Capítulo XVII
Anita reencontrou-se com Garibaldi em Nizza, na Itália
GARIBALDI PARTIU PARA ITÁLIA SEM SABER COMO SERIA RECEBIDO
No mastro principal do Speranza hastearam a bandeira Uruguaia. A viagem de retorno a Itália foi tranqüila, marcada apenas pela incerteza e insegurança sobre a forma que seriam recepcionados. Contra ele e alguns de seus compatriotas no passado havia sido decretada a pena de morte por suas atividades no movimento dos Carbonários e as idéias republicanas da Jovem Itália. Estaria ainda em vigor? O Rei Alberto estava disposto a anistiá-los?
A resposta concreta que dispunham era apenas a notícias sobre a vocação liberal do novo Papa, que havia outorgado a liberdade e decretado anistia para alguns presos políticos do Vaticano, mas que sequer tinha respondido a carta que havia enviando, quando tinha colocado sua espada à disposição. Portanto, a indagação que faziam-se era como Garibaldi seria recebido pelo Rei Alberto e pelos chefes militares austríacos, que dominavam boa parte do Norte da Itália? E o Papa ainda mantinha sua veia liberalizante, ou já havia cedido às pressões austríacas, espanholas e francesas? De qualquer forma, durante a viagem os legionários prepararam-se.
Dispostos a qualquer tipo de recepção, enquanto navegavam fizeram exercícios militares diariamente e entoaram canções evocativas. Semanas após navegarem, chegaram na costa sul da Espanha. Atracaram em Santa Paula, onde buscaram remédios para os dois enfermos, abasteceram-se de água potável e, principalmente, colheram notícias sobre a situação política na Itália.
As notícias trazidas a bordo foram alvissareiras. O exército austríaco invasor e opressor havia sido derrotado em Milão, que já estava liberta do jugo tedesco. Haviam combates em Verona, Mantova e no extremo norte, onde hoje a Itália dividi-se com a Áustria. No Piemonte e em outras regiões povo e governos locais já haviam aderido ao projeto de unificação. As notícias davam conta que a população estava pronta para sublevar-se em diversas outras cidades e o exército austríaco retrocedia aos Alpes, em direção à Áustria.
A euforia tomou conta, substituindo a incerteza e o temor reinante a bordo do Speranza. Agora confiantes em uma recepção amistosa, a bandeira Uruguaia hasteada no mastro do navio foi imediatamente substituída por uma improvisada bandeira tricolor italiana, confeccionada com o vermelho de uma túnica de um oficial legionário, com o branco de um lençol e o verde dos debruns arrancados dos uniformes dos 86 legionários que o navio carregava. Era a bandeira que posteriormente viria ser adotada pelo Estado Italiano. Chegaram ao porto de Nizza no dia 21 de junho às onze horas da manhã, após onze anos de ausência da terra natal.
EM NIZZA ANITA APRIMOROU-SE
Angustiada com a longa separação, Anita não esperou o navio atracar. Tomou os filhos pelas mãos embarcou em um pequeno barco e foi ao encontro do Speranza, onde subiu para saudar e abraçar seu esposo e companheiro. O reencontro emocionou todos que o presenciaram.
No dia seguinte, refeito da longa viagem o primeiro ato exigido por Anita foi atendido por Garibaldi. Acompanhados apenas por seus filhos, o casal dirigiu-se ao cemitério onde o pai de Giuseppe jazia, e ali sepultaram a urna contendo os restos mortais de Rosita. Por este episódio, que dobrou e sensibilizou a rudeza de um momento de conflitos e de guerras, pode-se aquilatar o profundo zelo, apego e devoção que Anita nutriu e manteve em relação aos seus sentimentos de mãe.
Valentin Valente registra que que durante os meses que Anita esteve em Nizza, enquanto esperou o retorno do marido, dedicou-se ao aprimoramento de seus conhecimentos. Nizza era uma cidade com pouco mais de vinte e cinco mil habitantes, mas com belezas naturais sem fim. Foi um período pródigo na descoberta de novos horizonte. Visitou o Palácio dos Lacaris, o Terraço, o Mercado das Flores, o Prado da Foz e o Passeio Saleia. Recusou-se, entretanto, a fazer excursões para fora da cidade, pois desejava fazê-las em companhia de Garibaldi. Após ter conhecido a cidade, sua arquitetura, história, costumes e cultura, enquanto esperava ansiosa, aplacava sua angustia dedicando-se a leitura.
