Capítulo VIII
Revelou-se a coragem de Anita, a guerreira republicana
DUAS REPUBLICAS DEPENDIAM DO PORTO DE LAGUNA
A partir deste feliz primeiro encontro, outros sucederam-se na mesma casa, respeitosos e discretos, mas o vivo interesse que um despertou no outro não tardou a ser percebido, traídos que foram pelas suas reações e comportamentos, um tanto diferentes dos dias em que ainda não se conheciam.
Calaram mais profundo seus sentimentos, danando-se as regras e os preconceitos sociais. O que importava se Garibaldi era um marinheiro estrangeiro, um aventureiro, sobre o qual nada sabia-se a respeito, ou que importava se tinha a certeza de que não deitaria raízes na Vila? Que importava o fato de Anita estar legalmente casada e impedida, portanto, de entregar-se a um idílio proibido, enquanto vivo fosse seu primeiro marido, ou de que valiam às regras e aos costumes sociais da conservadora sociedade? Nada disso era importante ou oferecia barreiras àqueles dois corações que ardiam de paixão, cujas condições de atração e união o destino e o tempo já vinham construído desde muito, alicerçando este encontro, do qual floresceria o grande romance do milênio? As convenções legais, a crença religiosa e os preconceitos sociais, estigmatizados ao longos dos quase quatro séculos de Brasil, não foram fortes o suficientes para impedir o que o futuro lhes reservava. Nenhuma força humana os poderia ter impedido.
Os farroupilhas e a jovem República sabiam que o Rio de Janeiro e Desterro articulavam a reação, e que tentariam, no momento oportuno, retomar toda a vastidão do litoral sul catarinense e o planalto serrano, invadida e ocupada pelos farrapos, que compreendia todos os territórios formados pelas vilas de Laguna, Lages e Araranguá. Esperando por esta reação, Garibaldi trabalhava arduamente na montagem de um plano defensivo, para rechaçar qualquer ataque marítimo dos imperiais.
Porém, o bloqueio ao porto de Laguna fazia com que os interesses econômicos do comércio da Vila de Laguna, começasse a questionar os efeitos da proclamação da República, já que conforme afirmavam que as idéias republicanas eram boas, mas que o comércio estava vazio. Os navios com mercadorias não podiam sair e nem entrar pela Barra. Tornaram-se necessárias ações visando a liberação do bloqueio que a Marinha Imperial impunha à República Catarinense. Luighi Rossetti, secretário do Governo Republicano escreveu diversas cartas aos seus patrícios comerciantes e donos de barcos mercantis de Montevidéu e Buenos Aires, recomendando atracarem seus navios em Laguna, que estava carente de negócios.
Mas a notícia do bloqueio e a presença constante de navios da marinha imperial, fundeados na Ilha dos Lobos, ao largo da Barra, afugentou os navegadores da frota mercante. Por determinação expressa do Rio de Janeiro, o novo presidente da província de Santa Catarina, General Andréa, em virtude da humilhante derrota e retirada da frota imperial de Laguna, montou uma nova e mais equipada flotilha e nomeou como seu comandante George Brow, advertindo-o de que seria responsabilizado pessoalmente, em caso de ineficácia, isto é, se algum navio dos republicanos entrasse ou saísse do Porto de Laguna. Para esta tarefa contava com um considerável apoio militar, sendo colocado sob seu comando o Patagônia e mais outros quatro navios.
Não era apenas o comércio de Laguna que necessitava utilizar o Porto para escoar e abastecer-se com gêneros e produtos. Os republicanos riograndenses também o necessitavam, pois era um ponto militarmente estratégico para interceptarem os navios militares, que oriundos do Porto do Rio de Janeiro, de Paranaguá e de Santos, faziam o abastecimento do Porto de Rio Grande, por onde o exército imperial, estacionado e em guerra contra a República Riograndense, recebia seus suprimentos.
Deste porto estavam dependentes as duas jovens repúblicas, recém destacadas do Império. Havia necessidade, portanto, de romper o bloqueio com emprego da força naval e para esta tarefa preparava-se Garibaldi. Se não rompesse definitivamente o bloqueio, deveria faze-lo ao menos momentaneamente, para alcançar o mar, onde poderia fazer abordagem de navios mercantes, confiscando-lhes a carga em nome da República Catarinense, permitindo a continuidade do comércio em Laguna.
