Capítulo XVI
Anita chegou à Genova, na Itália
A CHEGADA DE ANITA FOI NOTÍCIA DE JORNAL
Durante os 60 dias que durou a viagem para a Itália, Anita teve a oportunidade de ler a "História de S. Luiz - Rei da França", que lhe foi presenteado pelo abade e amigo Paulo Semidei. (76)
Os legionários italianos e a própria Anita, não tiveram a exata dimensão do que estava realmente acontecendo na Itália, pois a efervescência era maior do que imaginavam. Após ter-se colocado a disposição do Papa Pio IX e depois de ter tomado a decisão de voltar sem dele receber nenhuma resposta, Garibaldi não havia imaginado que a disposição liberal do Papa arrefecesse significativamente, motivada pelos rápidos fatos que aconteceram após os atos preliminares da nova política liberal do Vaticano. De fato, em 12 de janeiro de 1848, Palermo revoltou-se. Em 18 de Março foi a vez de Milão opor-se com armas contra a dominação estrangeira. Depois, em abril, Carlos Alberto de Savoia, colocou seu exército à disposição da causa de unificação italiana.
Estes fatos precipitaram outras revoltas, que multiplicaram-se, insurgindo-se contra o dominador Império Austro-húngaro. Por sua vez, os tedescos, como eram conhecidos os invasores, reagiram firmemente, com o propósito de manter a hegemonia sobre as regiões que dominavam. Também haviam interesses da Espanha e da França em jogo. Mediante este quadro, não desejando comprometer-se, o Papa Pio IX reviu sua política liberal, fazendo vistas grosas às ações do império invasor.
Entretanto, uma vez desencadeados os passos iniciais, e havendo um fértil terreno popular, germinou e proliferaram os acontecimentos, mormente nas principais cidades italianas, onde repetiram-se manifestações cívicas, cujas populações não escondiam suas tendências e desejos convergentes à causa da unidade italiana.
No dia 02 de março de 1848, Anita Garibaldi desembarcou com os filhos em Gênova, onde foi recebida por um contigente popular de 3.000 pessoas, que a esperavam no Porto. Surpresa com a recepção, do tombadilho do navio Anita ouviu os gritos populares de "viva a família Garibaldi" - "viva Garibaldi" - "viva a Itália". Já no cais do Porto, Anita foi homenageada com a entrega de uma bandeira tricolor. Anita fez um breve discurso em italiano, quando agradeceu a honraria que lhe foi ofertada, falou na liberdade e colocou-se à disposição para também lutar pela causa italiana. A população exultou em novos vivas.
O fato, que seria posteriormente narrado por Anita em uma de suas cartas, foi motivado pela expectativa popular que a notícia do retorno de Garibaldi havia despertado. O plano traçado havia anos, para, a partir da América, forjar e projetar a figura de um condotieri, capaz de despertar no povo italiano a chama da liberdade para conduzi-lo contra o opressor estrangeiro, tinha dado tão certo que, em relação a Anita, ultrapassou as espectativas. A publicidade que Giovanni Batista Cuneo e Luighi Rossetti procuraram dar, o foram somente em relação aos feitos do marido Giuseppe Garibaldi. Porém, tamanho foram os atos praticados por Anita, que a tradição oral correu célere, atravessou o Atlântico e espalhando as histórias sobre seus feitos e atos de heroísmos, mesmo sem nunca ter sido notícia de nenhum jornal dos editados pelos farroupilhas e uruguaios.
O povo vibrou em receber a grande mulher, a valente Anita, não apenas por ser esposa do homem que havia de conduzi-los à guerra unificadora, mas também pelo respeito e admiração que ela já tinha despertado nas narrativas trazidas pelos patriotas italianos.
