Capítulo IX
Derrotada, Anita abandonou Laguna definitivamente


PREPAROU-SE A REAÇÃO DO IMPÉRIO CONTRA A REPUBLICA CATARINENSE

Andrea determinou a Mariath que mantivesse sua frota ancorada na enseada de Imbituba, determinando que algumas navios mantivessem o bloqueio do Porto de Laguna. Imediatamente solicitou mais reforços ao Presidente da Província. Nos dias que sucederam-se, passou a preparar e a concentrar toda sua força para desfechar um ataque marítimo fulminante, pois pretendia fazer valer a sua superioridade bélica, retomar Laguna e destruir completamente os republicanos catarinense. Afinal, como justificar aos seus superiores, que a despeito de sua reputação de militar vencedor da revolta do Pará, estava sendo ridicularizado por uma pequena, mal equipada e destreinada marinha republicana? Necessitava desforrar-se, imperioso acabar imediatamente com àquela situação que o comprometia.

Durante o período deste corso, que tirou Anita e Garibaldi de Laguna durante diversos dias, a situação política-militar na incipiente capital entrava em declínio. A jovem República decaía. E por diversos motivos.

David Canabarro, o comandante em chefe das forças de ocupação de Santa Catarina, após a tomada de Laguna, havia encarregado a Teixeira Nunes para consolidar a conquista, avançando cada vez mais em direção ao norte, até tomar a cidade do Desterro. A empresa foi obtida com sucesso até as proximidades de S. José, parando-a as margens do Rio Massiambu, que era fortemente guarnecido.

Um pouco acima da foz deste rio, iniciaram os republicanos a montarem uma flotilha de embarcações, apressadas dos comerciantes e pequenos navegadores da região. A intenção era usá-las para o transporte de tropas que oportunamente invadiriam Desterro. De Lages esperavam novo contingente de soldados, e do Rio Grande do Sul, partindo de Viamão, deveria chegar um exército ainda maior. Com estas forças, esperava Canabarro consolidar as posições até então conquistadas, e possibilitar a invasão de Desterro. Tendo apreendido mensageiros republicados e interceptadas as mensagens entre as forças de ocupação de Lages e de Laguna, souberam os imperiais dos planos de invasão de Desterro. Como Presidente da Província de Santa Catarina, tratou, então, o português Marechal Francisco Jose de Souza Soares de Andréa, de acelerar as operações contra os republicanos, antes de que estes recebessem os reforços. De fato, por ordem expressa deste, o capitão de mar e guerra Frederico Mariath, em pessoa, comandou uma operação na foz do referido rio, e adentrando-o, surpreendendo e aprisionando mais de vinte pequenas embarcações republicanas, que estavam sendo preparadas para o transporte dos soldados de Teixeira Nunes, que invadiriam Desterro.

Enfraquecidos e sem os reforços que deveriam chegar mas nunca vieram, Teixeira Nunes foi surpreendido pela infantaria do exército imperial, que logrou atravessar o Rio Massiambu, tendo que fugir para não ser capturado. Estacionou o exército republicano nas proximidades de Garoupaba, e dai passou a cobrar de Canabarro o envio urgente dos reforços prometidos.

A pequena população de Laguna, por seu turno, não tinha mais o que oferecer aos republicanos, cujas tropas passaram a sentir as necessidades mais elementares, faltando-lhes munição, equipamentos e víveres.

Vendo a situação deteriorar-se e a falta de apoio material que o Governo Republicano dava ao seu exército, Canabarro passou a tomar algumas medidas antipáticas aos olhos da população local, como, por exemplo, o confisco de gêneros alimentícios e equipamentos necessários à sua tropa.


CHEFE MILITAR E GOVERNO CIVIL NÃO SE ENTENDERAM NA REPUBLICA JULIANA

Os atos nem um pouco democráticos fizerem aumentar ainda mais a distância entre o governo civil e o comando militar da república. Aquele era presidido pelo Padre Vicente Francisco dos Santos Cordeiro, homem do local, dolente e inerte, enquanto Canabarro, o chefe militar, era truculento e arbitrário. "Nunca dois homens mais diferentes haviam se encontrado em nenhum cenário político. Mediam-se os ímpetos de um, pela delicadeza doentia do outro; a pusilanimidade deste pela energia destemperada daquele. A antipatia do aceta pelo caudilho crescia paralelamente com a íntima convicção do seu deslocamento do Governo, da sua impotência. Não lhe tolerava já a própria presença pessoal". (35) As necessidades para manutenção da tropa e da independência aumentavam e o diálogo diminuía. As condições foram propícias para que Laguna, que antes havia conspirado em favor dos farroupilhas contra o Império, passasse a conspirar contra os farroupilhas em favor do Império.