Giuseppe gostava de ler e reler a "Divina Comédia", de Dante Aleghieri, que Anita já tinha tido a oportunidade de também ler. Mas o tempo que dispunha em Nizza permitiu-lhe ler outras obras. Ficou impressionada com as críticas feitas ao antigo Império Romano, escrita por Santo Agostinho em "A Cidade de Deus". Também leu obras como a "História de Joana D'Arc"; "La Bataglia de Legnano" de Guerrazzi e "La Monaca di Monza", de Rossini, entre outras. (83)
Naquele exato tempo, a Itália era um retalho de possessões estrangeiras, com poucas cidades e regiões que detinham sua autonomia administrativa. Esta fragmentação do território, que havia-se iniciado logo após a falência do Império Romano, criou o clima propício ao sentimento popular pelas lutas em pról da unificação italiana. De fato, o território compreendido entre Roma e Bolonha pertencia ao Vaticano; O Vêneto e a Lombardia estavam dominados e pertenciam ao Império da Áustria. O Piemonte, a Sardenha, a Ligúria e a região da Riviera (ali incluído Nizza) pertenciam a Casa de Savóia; a região sul, desde Nápoli até a ilha da Sicília pertenciam ao Rei da Espanha. Finalmente, a região central da bota italiana tinha sido partilhada por três duques germânicos.
Estimulados pelas idéias de Giuseppe Mazzini e de seu projeto para unificar a "Jovem Itália", uma considerável parcela de lideranças políticas das heterogêneas regiões desejava a Itália unida sob um regime republicano.
Mazziniano desde os primeiro momentos, Garibaldi quando retornou deparou-se com um grave obstáculo para alcançar este ideal: O Rei Alberto e o Papa desejavam a unidade italiana, mas temiam a república, pois este regime colocava em risco o absolutismo do primeiro e o poder temporal do segundo. Sendo um guerreiro que colocou sua espada a disposição dos povos que lutavam contra o absolutismo e o despotismo, Garibaldi viu-se diante de uma situação inusitada, pois o processo de unificação da Itália passava e também dependia destes dois centralizadores e unitaristas governantes. O Papa Pio IX, que era um italiano, e sobre o qual havia-se concentrado as esperanças de liderança do processo unificatório, frustou a expectativa popular, pois ordenou aos generais pontifícios que retrocedessem as tropas despachadas para libertar o Veneto do invasor Austríaco.
Entrementes, como o Rei Alberto já havia-se posicionado em favor da unificação italiana, para ele convergiram as esperanças de Garibaldi.
GARIBALDI PREGOU A UNIFICAÇÃO ITALIANA
Logo após a chegada em Nizza, diversas solenidades e homenagens foram prestadas à Garibaldi, Anita e seus legionários. Já conhecido e festejado em virtude da notícias dos jornais que publicaram os seus feitos na América, Garibaldi e Anita demonstravam-se seguros e resolutos. Ele apresentou-se trajando as mesmas vestimentas típicas dos revolucionários sul americanos: bombacha, bota, camisa vermelha e um pala branco. Era um personagem diferente, ao qual haviam-se agregados os novos e importantes conhecimentos militares, conquistados ao longo de diversos anos nas batalhas libertárias na América do Sul. Era herói que o povo italiano esperava para conduzi-lo!
No dia 25 de junho, no Hotel York, em Nizza, foi celebrado um banquete em sua homenagem, do qual participou o intendente do Condado, General Sonnaz. Ali, na presença do representante do Rei, em nome do projeto maior que era o de unificar a Itália, Garibaldi retrocedeu em seus ideais republicanos. Em discurso solene que proferiu disse que nunca tinha sido partidário dos reis e que inúmeras vezes havia pego em armas para lutar contra o absolutismo. Porém, tendo em vista "que Carlos Alberto tornou-se servo da causa do povo, considero meu dever oferecer minha ajuda e de meus camaradas de armas" (84). Concluiu seu pronunciamento elogiando as atitudes do Rei e exortou a população a colaborar e engajar-se no processo revolucionário.
