça, onde no centro, aguardando-os, encontrava-se Garibaldi. Ao seu lado Anita. Montava em um cavalo baio claro. Durante o dia tinha cortado os cabelos a nazarena e usava um chapéu escuro com plumas. Estava com botas de montaria.
Vestiu um traje dos legionários, composto por uma jaqueta azul e calças cinza escuro. Na cintura portava um cinturão com uma pistola de um lado e do outro uma pequena espada. Estava com roupa tipicamente masculina, o que prenunciou sua disposição para participar da lutas que ainda deveriam acontecer. O sol já havia entrado quando Garibaldi pronunciou-se elogiando todos os que haviam tombado por um ideal, enaltecendo a coragem e a disposição dos que ali estavam para segui-lo. Já era escuro quando voltou seu cavalo para a direção do Portão Gregório e sinalizando com seu chapéu deu a ordem para retirada. Era dia 2 de junho de 1849.
Garibaldi, além de acompanhado da mulher, Anita, levou consigo cerca de 4.700 soldados e legionários, dando início à histórica expedição, que mais tarde seria conhecida como a "Retirada de Roma". A hábil estratégia por ele posta em prática nessa marcha, tornou-se célebre na história militar mundial. Na Retirada, a Legião Garibaldina enfrentou e combateu três corpos de tropas inimigas: franceses, espanhóis e austríacos.
Garibaldi sabia que Veneza e o Piemonte ainda combatiam os austríacos, tentando manter sua autonomia administrativa. Lá ainda existia o clamor da liberdade. Se a luta pela unificação da Itália devia prosseguir, era nesta direção que deveria conduzir seus legionários. Ao saírem de Roma foram admoestados por alguns conflitos desencadeados por forças francesas, que, entretanto, não geraram confrontos de maior importância, mercê das manobras que Garibaldi colocou em prática. Graças aos republicanos farroupilhas, havia apreendido os rápidos movimentos de guerrilha, ainda desconhecidos pelos tradicionais métodos de guerra européia. Alias, até hoje, a Retirada de Roma, é considerado um grande feito militar, pois não se pode imaginar como foi possível um contigente de 4.700 homens romperem o cerco de Roma, em cujos arredores estavam acampados 65.000 soldados de diversas nacionalidades, sob o comando do General Oudinot.
Com Roma controlada e sob o domínio dos invasores, teria sido bastante fácil concentrar alguns milhares de soldados para aniquilar completamente a desordenada e mal equipada legião retirante, principalmente porque a mesma ainda não dispunha de hierarquia militar e nem de munições suficientes, com pouco armamento pesado.
Wolfang L. Rau narra detalhadamente esta retirada:
"Dez cavalarianos sob ordens diretas do Major Hoffstetter formavam a primeira vanguarda. Patrulhas ligeiras, igualmente a cavalo, cobriam os flancos ou alternavam a vanguarda....Havia então 2.500 homens de infantaria, todos armados com fuzis de percussão, com uma reserva de oitenta cartuchos cada. José Garibaldi e Anita iniciam a marcha, à frente do grosso da tropa que se movia rápida mas cautelosamente. Ali iam Ciceruacchio com seus dois filhos, um dos quais um menino de 13 anos apenas. Ali estava o Padre Ugo Bassi, envergando a camisa vermelha, o chapéu de Cape1ão e o crucifixo. A cavalaria, - não muito eficiente, - constava de 400 homens sob os comandos dos majores Mueller e Migliazzo. Mais tarde foi colocada sob ordens do Coronel Bueno, um dos seguidores sulamericanos de Garibaldi. Era ele um oficial soberbo e teimoso que mais tarde desertou das fileiras da Divisão.
Um único canhão para abuses de seis quilos, puxado por quatro cavalos, constituía toda a artilharia; mais simbó1ica do que capaz, entretanto serviria para facilitar a acolhida em alguma cidade menos hospitaleira... 0 Tesouro da Legião trazia algum dinheiro papel, suficiente apenas para o minguado soldo de quatro semanas e compra de mantimentos durante igual período. Havia, também um importante documento fornecido pelo Governo republicano de Roma, autorizando o General a fazer requisições oficialmente. Não esclarecia a procuração quem faria os pagamentos posteriores... Anita montava um belo cavalo zaino, vestida como amazona em verde escuro, e trazia o chapéu calabrês com penacho do mesmo tipo que toda a coluna usava....Á vista de perigo iminente afivelava às pressas uma espada leve de cavalaria, a mesma, aliás, que já lhe prestara serviços na América do Sul".(92)
MESMO GRÁVIDA E DOENTE, ANITA CAVALGOU E LUTOU CONTRA OS AUSTRÍACOS
No dia seguinte atingiram Tivolo, onde pernoitaram. Pela manhã empreenderam a marcha novamente, pois haviam recebido a notícia de que tropas inimigas estavam em seu encalço. Dia 04 chegaram a Monte Rotondo. Neste dia Garibaldi completou quarenta e dois anos de vida. No dia 8 chegaram a Cesi, onde permanecem até dia 11. De lá seguiram para Orvieto, onde chegaram no dia 14. Dia quinze estavam em Ficulle e no dia 17 chegaram a Cetona.
