Capítulo XV
Anita partiu para a Itália
A PRUDÊNCIA DE ANITA
Anteriormente, em Roma, um liberal havia sido eleito como Papa, que adotou o nome de Pio IX, que gradualmente passou a introduzir modificações na política do Vaticano, até então alinhada à Espanha e a Áustria, que, para defenderam seus interesses, não permitiam a unificação italiana. Esta linha de atuação do Vaticano havia determinado o exílio de Garibaldi e de milhares de patriotas italianos, proscritos pela ordem vigente na época. As primeiras atitudes do novo Pontífice haviam dado a impressão de que tinha mudada a atuação política do Vaticano, pois um dos primeiros atos papais foi decretar uma anistia aos presos políticos. Outra atitude também festejada pelos carbonários e mazzinistas da Jovem Itália foi a modificação do critério de escolha das lideranças que administravam Roma, até então sob o domínio administrativo do Clero.
Por ato do Papa, a estrutura administrativa romana passaria a contar com uma parcela de cidadãos italianos, escolhidos por eleição popular dentre os que destacavam-se em suas atividades.
Alguns meses após estes fatos terem acontecido na Itália, estas novidades políticas, que chegaram à Montevidéu através de diversos jornais italianos trazidos pelo navio Carolina, foram recebidos pelos italianos lá residentes com muita alegria. Estes jornais, editados no Reino do Piemonte, também deram notícias de que algumas regiões na Itália estavam insurgindo-se em armas, estimulados pelos ventos das reformas e eventual participação do Vaticano na busca da unidade italiana. As boas notícias encheram de alegria e agitaram a comunidade italiana no Uruguai. Os exilados já poderiam voltar e os que estavam proscritos por suas idéias, teriam, então a oportunidade de colocar-se à disposição da causa da unificação. Entre a Legião Italiana, nos dias que seguiram-se, houveram longas manifestações de regozijo, com uma passeata noturna, ao som de hinos que foram cantados pelo séquito a luz das tochas de fogo, que durou longas horas.
Seguiu-se uma inflamada manifestação em praça pública, onde Anzani e outros revezaram-se em longos discurso, com exortações e conclamações, fazendo apaixonada defesa de empreenderem viagem de retorno à Pátria, para auxiliarem no processo de unificação da Itália. Garibaldi foi o orador expoente. Anita, que havia participado da procissão segurando o filho Menotti em uma das mãos, a tudo assistiu e ouviu. Durante os dias que seguiram-se, longos e intermináveis reuniões foram feitas, principalmente em casa de Anita, que lá estava atenta a tudo quando era dito, participando e opinando nos acalorados e entusiásticos debates, fazendo ponderações e influenciando nas decisões que após adotaram.
Naqueles dias sentiu que aproximava-se o momento de partir, deixar o continente americano, e ir conhecer, finalmente, o continente europeu, o Velho Mundo.
O tempo passava e Garibaldi irritava-se com a angustia que lhe corroía a alma. Assistia antigos inimigos italianos mudarem rapidamente de pensamento sobre a unificação italiana; nobres do Piemonte e da Sardenha empunhavam armas; os movimentos eclodiam em defesa da unidade. E ele inerte em um país distante, que lhe era totalmente estranho, participando de uma guerra que tinha tornado-se diplomática. Urgia participar, fazer parte dos acontecimentos, colocar sua experiência de guerrilheiro e de comandante naval a serviço do seu maior propósito. Juntamente com Francisco Anzani, tomou, então, a iniciativa de colocar-se a disposição do Papa Pio IX, escrevendo uma carta, que foi enviada ao Monsenhor Bedini, Núncio Apostólico do Rio de Janeiro, que por sua vez a remeteu ao Papa.
"... Nós os que escrevemos, somos aqueles que, sempre animados pelas idéias que nos fizeram arrostar o exílio, empunhamos as armas em Montevidéu por uma causa que nos apareceu justa, reunindo algumas centenas de compatriotas nossos ... Assim sendo, se hoje os braços que têm experiência das armas estão sendo aceitos por Sua Santidade, devemos dizer que nos sentiremos felizes de nos consagrarmos ao serviço daquele que tanto faz pela Pátria e pela Igreja. Se Vossa Senhoria ilustríssima e colendíssima considerar que nosso oferecimento poderá resultar agradável ao Sumo Pontífice, que Vossa Senhoria o deponha aos pés de seu trono . ...
Sabemos também que a nova ordem de coisas conta com defensores numerosos ... fazei-nos a honra de enfileirar-nos com estes ..." (72)
Após redigirem esta carta, Garibaldi a exibiu a Anita, indagando-lhe o que pensava a respeito de sua disposição de colocar-se a disposição do Papa na causa da unificação italiana. Em resposta, disse-lhe que considerava o ato precipitado, pois deveriam esperar um pouco mais para declararem-se aliados de um homem bem mais forte, chefe da maior potência oculta do mundo. " Dificilmente os poderosos desistem de seu papel sem serem forçados pelos acontecimentos", disse-lhe. (73)
Por sua vez, Mazzini, que estava exilado na Inglaterra, havia escrito ao Papa:
"... A unificação da Itália é coisa de Deus, Santo Padre, e se efetuará convosco ou sem vós". (74) Mais tarde Garibaldi daria razão à prudência de Anita.