Quando as forças republicanas comandadas por Teixeira Nunes, e que estavam estacionadas no Morro dos Cavalos foram obrigadas a recuarem em direção ao sul, os monarquistas remanescentes nas vilas ainda dominadas pelos republicanos, sentiram-se seguros e decidiram expor-se, passando a colaborarem abertamente com o Império.


CONTRARIADO, GARIBALDI COMANDOU O SAQUE À IMARUI


Da vila de Imarui, localizada ao norte da lagoa que banha Laguna, partiu um pedido do Juiz de Paz, para que os imperiais lhes remetessem armas e munições, pois "haviam mais de cem homens dispostos a resistirem e a expulsarem os republicanos". (36) Alertado deste foco de insurreição, Canabarro ordenou a Garibaldi para armar uma pequena flotilha, embarcar soldados e zarpar para submeter e punir os habitantes de Imarui que estavam em armas contra a República. Mesmo sabendo estarem armados àqueles habitantes e dispostos a lutarem, inicialmente, recusou-se Garibaldi a tal empreitada , pois a ordem que havia recebido era de saquear a cidade, já que os revoltosos da pequena vila de Imarui não poderiam resistir a um ataque seu.

Sob ameaça de Canabarro, dois dias após opor-se ao cumprimento, em 10 de novembro, Garibaldi embarcou e conduziu os soldados, os quais receberam ordem expressa e direta de Canabarro, que a cidade fôsse exemplarmente punida, saqueando-a. Desembarcou a tropa um tanto distante da Vila, surpreendendo seus habitantes revoltosos, que reagiram, mas foram rapidamente desbaratados e alguns mortos. Os republicanos tiveram um sargento morto e diversos feridos. Cessada a luta, a soldadesca encontrou estoque de bebidas alcóolicas, que passaram a ingerir. Generalizada a bebedeira, passaram aos saques e à violência contra a população civil, que embora tivesse fugido sua maioria, alguns permaneceram. Procurando homem a homem, de casa em casa, Garibaldi tentou de todas as formas impedir os saques e os atos de vandalismo.

Mas tão logo virava as costas, impulsionados pelo álcool e pelas ordens de Canabarro, o vandalismo continuava. Sobre este lamentável episódio de sua vida, em suas memórias, registrou Garibaldi que " ... eu resisti ao General Canabarro para punir aquela desgraçada Vila com ferro e com fogo. Porém, fui obrigado a obedecer àquela ordem. ... rapidamente dominamos Imarui ... Desejo a mim e a todas as criaturas que não abdicaram do privilégio de serem humanos, que jamais recebam uma ordem similar àquela que eu recebi, e que por ser peremptória, não me deixou alternativa de recusa....

Deus tenha de mim piedade e me perdoe, mas eu não me recordo na minha vida um dia que tivesse deixado em meu coração uma lembrança tão dolorosa como aquela: ninguém poderá fazer idéia da carnificina que faz padecer, quando se deixa livre o saque ... me foi impossível evitar a desordem ... nada adiantava, nem a autoridade do comando, nem a ameaça do castigo e nem mesmo as agressões ... menti-lhes dizendo que o inimigo retornava rapidamente para expulsar-nos. Espalhei o boato que o inimigo tinha obtido reforço e que vinha marchando contra nós, mas tudo foi inútil. ... Por desventura da vila, os homens encontraram grande quantidade de vinho e de bebida alcóolica .... com exceção de poucos oficiais que ficaram junto de mim, a embriagues foi generalizada ... Eu jamais tive uma jornada de tanto remorso, de tanto náusea da família humana ..." (37)



ESPIÕES DO IMPÉRIO ACUSARAM GARIBALDI E ANITA

O governo do Desterro havia colocado espias na cidade de Laguna, que além de mante-lo informado, também tinham a missão de disseminarem a intriga e a discórdia. E no foco das intrigas também estava o nome de Anita, cujo união com Garibaldi passou a ser usado como propaganda contrária à república pela sua "leviandade". Como argumento espalhavam que Anita estando casada com um soldado do Império, enquanto este lutava para defender a ordem vigente, o "aventureiro farroupilha" a havia raptado, ofendendo a moral, os costumes e as famílias lagunenses. Ergueram-se, como conseqüência, vozes que picharam e execraram Anita, que havia deixado seduzir-se por um estranho e aventureiro.

