Capítulo VII
No encontro de Aninha com Gabibaldi nasceu a Anita



O INFELIZ MATRIMÔNIO PREPAROU ANINHA PARA UMA GRANDE PAIXÃO

Desde que aconteceu seu casamento, Aninha nunca escondeu sua infelicidade com o mesmo, e muitas vezes queixou-se e denunciou, aos mais íntimos, a sua revolta contra infeliz união, protagonizada por sua mãe e pelo padre local . Uma destas manifestações de inconformidade está inserida na carta que remeteu ao seu Tio Antônio, em Lages, passados apenas três meses de seu casamento:

Laguna, novembro de 1835 . Querido tio Antônio: Sei que você vai achar estranho eu mandar escrever uma carta para você. Já faz algum tempo que eu me comunico deste jeito com a Felicidade lá no Rio, pois sinto muita saudade dela. Vou aproveitar a oportunidade para lhe contar o meu casamento. Mas a verdadeira razão desta carta é a necessidade de lhe dizer que nunca senti você tão perto de mim quanto no dia em que não veio assistir ao miserável final das minhas infelizes aventuras.

Disseram que você tinha mandado dizer que estava doente, mas eu entendi a sua razão. Sei que você não quis participar da farsa que armaram contra mim, assim como tenho certeza de que você nunca aprovou as chantagens de que fui vítima . Tenho esta certeza porque, desde pequena, sentada no seu colo, aprendi os seus princípios de liberdade e de justiça, e foi com você que aprendi a respeitar as aspirações de todos os seres humanos.

Por isso agradeço por você não ter querido assistir ao ato da minha vergonha, àquele contrato imposto em nome desta nossa terra hipócrita, realizado contra tudo o que você sempre combateu. Da minha parte, não sei mais o que dizer. Você me conhece o suficiente para entender as minhas lágrimas, tão amargas quanto inúteis.

Você pode imaginar a igreja enfeitada para a festa, com o tapete vermelho das solenidades estendido da porta até o altar. Para mim, parecia um rio de sangue. Entrei de braços dados com o meu padrinho, que me segurava firme para me amparar. Sentia umas pontadas geladas no estômago. Os olhos pretos das duas estátuas de madeira, que ficam na laterais, pareciam carvão em brasa. Tentei não olhar para o Manuel no altar, mas quando ouvi sua voz respondendo ao padre, perto de mim, achei que ia desmaiar.

Não me lembro nem de ter aberto a boca .Depois da missa cantada, que não acabava mais, virei as costas para o altar, esforçando-me para conter o enjoou, e comecei a caminhar para a saída. Então Manuel quis me pegar pelo braço, mas eu o afastei e me esqueci de prestar atenção nos sapatos. Aí eu tropecei. Os sapatos eram muito grandes para mim e eu não estava acostumada a usá-los. Na igreja cheia de gente ergueu-se um murmúrio, porque, como você sabe, tropeçar ao sair da igreja depois do casamento, é mau agouro.

Mas eu nem liguei, pois não podia imaginar uma situação mais infeliz. Quero que saiba que o meu casamento não é um casamento verdadeiro. Desde o começo, eu me recusei a ir para a cama com o Manuel, e ele não insistiu, pelo menos até agora. Pedi para ele me desculpar, mas eu não queria ir para a cama sem amor. Ele parece resignado a esperar, ou talvez tenha pena de mim. Talvez ele seja melhor do que eu pensava. Mas então por que se prestou ao jogo cruel dos outros?...

Eu lavo roupa, limpo a casa e cozinho. 0 resto do tempo, vou ajudar a mamãe com os meninos, apesar de no começo eu ter resolvido deixar que ela se arrumasse sozinha, já que ela quis que eu me casasse. Mas depois fiquei com pena dela.

A gente vê que ela está sempre cansada e, quando chega a noite, está quase se arrastando. ...Gostaria muito que você viesse me visitar, apesar de saber que anda muito ocupado. Se não der para você vir logo, vou dar um jeito de ir até Lajes para fazer uma visitinha. Mas, enquanto isso, quero que saiba que gosto ainda mais de você pela sua ausência naquele maldito dia..

Sei o que você sofre por seus princípios. Agora quero que me ensine a suportar isso tudo.Com o afeto de sempre, sua sobrinha Ana. (24)

Mesmo aos que acreditam que, em casos análogos como este, ou seja, quando a mulher casa-se sem amor, a constância do casamento dobra os gênios e os sentimentos femininos mais resistentes, no caso específico de Aninha, fica a convicção de que isso não aconteceu, pois, aparentemente, seus sentimentos sobrepuseram-se. É o que depreende-se da leitura de alguns trechos da carta endereçada à sua irmã Felicidade, no Rio de Janeiro, em julho de 1837:

Laguna, junho de 1837 Minha querida irmã. Sei que já faz tempo que não mando lhe escrever. ... Mas depois do casamento me senti muito deprimida para dizer qualquer coisa. já faz tempo que não tenho vontade de falar com ninguém. ... fiquei sabendo do nascimento do seu filho Pedro. Quero dizer que estou contente por ser tia e espero que você encontre nele e no seu marido toda a felicidade que merece ...Nunca vou ter filhos, porque desde o começo rejeitei o Manuel e ele nunca insistiu. Ele não é o tipo de homem que se impõe e, para me obrigar, teria que usar toda a força. Seria ridículo. Acho que tenho mais músculos do que ele! Veja só que situação absurda a minha!