A estratégica mudança do comportamento de Garibaldi, despertou a ira de lideranças mazzinistas, entre elas a de Giacomo Medici e do próprio Mazzini, que não admitiram a renúncia de Garibaldi aos ideais republicanos. Alguns dias após sua chegada em Nizza, sendo necessário colocar-se em marcha, passou a conclamar as cidades ao levante pela unificação. Por onde passou foi aclamado e em sua honra realizaram-se banquetes e comemorações. Seguiram-se dezenas de discursos em salões e em praças públicas. Em todas as ocasiões Garibaldi repetia a mesma argumentação em defesa da unificação, exortando os cidadãos para engajarem-se, aumentando seu pequeno exército.
Como até aquele momento tinha constituído um exército particular, estimulado apenas pela torrente popular que clamava unificação, tornou-se importante colocar-se ao abrigo da Bandeira Real, motivo pelo qual solicitou e obteve audiência com o Rei Carlos Alberto, o que aconteceu nos primeiros dias de julho de 1848. Neste encontro, relatado por Achille Bizoni, Garibaldi colocou-se à disposição da Coroa e solicitou que seus legionários fossem incluídos no exército real como um corpo militar.
O Rei Carlos Alberto agradeceu, demonstrou-se sensibilizado, mas nada decidiu, pois, conforme argumentou, esta questão não dependia tão somente dele, mas de novas conversas com seus ministros. Pediu-lhe que fosse falar com Franzini, seu Ministro da Guerra. Embora não tivesse recusado, o Rei também não disse que aceitava os préstimos de Garibaldi.
Na verdade estava receoso com Garibaldi, pois no passado havia decretado sua pena de morte, exatamente por suas idéias republicanas, que atentavam contra sua soberania. Que garantias tinha de que Garibaldi, exitoso em sua empresa, posteriormente não atentaria novamente contra a monarquia? Por outro lado, como negar a espada que Garibaldi lhe oferecia? Além do mais, embora o Rei desejasse a unificação italiana, secretamente escondia sob seu manto a ambição de unificar a Itália sob seu domínio, o que significava a manutenção e expansão do regime monárquico. Também sofreu pressões de seus generais, contrários a incorporação de Garibaldi às suas forças, movidos, provavelmente, pelo ciúme da emergente popularidade de Garibaldi.
Mesmo sabendo e avaliando todos estes fatos, Garibaldi foi ao Ministro da Guerra, que não o recebeu. Foi recebido por Ricci, Ministro do Interior, que sugeriu-lhe procurar colocar-se a serviço de Veneza, que naquele momento lutava contra os austríacos. O Ministro foi ríspido e objetivo:
"-Aqui não há vagas para vós".
ANITA PARTICIPOU DA BATALHA DE LUINO
Decepcionado pelas rejeições que suportou, Garibaldi tentou sobrepor-se à amargura que sentiu, dirigindo-se a Milão, onde os mazzinistas já haviam formado um exército, que acrescido com seus homens, chegou a 3.000, os quais passaram imediatamente ao seu comando. Era um exército de voluntários, de diversas procedências, sem disciplina e sem armas e equipamentos indispensáveis. Este exército não teve tempo sequer para organizar-se em companhias e batalhões, pois a falta de maior mobilidade militar dos soldados do Rei Carlos Alberto fez com que os austríacos, com um exército de 20.000 soldados voltassem a atacar, retomando a cidade de Milão. Depois de sofrer uma deserção de mais de 1.500 homens, Garibaldi foi derrotado na Batalha de Luino, onde combateu com apenas 400 soldados.
Segundo os historiadores Leite Castro, Henrique Boiateux e Lindolfo Collor, Anita participou desta batalha, tendo o seu cavalo sido atingido por um tiro, jogando-a ao solo. Garibaldi vendo-a caída, rapidamente puxou-a para a sela de seu cavalo e os dois, a golpes de espadas, abriram caminho entre os austríacos.