Em represália por Garibaldi não ter deposto as armas ao sair de Roma, nos termos do armistício celebrado, as milícias invasoras sentenciaram a morte quem auxiliasse ou desse abrigo a Garibaldi e seus seguidores. A estratégia deu resultado, pois a repressão impingiu-lhe inúmeras baixas, em virtude da extrema falta de alimentos e equipamentos, o que fez com que muitos soldados desertassem. Quando saíram de Cetona estavam reduzidos a pouco mais de 2.000 soldados. Em poucos dias tinham ocorrido mais de 1.500 deserções.
Durante todo este trajeto, Anita não sentia-se muito bem, mas continuou tributando seu mal estar à manifestação rotineira de sua avançada gravides. Em Cetona, porém, voltou a febre que já tinha sentido em Roma, e como estava visivelmente grávida, chamou a tenção das senhoras daquela localidade, que desdobraram-se em gentilezas, oferecendo-se para hospedá-la até que curasse sua enfermidade, enquanto Garibaldi prosseguia com sua marcha em direção a Veneza.
A esposa do Prefeito, Sra. Amália Gigli, ofereceu-lhe como presente uma saia de seda verde escuro e uma blusa de brocado preto. Garibaldi tentou convencê-la a ali ficar, até restabelecer-se. Alguns dias após encontrariam-se novamente, disse-lhe. De nada adiantou o apelo do companheiro. Quando pela manhã Garibaldi montou em seu cavalo para ordenar a saída da cidade, lá estava Anita ao seu lado. Não permitiu deixar o marido sozinho em uma hora tão difícil, principalmente no momento que sobre Garibaldi abatia-se grande desânimo por ver frustado e derrotado o ideal de construção da República e unificação italiana, agravados pelo desgosto das deserções em massa que em suas tropas estava ocorrendo. Com tantas forças inimigas por perto, nada podia ser previsível. Os próximo dias, o futuro não ofereciam segurança alguma. Naquele instante, o que mais desejou foi ficar ao lado do marido, solidária a tudo quanto viesse a lhe acontecer. Desejou acompanhar o marido, e deste direito não abdicou, mesmo ao preço de sua vida.
Agora perseguidos pelos austríacos, e verificando que a Toscana seria impossível de atravessar em virtude da maciça presença inimiga, obrigaram-se a cruzar os montes Apeninos, cujo travessia era a única alternativa viável para atingirem Veneza. Íngreme e perigosa, a cordilheira de montanhas foi um obstáculo difícil de ser transposto. Garibaldi imaginou que uma vez escaladas as montanhas, ali não poderiam ser atacados pelas tropas tedescas, face a irregularidade geográfica das montanhas, o que lhe facilitaria sua estratégia de rápidos e diversos ataques guerrilheiros, feitos por poucos porém habilidosos soldados contra os flancos e retaguarda do inimigo, desconsertando e atrasando-os em sua perseguição. Além do mais, poderiam solicitar abrigo e proteção à República de San Marino, até hoje existente e um dos menores países independentes do mundo, incrustado na Itália, no alto do monte Titano. Garibaldi e alguns homens adiantaram-se de tropa e ali chegaram para solicitar asilo. Era o dia 31 de julho de 1849.
Alguns quilômetros antes de chegaram a San Marino, a retaguarda da Legião, que descansava de sua exaustão enquanto Garibaldi negociava o asilo político, foi atacada por uma tropa avançada austríaca, que surpreendeu os legionários. Exaustos e esfomeados, os soldados republicanos fugiram em desabada correria, sem oferecer combate e resistência. Anita, que tinha ficado um pouco mais adiante, vendo a covardia com que fugiam seus soldados, tentou fazê-los parar e voltarem para enfrentarem o inimigo, dando-lhe ordens de comando e estimulando-os a resistirem. Vendo que sua voz e seu comando não eram obedecidos, arrancou de um chicote e com ele estalando contra os fugitivos passou a bradar
"-Lutem e não fujam, corja de covardes!"
Dos companheiros que estavam próximos, ninguém teve coragem de segui-la. Todos acovardaram-se. Ficou sozinha, disparando sua arma e retendo momentaneamente o avanço da vanguarda austríaca pelo estreito caminho. Bem mais adiante da estreita coluna que serpenteava o caminho, do alto de outra montanha, Garibaldi assistiu ao inusitado ato de covardia de seus soldados e de extrema coragem de sua companheira. Vendo Anita completamente só, lançou-se com diversos homens em seu socorro, travando ali uma rápida batalha, homem contra homem, que resultou em um ferimento em Garibaldi, feito por uma lança, que atingiu-lhe a camisa e riscou-lhe o peito. Anita saiu ilesa da pequeno confronto, mas sua oportuna e corajosa resistência impediu um massacre que os tedescos iriam fazer na retaguarda da coluna garibaldina em retirada.
A fadigosa subida das montanhas, o sol forte do dia em contraste com o frio das noites mal dormidas em improvisados acampamentos a céu aberto, a falta de alimentos adequados e a marcha forçada e rápida, provocaram o agravamento da doença de Anita, que agora sentia-se profundamente combalida, mas mantinha-se firme, sem queixar-se.
(89)- ANITA GARIBALDI HEROÍNA POR AMOR - VALENTIN VALENTI
(90)- IDEM - pg 271
(91)- Diversos autores italianos e nacionais dão redação diversa a este pronunciamento de Garibaldi, sem no entanto, divergirem do sentido.
(92)- ANITA GARIBALDI O PERFIL DE UMA HEROÍNA BRASILEIRA pg. 390
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