Os espias encarregaram-se de transformar Manoel Duarte, o primeiro marido de Anita, que antes era um insignificante e pobre sapateiro, e levava a vida sem ser notado, em herói do Império, que enquanto lutava nas fileiras imperiais, estava sendo vítima do desrespeito às famílias lagunenses. Fomentando mais e mais a indignação dos republicanos lagunenses descontentes. Este fato foi sobejamente comentado e Anita dele teve conhecimento, por mais de uma vez, ferindo-a em sua sensibilidade. Às suas poucas amigas, que a alertaram dos boatos a que estava exposta, tentou mostrar a pureza de seus sentimentos e o abandono de seu marido, que, prevendo Laguna nas mãos dos republicanos, preferiu fugir sozinho, deixando-a à própria sorte, sem dar-lhe uma mínima notícia, por quase dois anos.


Transformada em instrumento de propaganda anti-republicana, Anita sentiu-se incompreendida e revoltada. Não bastou que a tivessem induzido a um casamento equivocado, sem amor, sem afeição. A denegriram por viver ao lado do homem que amava. Ninguém importou-se com seus sentimentos. Sem receio, afrontou o preconceito secular que, embora abandonada pelos marido, não lhe reconheceu direito a busca de sua felicidade em novo relacionamento. Em carta endereçada a sua irmã, Anita desabafou a incompreensão da gente de Laguna em relação ao seu comportamento:

"... Pelo menos tu, procure me entender. Com o tempo vou provar que a união do amor é que é o verdadeiro, sagrado e indissolúvel casamento. ... Em meio as conversas das más línguas, ninguém se lembra que o Manoel abandonou-me e desapareceu há quase dois anos e que entre nós não havia carinho, amor, compreensão, um filho, nada que pudesse nos unir ... Mas que sociedade injusta minha irmã ! A mulher tem que pagar por tudo, até pelos próprios sofrimentos. E que fique bem quietinha e boazinha, de joelhos diante do altar, de véu na cabeça, agradecendo a Deus por estar viva, respirar e poder lavar a roupa suja. Contanto que faça tudo sem maus pensamentos, e de olhos baixos." (38)


REPUBLICANOS PREVIRAM QUE DEVERIAM ABANDONAR LAGUNA

Todos estes fatos fizeram os acontecimentos precipitarem-se mais ainda. A noite, quando Garibaldi voltou, encontrou Laguna agitada. Os informantes republicanos davam notícia de que o ataque à cidade poderia acontecer dentro de pouquíssimos dias, pois as tropas de Teixeira Nunes já marchavam recuando para Laguna, permitindo o avanço da infantaria imperial. A frota naval de Mariath, ancorada em Imbituba, esperava a infantaria aproximar-se de Laguna para que, em conjunto, fosse desferido o ataque decisivo. Logo que retornou de Imarui, Garibaldi recebeu ordens de carregar em seus navios todos os armamentos, munições e gêneros alimentícios possíveis, pois como os reforços de Lages e do Rio Grande do Sul não vinham, a alternativa seria resistir, e na impossibilidade de manter a resistência, deveriam zarpar em direção ao sul, abandonando Laguna.

Os homens de Teixeira Nunes, que haviam sido batidos no Rio Massiambu e depois na Praia da Pinheira, foram derrotados, assim como os três destacamentos estacionados mais ao sul, em Garoupada, Imbitupa e Itapirubá Os soldados remanescentes começaram a chegar em Laguna, que fervilhava com a possibilidade de transformar-se no palco de uma grande batalha. Alí reunidos todos os soldados republicanos, estaria constituído um razoável exército, capaz de sustentar um assalto da infantaria e da cavalaria imperial, mesmo sendo estes superiores em armamentos e número de soldados. Era necessário organizar a resistência, pois os prometidos reforços do rio Grande do Sul ainda poderiam chegar a qualquer momento. Grande parte da população abandonou suas residências, principalmente em direção ao sul. Canabarro havia planejado sustentar a cidade de Laguna estacionando o grosso de sua tropa no lado sul do canal da barra, pois que se permanecesse na Vila, poderia ficar encurralado, caso os navios de Mariath, vencendo a resistência de Garibaldi na Barra, rompessem canal a dentro.

De Lages havia chegado a notícia de que o Coronel Alano, imperialista que admoestava os republicanos, havia recebido reforços e tinha retomado àquela vila. Era, portanto, pouco provável que de lá viessem os esperados e prometidos reforços. A esperança, porém, concentrava-se no auxílio que viria do sul. O governo civil da Republica Catarinense estava ausente. O Padre Presidente, os ministros, os conselheiros, haviam sumido ...

Sentindo-se só, sem apoio da população e do governo civil, Canabarro determinou, então, que suas tropas fossem transportados para o lado sul da barra. Homens, munições, animais, carroças e equipamentos foram embarcados pelos navios de Garibaldi, que durante dois dias trabalharam nesta tarefa.

Anita participou de toda as operações preparativas a resistência de Laguna. Sua coragem como marinheira e enfermeira já haviam granjeado confiança e admiração dos oficiais republicanos, o que lhe permitia participar das conferências dos oficiais, juntamente com Garibaldi, que não o deixava só um instante sequer, quer nas reuniões de comando, supervisão e execução das tarefas.