Sabia que os navios imperiais eram maiores em tamanho e em número, bem melhores equipados, com peças de artilharia mais poderosas e com uma tripulação militarmente treinada, enquanto ele contava apenas com pequenas embarcações, algumas avariadas e rapidamente improvisados os consertos, mas com poucas peças de artilharia, de calibres inferiores. Quando iniciou as operações de equipar os navios, com os quais iria admoestar e enfrentar as naus inimigas, a notícia correu rapidamente na pequena Laguna. Rápido, Anita ficou sabendo.
O RELACIONAMENTO TORNOU-SE PÚBLICO
Dois dias antes de partir, Garibaldi foi à casa de Anita. Foi para despedir-se, pois seu relacionamento já havia desde muitos dias tornado-se mais freqüente e mais íntimo. Os sentimentos e o calor de seus encontros os cegaram em relação à sociedade local.
Mais do que uma simples e passageira aventura, gradativamente, a medida que os dias passavam, Garibaldi sentiu-se mais e mais atraído pela estranha força que o fulminou. Aos encontros noturnos seguiram-se os encontros mais frequentes, seguidos por longas e inebriantes caminhadas, ao longo das sinuosas enseadas e praias que são banhadas pelo Atlântico. Garibaldi, marinheiro por excelência, pela dimensão continental do Brasil, tinha compreendido a importância que o cavalo representava como meio de transporte, e demonstrou à Anita sua vontade de tornar-se um cavaleiro.
As caminhadas transformaram-se em cavalgadas, que oportunizaram percorrerem maiores distâncias, libertando-se dos fulminantes e bisbilhoteiros olhares, que não podiam compreender e nem testemunharem a volúpia com que entregaram-se, nas diferentes e históricas enseadas lagunenses.
O relacionamento já era corrente dentre a população. Como Garibaldi residia a bordo do Rio Pardo, que ficava ancorado junto à Ponta da Barra, Anita deixou-se ficar por longos períodos em casa do seu padrinho, voltando esporadicamente a sua residência na rua do Rincão, na Vila de Laguna. (31)
Para ali veio apenas quando algum acontecimento a exigiu ou a reuniu com Garibaldi e outros casais, como por exemplo, o batizado ocorrido no dia 21 agosto, quando ela e Garibaldi tornam-se padrinhos de batizado do menino Eduardo Ferreira, em Laguna. O batizado foi comemorado com festa. O nome de Eduardo, Garibaldi escolheu-o em memória de seu amigo recentemente afogado, Eduardo Mutru. Naquela noite, receberam a visita de oficiais e lideranças lagunenses, e acabaram festejando com dança ao som de um violino e outros instrumento da época. Juntamente com amigos, os encontros e as danças repetiram-se algumas vezes. Tanto Anita em suas cartas, quanto Garibaldi em suas memórias os descreveram posteriormente.
Foi a própria Anita, em carta endereça a sua irmã, que vivenciando aqueles dias, confessou o romance e, sobre as malidiscencias, desabafou:
"... esta união é a verdadeiramente sagrada, não a outra. ... Não me leve a mal. Procure me entender. Com o tempo vou provar que a nossa união é indissolúvel. Peço que você me defenda com seu carinho. Vou precisar dele, porque com certeza você vai ouvir falarem horrores de mim. E não vá me dizer que eu sou exagerada ou que todos já estão acostumados com o que dizem a meu respeito. Fique sabendo, que as más línguas de sempre já começaram com o falatório. ...
Desta vez, juntaram-se a elas as condenações dos que não têm simpatia pela causa revolucionária, quer dizer, aqueles que têm medo de perder os seus privilégios, aqueles que já são ricos às custas de nós, os pobres. Todos eles, e são muitos, falam da afronta que estamos fazendo ao Manuel, que se transformou, na história deles, num herói do exército imperial. Eu, a sem vergonha, o estou traindo com um aventureiro estrangeiro. No meio dessas conversas, quem lembra que Manuel desapareceu há quase dois anos e nunca foi meu marido?
E que entre nós não havia nada, nem carinho, nem um sorriso, ... um filho, nada? Como gostam de despejar insultos nas minhas costas! ... Por enquanto, aqui não se tem falado de guerra ou de morte. Pelo contrário, o tempo tem passado agradavelmente. José e eu nos encontramos muitas vezes com outros oficiais, suas namoradas, outras pessoas daqui. À noite, dançamos, brincamos, jantamos na casa de amigos ou no bar do Bilbao. Laguna tornou-se um lugar de diversão, porque os companheiros procuram distração, sabem que cada minuto é precioso e que daqui a pouco com certeza vão ter que retomar a luta.