Se na América Anita ainda não tinha sido notícia de jornais, a sua chegada em Gênova foi divulgada nos jornais italianos. O Jornal Corriere Mercantile, de Gênova, em sua edição de 4 de março de 1848, foi um dos que registrou a notícia:
"Chegaram ontem à nossa cidade a mulher e os filhos de Giuseppe Garibaldi. Uma multidão de cidadãos dirigiu-se esta manhã à sua casa, aclamando o ilustre guerreiro que defendeu e faz crescer a honra das armas italianas, combatendo na América pela causa da liberdade. Uma bandeira nacional foi oferecida com nobres palavras à valorosa mulher; e, com vivo entusiasmo, foi saudado o retrato do valoroso genovês. Anna Garibaldi exprime com estas palavras o seu reconhecimento: - Genoveses! Suas generosas e intensas aclamações à minha chegada em sua cidade revelaram-me que me encontrava em terra habitada por italianos oriundos da virtude de seus antepassados. Juntamente com o capitão Tommaso Risso, da Itálica Legião de Montevidéu, que me acompanhava, ofereço-lhes em tributo o meu muito obrigado de coração. Até agora tive a felicidade de pertencer a um homem que, pela causa da liberdade, dissipava em solo estrangeiro um valor inútil à sua própria pátria. Terei alcançado o auge de minha esperança quando ele tiver que combater por esta terra e quando também eu me mostrar italiana " (77)
A INTELIGÊNCIA DE ANITA SURPREENDEU OS ITALIANOS
Em Gênova Anita e os filhos são recepcionados por familiares de Stefano Antonini e de Napoleone Castellini, que estavam radicados em Montevidéu como fortes comerciantes e armadores. Seus familiares foram os anfitriões de Anita e seus filhos. Nos dias que seguiram-se, pode conhecer Gênova, admirar seus prédios incrustados rentes às íngremes e pequenas ruas, rasgadas por entre escarpas das montanhas que até hoje precipitam-se obliquamente sobre o mar. Tudo o que viu foi motivo de curiosidade e de admiração, desde os costumes, as roupas, a arquitetura, os prédios com suas fachadas e pisos de mármore, as artes, a cultura e tudo o mais que viu ser diferente do que até então conhecia. Cercada pelos anfitriões e por curiosos, quando lhe foi indagado sobre suas impressões a respeito de Gênova, Anita não titubeou:
"Um amigo nosso argentino, Juan Batista AIberdi, que esteve aqui há três anos, escreveu-nos que em Gênova os monges, os santos, as frutas, as lojas, os palácios, os monumentos, as igrejas, as flores, a sujeira, os mármores, tudo isso está tão amontoado, que Gênova tanto pode parecer um convento, um mercado de verduras, uma loja de antiguidades, um jardim, uma Corte, um depósito de lixo, como um sonho do Oriente. 0 Alberdi é engraçado... Mas eu não vi Gênova assim, aos pedaços. Desde que me achei no Porto, senti a cidade inteirinha, como num amor à primeira vista, em que a gente não liga a detalhes e nem repara nos olhos, na voz, nos cabelos, na alma de quem amamos. Eu diria, enfim, que Gênova é uma mulher amorosa." (78)
A resposta inteligente que Anita deu em forma de elogio à cidade, foi motivo de notícia, transcrita por jornal local. Conta Valentin Valente que a definição da " la brunetta di Garibaldi" (a bronzeada de Garibaldi) correu a cidade inteira, cuja população, que já era ardorosamente garibaldina, passou a conviver e a respeitar sua esposa pela sua inteligência e declaração de amor ao povo genovês.
ANITA DISCURSOU EM ITALIANO PARA UMA MULTIDÃO
Em uma das noites, os Antonini levaram Anita assistir uma apresentação musical no teatro Carlo Felice. Em determinado momento, após o início da peça, o tenor, que deveria interpretar peça musical programada, repentinamente, iniciou a cantar o Hino de Mameli, cuja letra estava proibida por ser uma exortação à guerra contra os tedescos e pela unidade italiana. A letra do Hino conclamava: "Irmãos italianos, a Itália acordou. Colocou na cabeça o elmo de Cipião. Cerremo-nos em corte. Estamos Prontos a morrer: Itália chamou". Logo a seguir o teatro foi invadido pela polícia local, que suspendeu a apresentação e evacuou o recinto.
Em outra noite, após ter assistido a uma comédia teatral, recém-chegada em casa de seus anfitriões, Anita e seus acompanhantes foram surpreendidos por um grande número de populares, que parados em frente a casa dos Antonini, passaram a cantar o Hino de Mameli e dar-lhe vivas: "- Viva Giuseppe Garibaldi - Viva Anita - Viva a Legião Italiana - Viva o Brasil - Viva o Uruguai "-
Um dos manifestantes, deu alguns passos a frente e em nome dos demais disse-lhe: "Senhora! Sou Godofredo Mameli. Genovês poeta da Itália. Sou a voz de um povo oprimido que viu refulgir além-oceano a Espada de Roma! Em nome de Gênova, a Soberba, e que vós, Senhora, apelidastes de Mulher Amorosa, eu vos peço entregueis este pendão sagrado de Fé, Esperança e Caridade ao Loehngrin da Itália que deve chegar! Que ele o condottiere nascido das ondas da Ligúria e que vós soubestes amar, seja o primeiro a desfraldar as cores da Itália em terra lombarda".