Não participou apenas do ataque à Imarui. Deduz-se que Garibaldi a tenha impedido de embarcar, pois cumpriu a ordem superior contrariado, e previu o massacre que realmente acabou acontecendo. Pela nobreza de sua personalidade, provavelmente quis poupar Anita de assistir possíveis degradações da soldadesca. Por isso a impediu de o acompanhar.

Ao mesmo tempo que alguns navios faziam o constante vai-e-vem do canal para atravessarem as tropas, Garibaldi e Anita embarcaram nos navios remanescentes e ancorados na Barra, tudo o que conseguiram carregar, principalmente víveres e munições. No total Garibaldi dispunha de seis navios, que ficaram perfilados e ancoradas na margem direita da Barra, bem próximo a sua foz.

Embora bem localizado estrategicamente, o pequeno Forte Atalaia, que Garibaldi havia reconstruído à mais ou menos dez metros de altura da lâmina de água da Barra, em uma das montanhas que faz margem ao canal, possuía poucas e impotentes peças de artilharia. Preferiu, então, aumentar a bateria e instalou, ao pé da encosta onde estava localizado o forte, no lado sul da Barra, uma bateria contendo seis canhões, distantes um do outro por diversos metros. Embora de maior largura, o vão navegável da Barra possuía aproximadamente 30 metros de largura, por onde deveriam passar, obrigatoriamente, os navios imperiais, caso adentrassem a Barra.


Disposta no sentido leste/oeste, a linha de fogo montada era composta: pela artilharia do Forte Atalaia; pela bateria de seis canhões colocados no plano inferior do Forte; por uma linha de seis navios equipados com canhões e atiradores e, finalmente, do outro lado da Barra, por uma linha de aproximadamente quinhentos metros, contendo cerca de mil e duzentos atiradores, colocados na areia da praia, sem qualquer proteção, a não ser a própria areia.

Estes atiradores eram "gente toda escolhida, que se voltaria à morte quase certa se os legalistas lograssem transpor a barra. A direita do canal, dispôs sua flotilha serpenteando as margens, formando um semicírculo. A Itaparica foi entregue ao comando do lagunense João Henrique Teixeira, que entestaria com o inimigo antes dos outros. Logo após estava o Rio Pardo, a nau capitânia. 0 barco de Griggs, a Caçapava, seria o terceiro da fila. Vinha depois o "Seival". sob o comando de Valerigini. A seguir as duas canhoneiras, a Lagunense e a Sant'Ana, comandadas por Manoel Rodrigues e Inácio Bilbao. E entremeados com os navios, cinco lanchões com cerca de duzentos atiradores.

A esquadrilha legalista recebeu informações de seus espias que reforços estavam por chegar em Laguna a qualquer instante. Urgia que fosse dado contínua perseguição aos republicanos, aproveitando-se da retirada que havia iniciado no Morro dos Cavalos, junto ao Rio Massiambu. Andrea sabia que o momento lhe era oportuno e que necessitava utilizar cada hora em contínua luta, sem dar trégua aos republicanos, impedindo que recuperarem-se e organizarem a defesa de Laguna. Ordenou ao comando naval estacionado em Imbituba e aos comandos da cavalaria e infantaria que o ataque final fosse desfechado imediatamente.

Inicialmente Mariath havia contestado o plano do Presidente Andréa de invadir Laguna por mar, pois tinha recebido informações sobre a estrutura de defesa montada por Garibaldi junto a Barra.

Havia notícia de que tinha fechado o vão do canal com grossas correntes, colocadas logo abaixo do nível da água. Mas, pressionado, e como que já estava com sua frota naval pronta, impacientou-se com o atraso das forças terrestres comandadas por José Fernandes, compostas por quase tres mil homens, que avançaram muito lentamente em direção a Laguna. Combinou com o comando terrestre que efetuaria o ataque tão logo fosse favorecido pelo vento nordeste, que deveria cair nos dias seguintes, data em que levantaria âncoras de seus navios e singraria rumo a Barra de Laguna.



A BATALHA NAVAL DE 15 DE NOVEMBRO


Amanheceu o dia 15 de novembro e Garibaldi não parou na sua dupla tarefa de efetuar a passagem das tropas para o lado sul da barra e de retocar as últimas medidas necessárias à defesa naval. Diria mais tarde em suas memórias que " .. eu trabalhei desde a madrugada até ao meio dia.". Ao meio dia, em seu navio, fez uma última reunião com os comandantes das outras embarcações. Combinou com Griggs, João Henriques, Valerigini, Rodrigues e Bilbao os pormenores das ações em caso de ataque.