José também terá de embarcar para voltar a atacar a frota imperial com seus barcos. Sua missão é importante. Precisa proteger o comércio e o abastecimento de Laguna e Porto Alegre e também se apoderar principalmente das munições e dos gêneros alimentícios dos inimigos ".(32)
ANITA EMBARCOU EM CORSO PARA ROMPER O BLOQUEIO DO PORTO
Estando de partida para romper o bloqueio naval, Garibaldi foi alertar Anita que seus compromissos com a causa republicana exigiam ausentar-se por diversos dias, correndo os riscos de prováveis batalhas navais. E se assim procedeu, é porque já sentia-se vinculado, devedor de informações à sua Anita. O curto relacionamento do casal, porém, já havia rompido os preconceitos sociais e religiosos, pois os comentários negativos a seu respeito já circulavam abertamente.
Chegando a residência de Anita, antes ainda de concluir a frase com que disse da necessidade de embarcar, partir para o corso, foi interrompido com a afirmativa da sua companheira dizendo que iria junto. Garibaldi tentou explicar que mulheres não podiam fazer parte de tripulação que embarca em empresa de guerra, justificando que seria extremamente arriscado e colocaria sua vida em risco. Irredutível em sua decisão, Anita atalhou a conversa dizendo que, após seu rumoroso caso, não mais tinha condições de permanecer na Vila sozinha, sem sua companhia. Além do mais, já lhe devotara sua vida, que sem ele não teria mais sentido.
Encerrou a conversa dizendo que, em caso de não embarcar, caso Garibaldi voltasse, não mais a encontraria, pois haveria de seguir os farrapos, não mais abandonando a causa republicana. Garibaldi, vendo ser inútil opor resistência, concordou com o apelo de Anita.
Afirmativas existem de que Anita teria embarcado, mesmo sem a concordância. As condições com que fez-se a bordo realmente não se tem certeza, mas o fato é que no dia 23 de agosto de 1839, a determinada mulher, disposta a não mais abandonar seu homem, estava agora residindo a bordo do navio Rio Pardo, investida, por sua livre vontade, em nova e diferente atividade: corsária da República Catarinense. Foi sua primeira oportunidade de colocar seu vigor em prol dos ideais republicanos, os ideais que, por obra do Tio Antônio, haviam calado profundamente em sua consciência.
Estrategista e astucioso, dias após, Garibaldi necessitou ludibriar a vigilância dos navios imperiais que, do mar, mantinham o bloqueio ao acesso a Barra, e conseqüentemente, ao Porto de Laguna. Despachou, então, um pequeno e veloz barco, uma sumaca, que por ser menor e mais leve, seria difícil ser alcançada pelos navios inimigos. Ao sair da Barra, logo foi avistada pelos navios imperiais, que levantaram âncora e passaram a persegui-la. Os vigias localizados no alto do Morro da Barra, ao ver afastarem-se os navios legalistas, emitiram os sinais, que informavam ter dado certo a armadilha do estrategista.
Ao fim do dia, três navios republicanos singraram a Barra e alcançaram mar aberto. Eram o Caçapava, o Rio Pardo e o Seival, comandos, respectivamente por Johan Griggs, Valerigini e Garibaldi. Durante boa parte da noite rumaram em direção sudeste, distanciando-se do bloqueio naval. Quando pela madrugada o vento mudou, viraram as velas e dirigiram-se para o norte, em direção ao Porto de Santos. Navegaram por dois dias, sem terem sido admoestados ou mesmo encontrados por qualquer nau monárquica.
Quando o vento mudou novamente, rumaram de novo em direção ao sul.
Enquanto o Patagônia e os demais navios sob a responsabilidade do Capitão Broon empreendiam contínua perseguição à sumaca que havia servido de isca, Anita viveu dois dias de intensas novidades, pois nunca tinha estado a bordo de um navio, ainda mais em um navio de guerra, equipado com canhões e com soldados, que batiam-se pela mesma causa do Tio Antônio. Sentia-se profundamente feliz, pois agora também ia ter a oportunidade de defender os mesmo ideais.