Prossegue Valentin Valente em sua mesma obra (pg. 213) narrando que Anita, dominando a emoção de tão grandioso gesto, respondeu falando em italiano:
"Obrigado Senhor Mameli! Sou feliz em conhecer-vos, pois de vosso coração de moço e patriota brotou o hino que Garibaldi esperava. Entregarei esta linda bandeira a meu marido e lhe direi que a Poesia Romana renasceu convosco no mar da Ligúria. Também lhe direi, meus irmãos, que verifiquei pessoalmente, como os genoveses são bons e como adoram a Itália. Obrigada, muitíssimo obrigada! Por meu marido, por mim, pelo Brasil e pelo Uruguai!" Ato contínuo Anita tomou uma flor do alegrete do peitoril, beijou-a e atirou-a a multidão, que delirou com novos vivas.
ANITA E OS FILHOS CONHECERAM A MÃE DE GARIBALDI
No dia 8 de março, após poucos dias de estada festiva e agradável em Gênova, onde fora alvo de múltiplas atenções por parte de populares, da família Antonini e das autoridades simpáticas à causa da unificação italiana, Anita, juntamente com seus três filhos, embarcou num navio a vapor em viagem para Nizza. Aguardava-lhe, impaciente e desejosa de conhecer os netos, sua sogra e cunhados.
Desde que Garibaldi tomou a decisão de voltar para a Itália, Anita passou a preparar-se para conhecer e tentar fazer-se amiga de sua sogra. Sobre ela o seu Giuseppe já havia inúmeras vezes falado. Com personalidade forte, de poucas palavras, Rosa Raimondi, a mãe de Giuseppe Garibaldi, era descendente de uma família de Savoia. Em sua juventude havia sido muito bonita, recatada e reservada, voltada unicamente para seus familiares. Anita foi calorosamente recebida, mas quando a nona abraçou e conheceu os netos não conteve as lágrimas. A eles passou a dedicar-se integralmente, mesmo com a resistência de Anita. Após a fatalidade que sobre Anita abater-se-ia, seria ela, Rosa Raimondi, que terminaria de educar os filhos da heroína.
Não existem registros oficiais sobre o relacionamento entre Anita e a mãe de Garibaldi, mas deduz-se existiram divergências, fáceis de serem compreendidas. De um lado uma mulher bastante idosa, com setenta e dois anos de idade, com costumes e cultura milenar completamente diferentes, extremamente religiosa, habituada a uma vida rotineira e que nos últimos anos, desde que enviuvou, tinha ficado praticamente sozinha. De outro lado uma jovem mulher com vinte e sete anos de idade, habituada aos fragores das guerras, às tensões e os assédios dos cercos e das perseguições militares, advinda de uma terra distante, de costumes e culturas completamente diferentes, temporariamente separada do marido, do qual era muito ciumenta.
Ali na casa de Quai Lunel, defronte ao mar da Ligúria, não eram apenas duas gerações distantes que encontraram-se, mas dois modos de vida completamente diferentes, oriundos de costumes e comportamentos distantes um do outro. Também deve ser considerada que uma mulher como a Anita, não muito habituada a uma vida rotineira e familiar, endurecida pela sua vida precária e por isso mesmo sem muita docura, não deveria ser, evidentemente, o tipo de nora que Rosa Raimondi desejava para seu filho Giuseppe.
Garibaldi, em cartas que mandou a Anita neste período, registrou a preocupação que tinha quando estas duas tão amadas mulheres, mãe e esposa, se encontrassem e tivessem que viver sob o mesmo teto. Em 10 de fevereiro, em carta enviada a Anita por intermédio de Giácomo Médici de partida para encontrar-se com Mazini, Garibaldi escreveu:
"Te mando minhas cartas, que penso vais recebê-la em companhia de minha querida e amada mãe. Tu minha pequena e amada amiga, deves te ocupar-te muito dela. E ela fará de tudo para dar-te prazer, para aliviar-te do desprazer de nossa separação. Quando penso no dia que voltarei a apertar todos vocês entre os meus braços, serei muito feliz. Porém, por amor de Deus, não me separarei mais, porque não poderei suportar a idéia de um desentendimento entre as duas pessoas que representam a minha felicidade futura". (79)
Em outra carta, escrita dias mais tarde, tornava a escrever Garibaldi sobre o mesmo assunto, argumentando:
"Tu deves dedicar muita compreensão a minha velhinha, pelo amor que tens a mim. Deves perdoá-la de eventuais incomprensões, causadas pela sua avançada idade. Ela sempre foi uma excelente mãe. Não desejo outra coisa que não seja partir para a Itália, para desfrutar de teus abraços. Não esqueças do teu filho da tempestade e pensa no teu fiel amante". (80)
A mãe de Garibaldi tinha dúvidas quanto a legitimidade da união entre seu filho e Anita, o que poderá ter causado algum embaraço, ou fomentado a crise de relacionamento que obrigou Anita a mudar-se para uma casa de amigos com seus filhos, posteriormente. (81)
ALTIVA E PRUDENTE, ANITA NÃO ACEITOU A OFERTA DO REI CARLOS ALBERTO
Recém-chegada em Nizza, foi convidada para conhecer a Intendência Geral, cujo responsável a recebeu com tradicional receptividade nizarda e efusiva amabilidade. Informou a Anita que tinha recebido ordens do Rei Carlos Alberto, mandando colocar à disposição do filho Domingos Menotti, uma vaga no importante Real Colégio de Racconigi.