Tomou as últimas providências, confabulou com Canabarro e querendo certificar-se pessoalmente do movimento dos navios inimigos, sobiu ao mais alto dos morros localizados ao sul da Barra, acima de onde estava localizado o Forte Atalaia, para de lá verificar e acompanhar com luneta o movimento dos navios imperiais. Seus espiões haviam-lhe informado que Mariath tinha determinado que dois navios imperiais fizessem desembarcar mais ao sul da Barra, cerca de duzentos homens, junto a Barra do Camacho, que seguiriam a pé, por terra, em direção ao norte, que no momento do ataque deveriam surpreender as baterias e artilharia de Garibaldi pela sua retaguarda.

Era necessário, portanto, vigiar e estar atento a esta possível manobra. Do alto poderia verificar pelos seus próprios olhos se as ordens estavam sendo executadas a rigor. Antes de subir a elevação, confiou à Anita o comando do capitaneo Rio Pardo mandou solicitar a Canabarro mais atiradores para postarem-se ao longo do canal e deixou aos seus oficiais ordens para que nenhum tiro fosse disparado sem que ele pessoalmente desse o comando de fogo. Para atingir as posições mais elevadas necessitou distanciar-se cerca de mil metros, e procurou, nas elevações da entrada da barra, as posições mais altas, de onde tentou, com ajuda de luneta, descobrir se as velas inimigas, que já estavam a caminho fazendo manobras para desembarque de tropas em sua retaguarda.

Dirigiu-se à elevação que não lhe permitia enxergar a parte norte do mar que tinha a sua frente. Neste exato momento, por volta das duas horas da tarde, Mariath e seu navios apontaram a entrada da Barra e Garibaldi, para comandar a operação defensiva estava ausente. As canhoneiras imperiais iniciam a entrada e Anita, do convés, vendo a inércia dos oficiais republicanos, que não dispararam nenhum tiro por ordem expressa de seu comandante, manda-o chamar urgente. Como a encosta do morro é enorme, impacienta-se Anita, que viu as naus inimigas estarem na linha de fogo sem que a refrega fosse iniciada. Por conta própria, entendendo que, se naquele momento não fosse iniciado o combate, de nada adiantaria a reação tardia. Urgia desferir o ataque defensivo.

Resoluta, decidiu ela mesma disparar o primeiro tiro, dando fogo ao canhão que estava ao seu alcance. Foi o primeiro tiro da batalha que se arrastou por toda a tarde, até o princípio da noite. Vendo a feliz iniciativa daquela mulher que bradava com uma espada em punho e ordenava o início do combate, imediatamente as demais artilharias e soldados republicanos abriram fogo. Esplêndida cena, jamais vista, digna da sua imortalização! Uma simples mulher, com apenas dezoito anos, sem experiência na arte da guerra, movida apenas por sua consciência e amor à causa, impôs sua liderança em meio a uma feroz batalha, ombreando com rudes e experientes soldados. Altaneira, com a segurança de quem já estava habituado como guerreira, ordenou o início daquela que foi a maior batalha naval, sem paralelo em território brasileiro.

No entanto, a iniciativa republicana foi prontamente respondida pelas grandes embarcações legalistas. Eram 6 pequenas embarcações da marinha republicana contra aproximadamente 20 naus da marinha imperial equipadas para guerra. (39) Sentindo que os socorros até o momento de iniciada a batalha naval não chegaram, Canabarro ordenou a retirada à cavalaria e à infantaria, vindo a acamparem posteriormente no Camacho e posteriormente no Campo Bom.

Na Vila de Laguna não havia ficado nenhuma guarnição para resistir ao ataque da cavalaria e infantaria dos imperiais. Garibaldi sabia que estava sozinho, mas tinha a convicção de que se derrotasse e impedisse a entrada da esquadra imperial, o combate terrestre contaria com uma nova e poderosa arma: o moral por vencerem uma difícil, porém não impossível, batalha naval. A ordem, então, era lutar e resistir até as última conseqüências, sem arredar pé das baterias de terra e dos navios.

"Aproximam-se os navios em linha como lhes fora prescrito. À frente como ápice da cunha, veleja a canhoneira de Manoel Moreira da Silva. o Manoel Diabo, famoso pelas suas façanhas. A bateria da praia abre fogo sobre ele. Comanda-a Souza Leão, o destemeroso Capote. A artilharia de bordo responde com extrema decisão aos tiros de terra. E o navio avança. Na sua esteira navegam mais alguns, já dentro da barra. Agora. acompanhando as sinuosidades do canal, os barcos inimigos têm as proas voltadas sobre o forte. Parece que vão cravar as quilhas precisamente no lugar em que estão armadas as baterias. É o momento culminante da investida.