A BORDO, ANITA FEZ EXERCÍCIOS DE TIROS E PREPAROU-SE PARA AS BATALHAS
Porque recém ocupada a Vila de Laguna, e porque a Marinha Republicana passou a existir somente após a ocupação, Garibaldi havia recrutado homens inexperientes na arte dos combates navais. Eram, porém, homens movidos por ideais, dispostos a lutarem. Ansiavam pelos combates. Valentes e corajosos marinheiros, que lutavam sem saber se receberiam ou não algum soldo. Tinham consciência de que enfrentariam um adversário bem mais treinado e equipado, com embarcações maiores. Por tais motivos, necessitavam ser treinados a abordarem e a dispararem suas armas e canhões com os navios em movimento. Durante estes dois dias, Garibaldi os preparou, treinando-os, simulando ataques, lutas, defesas e abordagens.
Sempre ao lado de seu homem, para Anita, aquilo era um mundo novo, totalmente diferente de sua monótona e simplória vida de aldeã. Tudo era novidade. Nada escapou de sua aguçada curiosidade. A cada detalhe, a cada item que observava e que lhe era ensinado, seguiam-se intermináveis seqüência de perguntas. Estava ávida de conhecimentos. Desejou saber e apreender rapidamente. Quis fazer o que os marinheiros também faziam, para doar-se integralmente à causa, da qual, dali em diante, foi fiel soldada. Garibaldi esteve sempre ao seu lado, para satisfazer sua curiosidade e ensinar-lhe, detalhando como tudo funcionava e acontecia.
Aninha tinha despertado de seu sono. Agora sim estava começando a viver verdadeiramente: consciente, lutaria porque tinha um ideal; feliz, porque havia encontrado o homem a quem poderia doar-se integralmente. Durante os treinamentos, voluntariamente, assumiu a condição de marinheira, submetendo-se às ordens de comando, ora jogando-se ao chão do convés, ora atirando, ora carregando canhões, ora simulando lutas corpo-a-corpo, com pistolas e armas brancas. Com mosquetão praticou tiro ao alvo em objetos que boiavam, e logo estava atirando nos pássaros que voando, acompanhavam a embarcação. Ali morreu definitivamente a desprotegida idealista e mal amada Aninha. Rompeu-se definitivamente os grilhões da submissão e da contemplação. Uma nova mulher nasceu naqueles dias, que embalada pela auto confiança que àquele cenário e vivência lhe inspirou, a transmudou em mulher que realizou seus sonhos: Aninha agora era Anita, a guerreira republicana !
Dois dias depois de ser perseguida, a sumaca que havia servido de isca foi interceptada no Desterro, e seu comandante, ao ser preso, confessou que havia sido usado para iludir a vigilância do bloqueio. A conseqüência lógica foi que o simplório Broom, quando voltou ao seu posto nas águas da Laguna, foi suspenso do comando do navio e mandado ao Rio de Janeiro par responder a conselho de guerra. Em sua substituição ficou encarregado do bloqueio o capitão tenente Romano da Silva.
O Presidente da Província, General Andréa, que havia sido informado que três navios republicanos haviam deixado Laguna, ordenou ao comandante naval Mariath para preparar imediatamente todos os navios em condições de caçá-los. Sentindo-se insultado por seu oficial ter sido vítima de tão ingênua armadilha, remeteu urgente avisos às autoridades dos portos de São Francisco, Paranaguá, Santos e Rio de Janeiro, para que estivessem preparados, posto que haviam saído do Porto de Laguna os navios corsários.
"Mariath entrou em atividade febril. Ordenou ao capitão de fragata Joaquim Leal Ferreira, comandante da corveta Regeneração, que sem a menor perda de tempo se fizesse à vela e fosse cruzar até a altura do Rio de Janeiro. Recomendava-lhe muito que se demorasse alguns dias em Paranaguá e Santos, pois notícias recentes anunciavam a saída de corsários do porto da Laguna com o propósito de apresar embarcações naquela costa, "devendo V.S. tomar não só as inimigas, mas ainda aquelas que lhe causarem desconfianças, pois também se sabe que alguns dos corsários levara papéis falsos para entrarem em algum porto a carregarem ".. (33)
A missão foi cumprida fielmente, e nos portos citados o oficial encarregado da incumbência registrou e revistou todas as embarcações ancoradas, que partiam e que chegavam, vasculhando detalhadamente todo o litoral. Depois de alguns dias, não logrando êxito em sua missão, decidiu voltar em busca de nova orientação de seus superiores.