Altiva como sempre, Anita formulou com dignidade palavras de seu reconhecimento particular, ressalvando, porém, depender a decisão final sobre o assunto inteiramente da vinda de seu marido, ainda em Montevidéu. Confirmando o recebimento da oferta do Rei, Anita Garibaldi endereçou ao Intendente a seguinte carta:
"Ilmo. Sr.: Teve V.S. a amabilidade de dirigir-se para me participar o despacho ministerial referente ao meu marido Giuseppe Garibaldi, cujo documento V.S. teve a bondade de exibir-me, para leitura, em sua Repartição, onde tive a honra de cumprimentá-lo, em companhia de meu primo, o negociante Michel Gustavin. Participarei ao meu marido, tão logo souber de sua chegada na Europa, quão grande bondade Sua Majestade demonstrou em relação à sua pessoa; e por isso se mostrará reconhecido. Meu marido disporá então a respeito da destinação e encaminhamento dos nossos filhos, que são em número de três, Domenico Menotti de cerca de oito anos; Tereza de três anos; Ricciotti de apenas um ano de idade. Eu mesma sou reconhecida a Sua Majestade pela oferta de educação dos filhos; mas creio faltaria ao meu dever, si sem participação do consorte tomasse a propósito decisão definitiva". (82)
Estando em vias de armar-se uma revolução, cujos protagonistas ainda eram totalmente desconhecidos, Anita soube esquivar-se, evitando comprometer-se sem saber se deveria ou não aceitar ou declinar de tão generosa oferta, ainda mais naquele ambiente que lhe era totalmente estranho, sem saber quem era quem. Sua já conhecida cautela, mais uma vez impuseram-lhe o comportamento que posteriormente foi elogiado por Garibaldi.
Anita escreveu à Garibaldi, informando-lhe os diversos acontecimentos e o clima altamente favorável e propício à sua chegada, narrando-lhe que havia uma grande expectativa popular em Gênova e em Nice, pelo seu retorno. A carta, entretanto, não alcançou Garibaldi em Montevidéu, de onde já havia partido em 15 de abril de 1848.
Garibaldi partiu de Montevidéu acompanhado de 86 companheiros fiéis, entre eles dois enfermos: Francesco Anzani, acometido de tuberculose e Gaetano Sacchi, que havia sido ferido em um dos joelhos. O fiel "Mouro" André de Aguyar não deixou de seguir o condottieri. Embora a fidelidade que lhe era devotada pelas centenas dos membros da Legião Italiana, a maioria dos legionários garibaldinos já haviam deitado raízes familiares em Montevidéu, lá possuindo esposa, filhos e residência. Além do mais, embora houvessem temporariamente cessado os combates pela consolidação da independência, era necessário manter constante vigilância, com tropas regulares permanentes.
Por tais motivos, a maioria optou por continuar naquele País. Os mais fiéis e que comungavam com a ansiedade patriótica pela unificação da Itália, seguiram com Garibaldi e embarcaram no navio originário do Reino da Sardenha, chamado de Bifronte, rebatizado especialmente para esta viagem com o nome de "Speranza". Como era necessário cumprir a promessa feita à Anita, junto consigo também levou os restos mortais de sua falecida filhinha Rosita, levados em uma pequena urna de chumbo, subtraídos do Cemitério Central de Montevidéu. Permaneceu 12 anos e meio na América.
(76)- ANITA GARIBALDI - HEROINA POR AMOR - VALENTIN VALENTE
(77)- Cópia xerográfica dos arquivos do autor, obtida no Museu do Rissorgimento, em Roma
(78)- ANITA GARIBALDI HEROINA POR AMOR - VALENTIN VALENTE - pg 211
(79)- IDEM
(80)- IDEM
(81)- VITA E MORTE DI ANA MARIA DE JESUS - IVAN BORIS e NINO MILANI
(82)- ANITA GARIBALDI - HEROÍNA POR AMOR - WOLFANG L. RAU)
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