Se logram transpor este estreito braço do canal. terão garantida a entrada no porto. Redobra a intensidade do fogo da bateria. 0 alvo dos canhões situa-se a poucos metros. Torna-se vivíssima a fuzilaria. Os mais destros fazem tiros de pontaria.

Verificam-se as primeiras baixas da canhoneira. Manoel Diabo, de carabina em punho, dirige a investida. Grita, impreca, blasfema. As balas lhe sibilam em torno. Que ninguém arrede pé. Os soldados caem ao seu lado. cabeças despedaçadas, troncos destroçados, peitos abertos em largos ferimentos. Do lado republicano, Capote, de pé junto à bateria, infunde ânimo aos seus homens. Que não cesse o fogo! Que se carreguem com rapidez as peças. Que os artilheiros façam pontaria segura sobre o convés da canhoneira. E o fogo da bateria continua.

Aproveitando as circunstâncias que tanto o favoreciam - contara Mariath - "os inimigos enviavam-nos projéteis que enfiavam nos nossos navios, ora pela proa ora pela popa. Uma chuva de balas disparadas quase à queima-roupa pela sua infantaria, abrigada por uma cortina de pedra ao lado da mesma fortaleza, causava-nos um dano terrível. Pode-se dizer uma justa idéia do que sofríamos neste choque". Tão intenso é o canhoneio, tão vivo o crepitar da fuzilaria que alguns práticos se desorientam. Um lenho primeiro, e a pequenos intervalos mais dois encalham no canal". Os tiros dos navios abriram por sua vez, extensas clareiras na guarnição da bateria e na linha de atiradores.

O primeiro barco foi além da volta do sangradouro e começou a investir contra a Itaparica. Os subseqüentes, de formidável potência de fogo, forçaram a passagem com menor dificuldade. Mas a bateria resistiu. Os artilheiros que caíram foram rapidamente substituídos por outros, menos destros, todos dispostos. porém, a não entregarem a posição ao inimigo enquanto lhes sobrava algum alento. Capote, o valoroso capitano Capotto, fez prodígios. Mas pela pouca pratica degli artíglieri que se improvisavam, os adversários, obrigados embora a apresentar o costado e logo a alheta à bateria, conseguiram transpor quase todos o canal.

Passou sobre cada navio um sopro de destruição. Mais do que um combate, foi um turbilhão de fogo que os envolveu. Mas os navios imperiais continuaram avançando, com velocidade regular, tocados pelo vento e pela maré que os favoreceu, através de uma tempestade de balas. "La squadra nemira entro tutta, facendo um fuoco d'inferno com artigliaria e moscchetti".

A luta está sendo bem mais terrível e sanguinolenta do que se imaginara. Pareceram os pobres navios da República, verdadeiros açougues de carne humana: caminhava-se sobre cabeças separadas dos corpos; tropeçava-se a cada passo em esparsos membros de corpos terrivelmente mutilados. Um a um, caíram os valorosos comandantes dos barcos revolucionários. Só Garibaldi continuou ileso. Ao seu lado Anita. Incomparabile mia Annita.

Mais intrépida ainda do que nas horas terríveis de Imbituba, esforçou-se por animar a marinhagem. Acudiu aos pontos mais expostos e descarregou ela mesma o canhão do Rio Pardo. Mas pouco depois de concentrado o fogo dos atacantes sobre a capitânia, todas as suas peças foram desmontadas. Escasseou a tripulação, porque muitos dos marinheiros haviam ficado em terra a prestar serviços na bateria e nas linhas de atiradores. Se os reforços solicitados à Canabarro não chegarem imediatamente, a situação estará perdida".(40)

A fuzilaria foi infernal. Os tiros dados a distância de poucos metros não erraram os alvos, fazendo grandes estragos, de lado a lado, no que pese a superioridade bélica legalista, três vezes superiores em navios, em potência e em quantidade de armamentos pesados.


NA FUZILARIA, ANITA SALVOU AS MUNIÇÕES REPUBLICANAS. GARIBALDI ATEIOU FOGO NOS NAVIOS

A bordo do Rio Pardo, de onde comandou a operação, Garibaldi, pressentiu a derrota de sua resistência e enviou Anita à presença de Canabarro para mostrar-lhe a inadiável urgência de socorro. Ordenou-lhe que após cumprida esta missão, permanecesse a salvo, com as tropas de Canabarro. A missão era apenas uma forma de afastar Anita daquele inferno, pois o grosso dos navios imperiais já haviam transposto a Barra. Ela desceu do Rio Pardo, tomou um bote, atingiu a margem e partiu. A poucos quilômetros alcançou Canabarro, transmitindo-lhe a mensagem. Em resposta disse-lhe que Garibaldi deveria abandonar a luta, salvando os homens e a munição que fosse possível, e que após ateasse fogo nos navios republicanos, impedindo-os serem aprisionados e usados pelos imperiais. Voltou Anita para o centro da batalha, sob a continuada fuzilaria, tomou um pequeno bote e novamente subiu a bordo do Rio Pardo com o recado de Canabarro. Bem equipado, mas com poucos sobreviventes, o Rio Pardo era o alvo principal dos imperiais, pois além de ser o que mais resistia, ali encontrava-se o comando naval republicano.