Mesmo derrotado e com minguados legionários republicanos, Garibaldi ainda permaneceu na Lombardia, onde na cidade de Morazzone tentou dar combate aos austríacos, sustentando pequenas batalhas. Depois desta batalha, Garibaldi retirou-se para a Suíça, entrando em Lugano, em cuja fronteira entrou disfarçado, juntamente com poucos de seus homens. Ali foi preso, mas logo posto em liberdade, pois o Cantão Tessin, onde encontrava-se, que tinha o italiano como língua oficial, era francamente favorável ao projeto de unificação. Mesmo sendo libertado, entendeu que a tão sonhada revolução pela unificação havia fracassado temporariamente. Era necessário retroceder e ganhar tempo para reorganizar-se.
Da Suíça voltou à Nizza, reencontrando Anita, que para lá havia voltado logo após a derrota de Luino. Garibaldi voltou doente, pois além de há algum tempo sofrer de dores reumáticas, em Roverbella contraiu malária. De volta atacou-lhe uma grave crise de artrite, o que o deixou com bastante febre e acamado por três semanas.
Foi durante o tempo de sua ausência que Anita desentendeu-se com sua sogra, mudando-se para a residência de Giuseppe Deideri, um amigo de infância de Garibaldi. Ali ficou esperando seu esposo, cuidando dos filhos, aproveitando seu tempo disponível para conhecer a cidade, adaptando-se aos seus costumes. Também dedicou-se a leitura. Quando o esposo retornou doente, voltou-se inteiramente à sua cura.
Tão logo reabilitou-se, Garibaldi tratou de dar prosseguimento a sua campanha. Como Veneza era a única região que resistia e ainda não havia caído em mãos tedescas, estes estavam concentrando seus esforços militares no assediamento da inexpugnável cidade, cuja resistência e defesa era mantida por Daniele Manin. Decidiu, então, que para lá deveria levar seus legionários. Desta vez Anita não o deixou partir sozinho, e impôs sua vontade. Garibaldi ainda convalescia e ao chegar em Gênova um novo ataque de artrite o fulminou, obrigando-o ali permanecer até curar-se.
Durante sua permanência recebeu um apelo dos sicilianos, para auxiliá-los em sua sublevação contra a coroa de Nápoles. Quando ficou bom, ao invés de dirigir-se à Veneza, infletiu rumo ao sul, rumo à Napoli. Durante esta viagem, a legião cavalgava ostentando a sua frente Anita e Giuseppe, ovacionados nas diversas cidades e vilas por onde passaram. Entraram em Ravena à noite, com uma procissão a luz de tochas que a população ascendeu. Alí estacinou seu exército. Algum tempo após, diante da incerteza do momento, Garibaldi solicitou que Anita voltasse à Nizza. Sem entender exatamente qual o seu papel nestas marchas e contra-marchas, Anita submeteu-se a vontade de seu marido e voltou para o convívio dos filhos, mesmo porque já estava ausente e não escondia o desejo de revê-los.
PROCLAMADA A REPÚBLICA ROMANA
Logo em seguida Garibaldi recebeu a notícia de que o povo de Roma, instigado pelas idéias republicanas, cansado de esperar pela iniciativa do Vaticano, havia obrigado o Papa Pio IX a evadir-se. Caiu a Cidade Eterna nas mãos dos mazzinistas. A notícia foi transmitida à Garibaldi por telegrama de Godofredo Mameli que lhe informou: "Roma República! Venite!".
Com a tomada de Roma, o tão acalentado sonho de unificar a Itália sob a bandeira de uma república começava a fazer sentido. Dia 8 de fevereiro Garibaldi adentra os umbrais romanos. No dia seguinte, 9 de fevereiro de 1849, aconteceu a proclamação da República de Roma, formando um Governo Provisório constituído por um triunvirato composto por Giuseppe Mazzini, Carlo Armellini e Aurélio Saffi.
Nos diversos dias que estiveram distantes, por diversas vezes, Anita pensou e tentou partir ao encontro de seu Giuseppe, para ficar ao seu lado, mas a prudente sogra ponderou e a impediu. Quando, porém, chegou a notícia de que Roma havia proclamado a República, não houve qualquer tipo de aconselhamento ou de prudência que pode deter o impulso guerreiro de Anita. Finalmente a república foi proclamada. Era apenas o início, pensou Anita. Idealista e ferrenha defensora do regime republicano, não conteve-se em ficar distante e ausente deste tão importante momento do processo de unificação.