ACONTECERAM OS PRIMEIROS CONFRONTOS NAVAIS
Navegando ao longe da costa, a pequena flotilha republicana, na altura de Santos, avistou uma embarcação que vinha dos portos do norte, abarrotada de mercadorias destinadas aos portos do sul. Griggs foi seu encalço para apresá-la, o que fez sem maiores dificuldades, já que àquela tripulação submeteu-se sem maiores resistência. No entanto, algumas horas após a apreensão, os tripulantes que antes se haviam submetidos, reagiram e conseguiram dominar os marujos de Griggs, que juntamente com este, foram presos e acorrentados no porão. Retomaram, então sua rota para o sul. Os navios de Garibaldi e Valerigini estavam distantes quando perceberam ter acontecido algo errado.
Como o haviam perdido de vista, passaram a procurar o navio de Griggs, aproximando-se da costa, buscando encontrá-lo ancorado em algum dos contornos das baias ou em uma da diversas ilhas da região litorânea de Santos a Paranaguá. Ao aproximarem-se da costa, foram avistados pelo barco imperial Regeneração, que a diversos dias os procurava. Houve troca de tiros de canhões, mas a distância impedia atingirem os alvos. Este navio possuía um forte aparato bélico, composto por vinte grandes canhões, enquanto as duas naus republicanas possuíam apenas cinco pequenos canhões, de calibre e alcance inferior.
Era imperioso, portanto, não ficar ao alcance dos canhões, e como eram menos velozes, Garibaldi tratou de aproximar-se mais ainda da perigosa costa, plena de baixios e pedras, que não permitiam a aproximação do Regeneração. Estava criando uma nova armadilha, esperando que o Regeneração encalhasse, tornando-se presa fácil, o que, entretanto, não aconteceu, mantendo-se este mais a distância. Após anoitecer, durante toda a noite mantiveram-se as posições e logo que clareou o dia, iniciaram-se os canhoaços, prolongando-se durante o dia, até que súbita mudança de vento obrigou os republicanos a afastarem-se da costa, sob pena de serem empurrados pelo vento em direção às rochas do litoral.
Mas este mesmo vento avariou o velame do Regeneração, obrigando-o a retirar-se para reparos e buscar reforços. Garibaldi e Anita rumaram para o sul, e ao atingirem a ilha do Abrigo, rapidamente reabasteceram-se de provisões e de água, com a colaboração dos ilhéus. Ali ancorados, avistaram as sumacas Bizarra e Elvira, carregadas com arroz destinado ao Rio de Janeiro, que rapidamente foram abordadas e expropriadas suas cargas. Garibaldi sabia da importância de abastecer Laguna, como forma de manter a confiança popular e reanimar o então decadente comércio portuário da jovem República. Para lá levaria a carga apresada.
Um pouco antes de chegarem em Paranaguá, avistaram o barco mercante Formiga, e o abordaram, apreendendo-lhes as mercadorias. Para sua surpresa, no porão deste navio, encontraram aprisionados Griggs e sua tripulação, que estavam sendo levados para serem entregues às autoridades do Desterro. Inverteu-se a situação: carcereiros foram encarcerados. A flotilha republicana prosseguiu rumo ao sul, mas ao passarem por Paranaguá, e necessitando suprirem-se de água, Garibaldi içou uma bandeira do Império e fundeou ao largo do forte militar que guarnecia a vila, e mandou um escaler buscar o suprimento.
A simulação foi descoberta e os tripulantes do escaler foram presos. O comandante da guarnição militar disparou um tiro contra a flotilha, com o único canhão que dispunha, mas ao disparar, a base de pedra de sustentação do canhão desmoronou. Temendo o que poderia acontecer, os republicanos prosseguiram rumo ao sul. Nas proximidades da Ilha de Santa Catarina, foram interceptados pelo brique Andorinha, um dos melhores e mais bem equipado navio de guerra do Império, um verdadeiro "navio de guerra ", como Garibaldi diria mais tarde em suas memórias.
Tentando proteger a flotilha, Garibaldi ordena e Anita repassou as ordens para que as demais embarcações prosseguissem rumo ao sul, lançando-se ele e seus marujos contra àquela "fortaleza flutuante ", disparando toda sua bateria de pequenos canhões e com seus homens abrindo fuzilaria individual. Sua intenção, estava claro, era permitir que os barcos e as mercadorias apreendidas chegassem ao porto de Laguna, mesmo sabendo que sua ação mais parecia um suicídio para proteger as outras embarcações. O Andorinha respondeu ao fogo, mas nenhum dos lados foi atingido, porque o mar estava bastante agitado e não permitia a pontaria. Apenas os tiros de fuzis atingiram alguns marinheiros, de lado a lado.