Os meses passaram-se, mas nenhuma resposta foi dada. A angustia e a irritação de Garibaldi aumentaram, pois esperava uma imediata convocação, que viria através de uma resposta papal.
ANITA IMPÔS CONDIÇÃO PARA PARTIR DE MONTEVIDEU
Certa noite, irritado pela demora, Garibaldi falou à Anita que havia chegado o momento de partir. Anita deveria partir primeiro, o mais rapidamente possível, junto com os filhos e diversas outras mulheres de patriotas, e ele seguiria alguns meses após, com os seus homens, argumentou-lhe.
Extremamente afeiçoada e dedicada aos filhos, Anita ainda não estava totalmente curada da dor pela perda da filha Rosita. Após a morte, consolava-se com as freqüentes visitas ao cemitério, levando a mantendo flores, forma de amenizar o sofrimento e as saudades deixadas pela prematura morte. Como partir, imaginava Anita, deixando-a em lugar tão distante ?
"... Ele me olhou por um momento sem dizer nada, depois explodiu em um de seus discursos irritados, sem me dar tempo de explicar o meu motivo: eu não conseguia suportar a idéia de deixar o corpo morto de nossa filha abandonado numa terra estrangeira ... eu sabia muito bem que não adiantava discutir com tanta emoção acumulada dentro dele. Também sabia que seus nervos estavam tensos por causa da situação que imperava em Montevidéu, e que naquele dia tivera uma enésima discussão acalorada com um general membro do Governo ... retomei decididamente o discurso que tinha preparado ... quando finalmente entendeu que não me faria mudar de idéia ignorando os meus sentimentos, José propôs um acordo, prometendo enterrar o corpo de Rosita em Nice, junto ao de seu pai. Jurou que, quando voltasse a Itália, ele mesmo encontraria um jeito de levar o corpo de nossa filha...." (75)
E Garibaldi cumpriu a promessa. Quando meses após a partida de Anita, acompanhado de sessenta legionários embarcou para a Itália, a bordo do navio Speranza também estava uma pequena urna funerária, feita de chumbo, contendo os restos mortais de sua filha. Como a sepultura era inviolável pelas leis canônicas, mas como deveria cumprir sua promessa , encontrou uma solução simples: mandou soldados de sua confiança subtraírem do cemitério local !
Finalmente, em 27 de dezembro de 1847, Anita embarcou no navio Carolina, acompanhada de seus três filhos Menotti, Teresita e Riciotti e por diversas outras esposas de patriotas italianos, que rumaram para Gênova, na Itália. De bordo do navio, Anita olhou a América pela última vez.
O único e verdadeiro retrato de Anita
Lamentavelmente, durante o período Uruguaio, poucos registros históricos foram feitos sobre Anita. Mesmo Garibaldi em suas memórias pouco ou quase nada falou sobre a companheira e sua família. Além dos registros de casamentos e de nascimentos de seus filhos, um retrato de Anita, no entanto, foi o mais importante acervo que logrou-se encontrar, que marcou sua passagem pelo Uruguai. Alias, este retrato, pintado em Montevidéu no ano de 1845, por um ítalo-uruguaio chamado Caetano Galino, foi o único em toda a sua vida. Graças a ele pode-se ter uma idéia verdadeira dos traços fisionômicos da Heroína, já que na Itália, principalmente, haviam muitas versões e pinturas que nada tinham de real de sua fisionomia, descaracterizando-a completamente . Sobre este aspecto, muitos anos após a morte de Anita e Giuseppe, o filho mais velho, Menotti, que também foi bravo e festejado general italiano, autenticou esta pintura escrevendo que era "l'único e vero ritratto di mia madre".
Nos 6 anos e meio que residiu no Uruguai, Anita revelou-se mãe, expandiu e aprofundou seus conhecimentos sobre geografia, história, línguas e principalmente, teve oportunidades de ouvir e participar de inúmeros debates e colóquios sobre as doutrinas e os movimentos libertários que eclodiam no mundo inteiro, contra os regimes discricionários e despóticos. Confidente da esposa de Frutuoso Rivera, o Presidente do Uruguai, teve oportunidade de relacionar-se socialmente com as mais importantes e influentes famílias uruguaias, experiência que até então ainda não tinha tido. Este também foi um período que serviu para Anita regularizar sua situação familiar, pois além de ter contraído casamento oficialmente, regularizou o nascimento de seu filho Menotti, que havia nascido no Brasil, ao mesmo tempo que batizou os filhos Terezita, Rosita e Riciotti, que nasceram-lhe enquanto no Uruguai.
(72)- ANITA GARIBALDI HEROINA POR AMOR - VALENTIN VALENTE- pg 202
(73)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - ANITA GARIBALDI - pg 156
(74)- ANITA GARIBALDI HEROINA POR AMOR - VALENTIN VALENTE.
(75)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - A . GARIBALDI - pg. 150
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