Por isso as baterias inimigas concentrarem-lhe o fogo. Quis cumprir as ordens de Canabarro, mas foi quase que impossível, pois faltou-lhe homens. Anita, então, ofereceu-se para transportar a munição a salvo, levando o que podia, com o pequeno barco à terra firme. Garibaldi concordou, mas com uma condição, que não voltasse, pois a travessia do Rio Pardo até a margem do canal era desprotegida, sendo alvo fácil das armas dos navios inimigos, que não cessaram de atirar. Mas, mesmo contrariando a condição que lhe impôs Garibaldi, Anita foi e voltou, seis vezes, retirando o máximo de munição das naus republicanas. Subiu a bordo, caminhou entre cadáveres despedaçados, mutilados pela violência dos tiros de canhão a queima-roupa. Com sangue frio, sabendo o que estava fazendo, não deixou-se amedrontar. Desceu aos porões de cada um dos navios e de lá saíu trazendo baldes de pólvora e balas de mosquetes.

Carregou o pequeno barco, meteu-se em pé na sua proa e ordenou aos dois remadores que rumassem para a praia. As balas dos mosquetes e dos canhões silabaram sobre sua cabeça. E, desobedecendo Garibaldi, efetuou a mesma e perigosa travessia doze vezes!

Enquanto Anita levava a munição que podia, Garibaldi ateava fogo nas demais embarcações, repleta de cadáveres republicanos. Todos seus oficiais comandantes estavam mortos nos tombadilhos de seus barcos. Garibaldi testemunhou e registrou em suas memórias: "passando sucessivamente a bordo dos nossos vários navios para incendiá-los, presenciei cadáveres de nossos homens mutilados e espalhados por todos os lados. O Comandante da Itaparica, João Henrique, da Vila de Laguna, entre outros cadáveres, estava com um buraco redondo no meio do peito, trespassado por uma grande bala de canhão.

O comandante do Caçapava, João Griggs, tinha recebido um metralha que de seu corpo somente o busto permaneceu inteiro. E como seu rosto estava vermelho e o busto permaneceu apoiado na murada onde foi atingido, parecia que estava vivo" (41). Todos os comandantes e oficiais dos navios republicanos haviam morrido. Apenas Garibaldi escapou milagrosamente. Após atear fogo, Garibaldi fez-se a terra, uniu-se a Anita e aos soldados e marinheiros remanescentes desta sangrenta batalha e rumaram em direção ao Camacho, para o sul, onde já os esperavam Canabarro, Teixeira Nunes e os demais comandantes farroupilhas. "Em poucos minutos as cinzas daqueles valorosos companheiros estavam submersas pelas ondas ", escreveu Garibaldi em suas Memorie.

Registros oficiais da Marinha Brasileira dão conta que os legalistas contaram cinqüenta e um mortos e treze feridos. Entre os republicanos não existem registros oficiais, mas sabe-se que as baixas foram bem maiores, presumindo-se que tenham chegado perto duzentos, e que dezenas ficaram feridos.


DERROTADOS, ANITA E OS REPUBLICANOS ABANDONARAM LAGUNA

Narrando este triste fim, poucas semanas após, já estando em Lages, Anita escreveu à sua irmã Felicidade, no Rio de Janeiro:

"Lages, 10 de janeiro de 1840 Minha querida irmã, ... o abandono do nosso porto assinalou o fim dos meus mais lindos sonhos. A data de 15 de novembro está marcada a fogo na minha mente. Ainda sinto algumas de suas imagens cruéis, cortantes como lâminas. No entanto, de manhãzinha, tudo parecia normal. 0 sol já se levantou quente, o céu estava limpo, azul brilhante, lavado pela brisa marinha. ... Eu estava a bordo, na nossa cabine ... José já tinha descido até o fortim, na Barra ....para se reunir com as nossas forças de terra e estudar as últimas informações sobre os movimentos inimigos. De repente, apareceram as barcas imperiais, as velas infladas, com as pontes repletas de homens armados. Penetraram silenciosamente na enseada, passando diante do fortim e alinhando-se ameaçadoras, uma a uma, com o lado armado voltado para Laguna e os canhões apontados diretamente para nós, as bocas prontas para vomitar a sua carga mortal.