Mesmo assim, dois dos navios apreendidos pelos republicanos foram interceptados. Das três embarcações mercantes apreendidas, apenas uma conseguiu fazer-se salva, rumando em direção sul. O Seival e o Rio Pardo, embora superiores, mantiveram-se disparando contra o Andorinha. Continuou por diversas horas a refrega, o Seival foi seriamente atingido no casco e o Rio Pardo no seu velame, o que os fez navegarem com dificuldade. Mas, com a aproximação da noite, recrudesceu a desproporcional contenda, cessaram os tiros de canhão, e conseguiram navegar rumo ao sul, com a intenção de alcançarem Laguna.
Com a mudança do vento, que passou a vir do sul, tornou-se impraticável adentrar a perigosa Barra de Laguna. Decidiu, então, atracar na pequena enseada, onde mais tarde seria construído o Porto de Imbituba, cuja natureza havia construído um abrigo natural, com formação côncova, com a extremidade sul avançando ao mar, fechando a enseada em forma de ferradura. Na ponta sul desta baia existia uma elevação com altura aproximada de vinte metros. Garibaldi sabia que era necessário preparar-se para o combate que ali aconteceria e seria ferrenho. Quando constatou que o Andorinha não lhes havia dado perseguição durante a noite, compreendeu que o mesmo tinha ido em busca de reforços.
BAÍA DE IMBITUBA
Foto recente do Porto de Imbituba.
Neste local, Anita teve seu batismo de fogo e
revelou ao mundo a sua grandeza e coragem.
NA ENSEADA DE IMBITUBA, O BATISMO DE FOGO
Quando os republicanos chegaram a enseada de Imbituba, no amanhecer do dia 3 de novembro, lá encontraram o navio de Inácio Bilbáo, que também os esperava porque não pudera entrar em Laguna. Imediatamente Garibaldi ordenou que o Seival adentrasse o máximo possível na enseada e dele fosse retirado um dos canhões e conduzido ao cume da elevação.
Para esta operação, além de seus marujos, contou com a colaboração de um destacamento de duzentos homens, do Coronel Teixeira Nunes, que ali estavam montando guarda.. Para atingir as naus republicanas, os imperiais deveriam entrar na enseada e ao entrarem seriam alvos fáceis daquela bateria disfarçada por detrás de uma improvisada parede de pedras. Entregou o comando da artilharia de terra ao oficial republicano Manoel Rodrigues. Esta bateria e os barcos de Garibaldi foram colocados de forma que os navios imperiais, ao entrarem na enseada, ficassem no meio de um fogo cruzado. A operação consumiu todo o dia, sem que, felizmente, fossem admoestados.
Durante os últimos dias, as contendas tinham produzido algumas baixas e entre os republicanos haviam diversos feridos, que por ordem de Garibaldi, foram desembarcados e juntamente com os gêneros apreendidos durante o corso, foram colocados em carroças e transportados até Laguna pelos soldados de Teixeira Nunes.
Durante estes dias, Anita que em nenhum momento deixou de estar ao lado de Garibaldi, de tudo tinha participado, mesmo nos momentos em que pareceu eminente a derrota e a morte, manteve sempre alta a confiança na vitória final. Durante as refregas e contendas não houve o que não fizesse: carregou e disparou mosquetões e canhões; incitou à luta e não deixou o desânimo permear a coragem dos mais fracos. Nas pausas, a ferocidade da guerreira cedeu espaço à humanidade da emergente enfermeira, consolando e cuidando dos dilacerados feridos que padeciam. E quando a noite chegou, a guerreira republicana esqueceu suas armas, transfigurou-se em sublimidade e dissimulou a degradação da guerra com a linguagem de seu fascinante amor.
Garibaldi, antevendo um confronto desvantajoso e temendo pela segurança e integridade de Anita, encareceu para que desembarcasse, acompanhando os feridos à Laguna, ou então que se pusesse a salvo, em terra firme, de onde poderia participar e assistir o desenlace da contenda. Em vão os argumentos. Respondeu que ficaria ali mesmo e que haveria de correr os mesmos riscos, como qualquer um dos homens e que para ela não fosse destinada atenção ou proteção especial. Queria ficar, para ser mais um a ajudar no combate. E não para ser protegida. De nada adiantaram os argumentos. Resoluta, Anita permaneceu a bordo.