Por não dispor de recursos para viajar sozinha, solicitou emprestado de Francisco Carpanato duzentas liras e mesmo contrariando sua sogra, embarcou em uma diligência para encontrar seu marido em Roma. No dia 26 de fevereiro de 1849 chegou em Rieti, onde Garibaldi estava estacionado com seus homens para evitar que o exército napolitano atacasse Roma. Ali permaneceu até 13 de abril do mesmo ano, quando voltou a Nizza. Os quase sessenta dias que ali viveram constituíram-se nos momentos de maior intimidade e privacidade que Anita desfrutou com Garibaldi, desde que haviam desembarcado na Itália. Foram dias felizes, cuja alegria e felicidade resultaram na fecundação da sua quinta gravidez...
"Rietti, 04 abril 1849: Minha Querida irmã:... passamos uma Páscoa maravilhosa. Durante este doce período de primavera, José e eu reencontramos o amor dos primeiros tempos. Foi até uma surpresa para nós dois, depois de oito anos juntos: já estávamos convencidos de que a paixão fose uma coisa da juventude. Pelo contrário, nós nos amamos como nunca, cheios de desejos e de ternura. Tanto que, de comum acordo, concebemos um outro filho..." (85)
ANITA TORNOU-SE AMIGA DO PADRE REPUBLICANO UGO BASSI
Mesmo após ter abandonado Roma, os republicanos desejavam o retorno do Papa. Faziam coro com um grande movimento dentre os padres, que lhe reconheciam o poder religioso, mas lhe solicitaram depusesse o cetro do poder temporal. Com este objetivo, o clero baixo e os republicanos exortaram-no a voltar para Roma, para ser reinvestido em seus domínios espirituais. Sabiam os republicanos que, embora refugiado em Gaeta, o Papa havia solicitado a intervenção das potências católicas européias para restabelecerem seu poder temporal. Fervorosos católicos, muitos italianos estavam reticentes por não admitirem unificar a Itália a custa de tomar armas contra a Igreja Católica, representada pelo Papa. Foi de importante valia o movimento dos padres, que queriam a renúncia papal ao poder temporal, que lhe outorgava direitos políticos, possessórios e administrativos de vastas regiões.
Um destes padres foi Ugo Bassi, capelão da Legião Garibaldina, dono de notável oratória, que em seus atos religiosos predicou a volta do Papa, não como um rei, mas como um pastor da cristandade. Culto e com vasto conhecimento, sempre que tinha oportunidade de pronunciar-se, encantava e convencia a população para entender a verdadeira finalidade espiritual da religião católica.
Durante seus sermões pregava que o poder devia ser exercido pelo povo, através de representantes eleitos, no mais legítimo modelo republicano. Acreditava que Garibaldi era um homem predestinado, em torno do qual a Itália seria um dia unida. Anita fez-se amiga do Padre Bassi, com quem manteve longas conversações, principalmente durante os diversos dias que estiveram estacionados em Rietti ou nas cavalgadas e movimentos das tropas. Ativista, o Padre Ugo Bassi usava sua roupa clerical, mas incluía uma camisa vermelha, símbolo da legião Garibaldina, sobre a qual portava uma corrente com crucifixo. Certo dia, durante um combate, quando ministrava a extrema unção a um soldado abatido, foi preso pelos austríacos. Alguns dias após Garibaldi consegui libertá-lo, trocando-o com outros prisioneiros. Após liberto, de nada adiantaram os apelos para que o Padre não se expusesse, quer nos combates, ou mesmo com o ostensivo uso da camisa vermelha, pois continuou com os mesmos procedimentos. As pregações do Padre atingiram também a Anita, que em uma de suas cartas, em determinado trecho afirmou:
"... foi justamente o padre Bassi quem me fez entender, com seu comportamento, a importância da compreensão mútua e da tolerância entre pessoas de boa-fé. Se o amor ao próximo é um sentimento religioso, então eu também posso entender a religião. Mas o que eu não posso aceitar é o poder temporal do clero, usado para fins corruptos". (86)
Garibaldi preparou-se para ir em auxílio do Rei Carlos Alberto, que continuava a lutar contra os austríacos, mas foi surpreendido com a notícia de que a República Francesa, presidida por Luiz Napoleão, atacaria a República Romana, atendendo aos apelos de auxílio feito pelo Papa Pio IX. No dia 25 de abril o general francês Oudinot Di Reggio desembarcou com suas tropas no porto de Civitavecchia, muito próximo de Roma. Garibaldi, que logo após a proclamação da República Romana havia sido eleito deputado constituinte, foi chamado a Roma, quando outorgaram-lhe o posto de general-de-brigada. Foi convocado para preparar a defesa do iminente ataque francês. No dia 27 de abril, com seus legionários entrou em Roma pela Porta Maggiore. Estabeleceu seu quartel general na Villa Corsini. Três dias após, no dia 30, foi atacado pelos oito mil soldados do exército francês. Repelido o ataque com a bravura de seus legionários, dela ficou um saldo honroso, além de um ferimento leve que Garibaldi sofreu em uma das pernas.