Não sei como descrever o que se seguiu, o eco da primeira canhonada, o romper-se da madeira, os marinheiros tomados de pânico que corriam para todos os lados, sem rumo, tropeçando nos primeiros mortos. Eu sabia que tinha que ganhar tempo, para José poder voltar .... Então, num acesso de raiva, peguei eu mesma um pavio e disparei um canhão. O tiro resplandecente ecoou como sinal de contra ataque dos nossos navios de comando e logo foi imitado pelos nossos canhoneiros.

Felizmente, isso bastou para deter a fuga desordenada dos marinheiros, que voltaram aos seus postos de combates. Desde o começo, porém, a batalha estava perdida. José sabia muito bem disso ... Infelizmente, estávamos presos, como um alvo imóvel ancorado no porto.

Com seus grandes navios, os inimigos tinham um jogo fácil e mortal. ... ainda vejo os olhos de José que me seguiam o tempo todo em meio à fumaça da batalha, com o rosto coberto de pó e de suor, enquanto me pedia para embarcar os feridos na chalupa, para levá-los a terra. "Ele quer me pôr também a salvo", pensei ... Fui correndo transportar os homens e o material, levando-os até o molhe. Ajudei os feridos a desembarcar mas, contrariando as ordens, não fiquei com eles em terra. Decidi ir e vir transportando outras cargas. Enquanto eu remava, parecia que caia uma chuva de pedras ao nosso redor, a água espirrava, crivada de estilhaços e balas.


Finalmente, ao cair da tarde, fomos obrigados a pôr fogo no que restava das nossas preciosas embarcações, transformadas em esqueletos vazios e irreconhecíveis. Deixamos Laguna aquela noite, por ordem de Canabarro, junto com os poucos sobreviventes. Numa pausa durante a fuga eu me voltei e, entre os brilhos dos barcos que queimavam, vi as pessoas olhando lá das vielas do porto, com os rostos iluminados pelo incêndio. O perfil escuro das casas e das árvores destacava-se contra o céu avermelhado e relampejante. No ouvido, os estrondos, o vento, os gemidos dos feridos que chacoalhavam nas carroças trepidantes. Talvez naqueles momentos eu tenha visto o inferno, em que não acreditava" (42)

A despeito das possibilidades de manterem-se em território catarinense, sustentando a continuidade da jovem república, o que era defendido por Teixeira Nunes, Luighi Rosseti e Garibaldi, Canabarro demonstrou-se irredutível na decisão de abandoná-la e voltar para o Rio Grande do Sul. Desgostoso com a população local e o governo civil, Canabarro não tinha mais ânimo para continuar lutando pela efêmera República Catarinense. Tinha pressentido que não subsistiria.

Após diversos dias acampados no Camacho e no Campo Bom, cerca de vinte quilômetros de Laguna, Anita abandonou definitivamente sua cidade, dela ficando apenas com as lembranças de sua infância e a incompreensão de sua gente. Porém estava feliz. Havia encontrado um duplo motivo para sentir-se assim: como cidadã estava engajada no Exército Farroupilha, onde poderia continuar lutando pelos mesmos e nobres ideais que seu tio havia esculpido em sua consciência, e como mulher, sentia-se plenamente realizada, pois amada como nunca havia sido, pelo homem a quem uniu-se para sempre .

Garibaldi, por sua vez, embora derrotado, dentre o exército farroupilha era o único, talvez, que abandonou Laguna levando um bem precioso, um verdadeiro tesouro:

"Eu seguia a cavalo para o Rio Grande, com a mulher do meu coração ao lado. Cavalgava na vanguarda de uns poucos companheiros, sobreviventes de muitas batalhas. Mas que me importava não ter mais roupa do que a que me cobria o corpo e servir uma pobre República que a ninguém podia pagar um soldo? Eu tinha um sabre e uma carabina que levava atravessada diante dos arreios. E tinha Anita, meu maior tesouro." (43)

(35)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINDOLFO COLLOR - pg 263
(36)- IDEM
(37)- Texto traduzido pelo autor da obra de ALEXANDRE DUMAS - GARIBALDI IN SUD AMERICA -pg 91
(38)- ANITA GARIBALDI - A MULHER DO GENERAL - A . GARIBALDI - pg 47
(39)- Alguns autores falam que a Marinha Imperial colocou 22 navios imperiais para atacar Laguna, enquanto outros falam em 14.
(40)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINDOLFO COLLOR pg 279
(41)- VITA I MORTE DI ANA MARIA DE JESUS- IVAN BORIS - NINO MILANI - pg 27
(42)- ANITA GARIBALDI - A MULHER DO GENERAL - ANITA GARIBALDI - pg 63
(43)- GUERRA DOS FARRAPOS - ALCY CHEYUICHE - pg 139