A tensão reinante nos navios republicanos e na artilharia em terra era grande. Sabiam que a luta seria desigual, mas não estavam dispostos a renderem-se ou a abandonar os navios e rumarem à Laguna por terra. Estavam em guerra contra o Império, e para tanto a causa exigia fidelidade, ação e coragem, mesmo que ao preço de uma derrota. Mesmo inferiores, contavam com uma arma que os imperiais nunca possuíram, ou seja, não lutavam à soldo, mas pelo ideal de uma causa nobre, a independência e o direito de autodeterminação de um povo. Garibaldi contava com sua habilidade e mais uma vez sua estrela não o abandonaria.
Ao clarear a manhã de 4 de agosto, os três maiores navios da armada imperial, o Bela Americana, o Patagônia e o Andorinha compareceram na embocadura da enseada e imediatamente, abriram fogo. Os dois primeiros atacam e disparam contra o Rio Pardo, o mais bem equipado dos republicanos, onde encontrava-se Anita e Garibaldi. O Andorinha concentrou seus tiros contra a artilharia que estava sobre a elevação de terra. Mas o alvo dos imperiais era o Rio Pardo, pois ali concentrava-se o grosso da resistência republicana e ali estava Anita, postada com fuzil, na primeira linha dos atiradores. Enquanto as naus imperiais mantiveram-se em movimento, fazendo manobras, o Rio Pardo ficou fundeado, sem poder mover-se. Alvo parado, logo começaram surtir os efeitos do poder de fogo inimigo, cujos canhões o atingiram inúmeras vezes.
No tombadilho do Rio Pardo surgiram os primeiros cadáveres, despedaçados pela potência das baterias inimigas. Mas o ânimo estava alto, e a marujada republicana não se acovardou, fazendo a luta prosseguir durante horas, continuadamente, sem qualquer trégua, de lado a lado.
Em suas memórias Garibaldi contou que à medida que as horas foram passando, aumentou a violência imperial e a freqüência de seus canhoaços, que a cada manobra aproximavam-se mais, permitindo que o combate fosse feito na pontaria das carabinas, homem a homem. Sob seu comando, determinou que a pontaria fosse caprichada, evitando o desperdício de munição. Anita, entre uma descarga e outra, repassou as ordens, disposta a não ceder "Nós esperamos que nos abordassem ... Estávamos pronto para tudo, menos para ceder ", escreveu em suas Memórias.
UM TIRO DE CANHÃO ATINGIU ANITA
Apesar dos imperiais estarem com seus navios em movimento, o que tornava mais difícil a pontaria, a improvisada bateria de Manoel Rodrigues havia surtido efeito, manteve-se firme, e fez estragos nos imperiais.
Com muitos mortos dentre os republicanos, com o Rio Pardo bastante avariado em seu velame e casco, no meio da tarde, após longas horas de contínuo combate, sem que a Marinha Imperial recuasse, alguns soldados começaram a pressentir que a resistência era inútil, e o ânimo começou a declinar. Era eminente a abordagem. Garibaldi os conclamou a não desistirem, e deu o exemplo, indo para o parapeito, ficando de frente para as balas inimigas, expondo-se pessoalmente, ainda mais. Anita o acompanhou e de fuzil em punho, gritou palavras de ordem, chamando os exaustos marujos, que começaram a fraquejar.
Vendo-a assim exposta, Garibaldi, foi tomado de orgulho pela demonstração de coragem de sua companheira, mas temendo pela sua integridade, ordenou-lhe pôr-se a salvo, proteger-se, sair do tombadilho. Anita ouviu, mas não lhe obedeceu e permaneceu no palco da luta. Entre um tiro e outro, ergueu seu mosquetão e conclamou seus companheiros à luta. Um tiro de canhão, porém, atingiu o local onde encontrava-se com outros dois marinheiros.