Oudinot, que inicialmente pensava em reconquistar Roma com apenas uma batalha de poucas horas, obrigou-se a solicitar novos reforços a França. Garibaldi transferiu seu quartel para a Vila Savorelli. Dias após, chegavam novos exércitos, bem equipados. Ao todo, o general francês já dispunha de 36.000 soldados, enquanto as forças de Roma atingiam cerca de 15.000 homens.
Mais reforços estavam sendo aguardados pelos franceses, a quem, posteriormente, incorporaram-se tropas austríacas, espanholas, napolitanas e do Vaticano. Embora necessitassem recomporem-se, os franceses continuaram com os ataques, usando mais os canhões, bombardeando permanentemente as fortificações que guarneciam as entradas de Roma. O grosso de suas forças estavam sendo poupadas para uma batalha final. A Vila Savorelli e as demais fortificações que guardavam Roma continuaram sendo fustigadas. A luta tornou-se encaniçada e arrastou-se por diversos dias.
FOTO 20 : O PADRE HUGO BASSI
ANITA ROMPEU O CERCO E ENTROU EM ROMA PARA LUTAR PELA REPÚBLICA ROMANA
Ao saber das notícias, Anita preocupou-se e solicitou a sua amiga Nina, um empréstimo e tomou novamente a diligência para Roma. Foi uma viagem que durou diversos dias. Partiu de Nizza outra vez e foi em socorro do marido. Estava Grávida de cinco meses, mas não importava, porque Roma estava cercada e dentro de Roma estava seu marido. Além dos franceses, tropas de diversas nacionalidades tinham vindo socorrer e restabelecer o poder temporal do Papa.
Em Tarquínia, distante quase cem quilômetros de Roma, deteve-se a carruagem, impedida de passar em decorrência dos bloqueios militares da estrada, pois muitos patriotas italianos estavam seguindo para auxiliar os romanos sitiados pelos franceses. Dali escreveu um carta à sua amiga Nina:
"Tarquinia 23 de junho de 1849.... Estou esperando uma chance para me aproximar e entrar em Roma... Não é fácil por causa do cerco.... Estou impaciente para chegar. Ouço notícias ruins de Roma, onde os franceses estão bombardeando sem parar os edifícios antigos. Até retomaram o ataque à traição, durante um tempo de trégua que eles próprios haviam pedido sob o pretexto de recolher seus feridos..." (87)
Em Livorno Anita conseguiu um cavalo, no qual empreendeu a travessia da Toscana, da Úmbria e do Lácio. Cavalgando dezenas de léguas, de forma a evitar estradas vigiadas, no dia 26 de junho de 1849, burlando todo o tipo de vigilância dos austríacos e franceses, Anita consegue adentrar Roma. Entrou pela Porta Pia. Grávida de cinco meses, havia cavalgado sozinha, durante três dias, sob um forte calor do verão italiano. Quando muitos desejavam sair e abandonar Roma, por que já não suportavam mais o cerco agora ampliado e efetuado por 65.000 soldados inimigos, o que tornava a continuidade da luta inócua, Anita, ao contrário, sozinha, rompeu o cerco de fora para dentro e foi enfileirar-se, mesmo grávida e cansada da longa viagem, ao lado dos que ainda acreditavam na continuidade da luta pela manutenção do regime republicano. Quando Garibaldi, que estava reunido com seus oficiais em um improvisado quartel, a viu, surpreso, exclamou:
"-temos mais um soldado!"
Em carta enviada a sua irmã, Anita narra este episódio:
"Roma 1º de julho de 1849. Estou em Roma há cinco dias e receio que tenhamos que deixá-la amanhã, depois das terríveis lutas onde morreram muitos corajosos companheiros... Além disso saí de Nice sentindo-me pela primeira vez oprimida pela angústia e essa sensação persiste até hoje. Ao beijar as crianças cheguei a me perguntar estupidamente se algum dia voltaria a vê-las ! Depois de Ter pedido à "mama" Deideri que cuidasse dos meus filhos com carinho, peguei meu cinturão com a pistola e fui para Gênova, onde esperava obter um empréstimo e embarcar para Livorno.... fui embora tomada por uma aprofunda depressão, que não passou nem quando cheguei em Roma... passei alguma dificuldade para achar o quartel, que nos últimos tempos tinha mudado de lugar duas ou três vezes. Para chegar até ele tive que atravessar a cidade, que estava suja e caótica como nunca. Além diso as ruas estão cheias de destroços e de gente apavorada com os bombardeios....
Ao chegar abri a porta do salão e vi o José, muito pálido, em pé atrás de uma mesa, rodeado pelos seus oficiais. Todos estavam debruçados sobre um mapa... De repente o José ergueu os olhos e me viu. Do olhar triste e cansado ao clarão da alegria e reconhecimento, passou-se um segundo, o suficiente para que eu entendesse tudo, a sua prostração, a tristeza infinita, a necessidade de um rosto amigo, a felicidade de um homem que, num momento crítico de sua viida, vê uma pessoa que o ama. Ouvi sua voz, rouca mas decidida dizendo: - Senhores, esta é a minha mulher Anita. Temos mais um soldado - Ante que eu tivesse tempo de falar, uma explosão muito próxima fez cair o reboco das paredes, levantando uma nuvem de poeira. Parte da cidade já estava destruída pelo fogo dos canhões que continuavam incessantemente....
A noite fiz um curativo na perna ferida de José... enquanto isso ele ia desabafando, contando as sujeiras que lhe tinham feito, as brigas com Mazzini, a dor de saber que a batalha de Roma não poderia ser ganha, conforme lhe tinha sido ordenado, pois haviam quilômetros de murros expostos aos ataques inimigos... Já fazia tempo que queria levar as tropas para fora de Roma, para organizá-las e surpreender o inimigo. Mas as ordens era de resistir e o único resultado era a morte inútil dos seus homens, amigos e companheiros. Por isso sua tristeza era marcada pela raiva.... De manhã cedinho... caminhei por longo tempo pelas ruas cobertas de detritos. Lembro-me dos escombros sobre os quais se apoiavam os feridos, com as roupas ensanguentadas... Mas o pior foi ontem, quando lutamos o dia inteiro, sobre os muros aurelianos, com uma enorme perda de homens. Que dor eu senti ao ver, de repente, Aguiar morto ao meu lado... o corajoso, leal e doce Aguiar está morto, vítima do fogo francês sobre o Gianícolo.
Levei pessoalmente a notícia ao José... Mas nem eu nem ele conseguimos conter as lágrimas... A loucura humana, a tirania, o ódio, a exploração dos mais fracos parecem não ter fim... " (88)
FOTO 21 : A BATALHA DE ROMA
(83)- ANITA GARIBALDI - HEROINA POR AMOR- VALENTIN VALENTI pg 229
(84)- GIUSEPPE GARIBALDI - MEMORIE - ALEXANDRE DUMAS
(85)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - A. GARIBALDI - pg 183
(86)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - A. GARIBALDI
(87)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - A. GARIBALDI
(88)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - A. GARIBALDI - pg 191/193
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