"Anita entre dois marinheiros continua na proa, de fuzil ao peito. Como que alheada de tudo quanto se passa ao seu redor descarrega a arma em tiros rápidos. Nenhum lugar está mais exposto às balas do inimiga Em vão se empenhara Garibaldi por tirá-la dali. De repente, um tiro de peça, batendo de encontro à amurada fá-la em estilhaços. Anita e os marinheiros são arremessados à distância. Ouvem-se gritos de espanto. Garibaldi precipita-se para o lugar em que a companheira jaz estirada, sem sentidos. coberta de sangue. Acodem alguns homens aos marinheiros. Inútil todo o socorro. Estão mortos, horrivelmente mutilados. Anita, porém, passados alguns instantes, volta a si. Diz que não está ferida. 0 sangue que lhe mancha o rosto, as mãos, os braços. é sangue dos marinheiros que morreram ao seu lado. E quando Garibaldi de novo lhe adverte que desça. ela responde:
- "Sim. vou descer ao porão, mas para enxotar os covardes que lá se foram esconder "!
Ao passo firme. saiu do convés. E momentos depois voltava. afrontando as balas e trazendo consigo três marinheiros que, apavorados e vencidos pelo cansaço, haviam desertado à pugna ". (34)
Nos demais combatentes, que viram-na tão decidida e corajosa, mesmo após ter sido atingida por uma bala de canhão, o ânimo retornou. O exemplo nobre, o heróico gesto de uma mulher, despertou-lhes novamente a coragem.
Readquiriram o ânimo, empunharam suas armas e voltaram a guerrear com tamanha força de vontade e disposição, que os imperiais, que preparavam a abordagem, retrocederam. O dia findava .
VITORIOSOS, ANITA E OS REPUBLICANOS RETORNARAM À LAGUNA
Para surpresa dos republicanos, os imperiais começaram a retirar-se, fazer-se ao largo, distanciando-se. A reação de Anita havia despertado tamanha disposição que nos últimos momentos os republicanos conseguiram provocar uma séria avaria no casco da nau Bela Americana e um tiro havia ferido mortalmente seu oficial comandante, o que a obrigava retirar-se do combate e ir buscar mais reforço. Pretendiam trazer mais navios e tropas de desembarque. Os outros dois barcos, embora em condições de continuarem a pugna por estarem bem armados, não quiseram continuar e também retiraram-se da enseada, lançando âncora bem distante, em mar aberto. O combate naval de Imbituba, o batismo de fogo de Anita, onde revelou-se sua coragem, havia findado, com muitas mortes e sérias avarias para ambos os lados. Porém, pela desproporcionalidade das forças, a vitória havia sido dos republicanos..
A trégua serviu para desembarcarem e ali mesmo, sepultarem os mortos, enquanto Anita socorreu e deu atendimento aos feridos, que após receberem os primeiros socorros, foram desembarcados e transportados à Laguna por terra.
Sentindo a oportunidade para evadir-se antes que chegassem mais reforços, Garibaldi agiu rapidamente. Necessitando ludibriar a vigilância do imperiais e sair da enseada, para alcançar o Porto de Laguna, ordenou que em terra fossem acessas três grandes fogueiras, cujos clarões foram interpretados pelos imperiais como se os republicanos tivessem fugido por terra, abandonado os navios e neles deitando fogo.
Ao invés, protegidos pela bruma da escura noite, e navegando com extrema dificuldade, Garibaldi conduziu as três naus republicanas em direção à Laguna, onde entraram na manhã de cinco de novembro, bastante avariados. Estropiados e cansados, mas altivos e com a consciência do dever cumprido, foram aclamados pelos seus feitos, admirando-se a população e os oficiais que os aguardavam. Conta Garibaldi que, nos dias que seguiram-se ao seu retorno, todos admiravam-se como puderam ter escapado de um inimigo tantas vezes mais poderoso.
Informado pela Bela Americana a respeito do insucesso, Mariath, o comandante da marinha imperial em Santa Catarina, preparou tropa de desembarque e mais três navios - o Astréa, o Eolo e o Caliope, e partiu em pessoa para comandar a operação que pretendia aniquilar a frota naval republicana. Ao chegar foi surpreendido com a enseada vazia, sentindo-se, mais uma vez, ludibriado pela inteligência republicana.
A reação não tardaria a acontecer.
(31)- Em Laguna, a mesma rua ainda existe, sendo atualmente denominada de Rua Fernando Machado. A mesma casa também existe intacta, estando localizada ao lado do prédio da Caixa Econômica Federal, a espera de ser reconhecida pelas autoridades lagunenses como um local que deva ser e preservado e explorado culturalmente.
(32)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - ANITA GARIBALDI - pg. 46
(33)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINDOLFO COLLOR - pg 250
(34)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINDOLFO COLLOR - pg 259
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