Ainda não entendo quem é que ganhou com este contrato sujo. Eu é que não fui. Quanto ao Manuel, eu teria aceitado de boa vontade cuidar da casa dele, sem precisar casar. Teria sido mais fácil para ele também. Nesta situação odiosa, a gente nem se fala mais. Afinal, falar o quê ? É claro que às vezes fico imaginando como será sentir o peso do corpo de um homem.

As outras mulheres me falam das delícias do amor, contam dos abraços ardentes dos companheiros, do fruto dos seus amores que, com a gravidez, começa a se mexer no ventre, ternamente. Dizem que é maravilhoso. Procuro não dar ouvidos a elas... Minha tranqüilidade eu encontro passeando nas praias que se estendem até o infinito ... Ir à Barra, à casa dos padrinhos, também me acalma.

Sei que eles precisam mesmo de ajuda ... 0 potrinho da tua égua já está crescido e muito bonito. Às vezes eu monto nele e ele me leva pelos campos como um corcel alado Tem a crina comprida e dourada. Eu a sinto áspera enroscada em minha mão, quando saio a galope como se me tornasse parte do animal ...

Quando posso, só volto ao pôr-do-sol, quando as sombras se alongam, o perfume do campo se torna mais penetrante e as rãs soluçam. ...Tenho sensações estranhas ...como se estivesse esperando alguma coisa, com aquela calma estranha das horas que antecedem as tempestades. Talvez essa impressão seja provocada pelos boatos que vêm circulando há algum tempo, muita gente tem vindo do Sul falando em complôs e atentados...

Titio, com a segurança de sempre, diz que logo vai estourar a revolução. Aqui perto, no Rio Grande do Sul, os homens já estão se organizando... Manuel escuta com atenção as notícias sobre a possível propagação da insurreição, pois ele está inscrito na reserva imperial e pode ser chamado para o exército. Imagine só que ele não tem vergonha de ser um servo do imperador!

Não sei como ele acha que vai conseguir disparar contra os que ele chama de rebeldes, quer dizer, os pobres e oprimidos como nós. Aqui, eles são chamados de farrapos, esfarrapados. Não dá, nunca vou conseguir entender o Manuel. Mesmo nestas coisas, não temos nada em comum. ... Escreva-me logo. Um abraço apertado, Aninha(25)


ANINHA FOI AO TE DEUM PARA CONHECER OS CHEFES FARROUPILHAS

A simples leitura destas duas cartas dispensa maiores comentários para chegar-se a conclusão do que foi o primeiro casamento de Aninha, deixando no ar a dúvida de que sequer tenha havido um relacionamento sexual entre o casal.

E evidências para isto não faltam! Sobre este aspecto, deve ser indagado o porque Aninha não tenha engravidado, já que após casados viveram no mesmo teto por um considerável período de quase dois anos ? Manoel Duarte de Aguiar, que ao contrário de ostentar beleza física, estava casado com uma das mais lindas moças da Vila, cheia de vida, ansiosa por alguém que a amasse, que a fecundasse dando-lhe filhos, e portanto, mesmo com a contrariedade inicial de Aninha, deveria estar feliz com esta sua união, por usufruir de um invejado privilegio, que poucos homens possuíam.

Porque então deu-se ao vício da bebida, tornando-se cada vez mais introspectivo e a ausentar-se mais frequentemente em suas longas pescarias noturnas?

Se durante este matrimônio houve ou não um relacionamento efetivamente marital, esta será uma grande dúvida que caberá a cada estudioso, a cada leitor julgar por si...

Embora filha de pais católicos e praticantes sempre que possível, desde seu casamento, Aninha não mais havia entrado na igreja matriz de Laguna. Quando lá esteve, pela última vez, foi em seu casamento, contra sua vontade, agredida que foi na sua auto vontade, erigida por sua vida livre, sem apego aos preconceitos, à ordem e regras legais e aos comportamentos sociais então vigentes.

O fato é que ela própria confessou o fato sobejamente conhecido, de que havia adquirido notada revolta contra o clero local por sua cumplicidade com a mãe para coagia-la ao infeliz matrimônio. Mesmo antes de casar-se, já devotava antipatia ao padre pelas suas tentativas de policia-la em seus comportamentos. Tais fatos a afastoram, a partir de então, das celebrações e frequência à Igreja.

Quando os farroupilhas entraram vitoriosos em Laguna, juntamente com a população local, Aninha não dissimulava sua alegria pelos fatos dos farroupilhas terem marchado vitoriosamente em Laguna. A despeito de seus rancores com o padre local, neste aspecto, ambos comungavam dos mesmos ideais, ambos desejavam o fim da monarquia e a instituição do regime republicano, com a autonomia administrativa e política da Província.

Na chegada, houve a triunfal entrada, com desfile das tropas sendo vivamente ovacionadas pela população local. Ao padre ficou a incumbência de celebrar uma missa, em ação de graças pela vitória republicana, cujos atos religiosos, com toda a pompa possível, foram celebrados no dia 24 de julho.

Embora sua disposição de não mais comparecer na igreja, nesta missa Aninha não poderia deixar de comparecer. A natural curiosidade e o sentimento de gratidão aos farroupilhas dobraram seu orgulho e teve, então, a oportunidade de ver de perto os líderes farrapos, os corajosos e valentes soldados, que, para defender os mesmos ideais do Tio Antônio, tinham tido coragem suficiente para enfrentar o potente Império, com toda sua estrutura militar. Diante do altar, diante de seus olhos estavam os agentes das transformações pelas quais tanto ansiava e havia sonhado. Precisava conhecê-los, vê-los, se possível tocá-los!

Aninha assistiu ao Te Deum, e lá avistou, em meio aos líderes farrapos, que estavam postados junto ao altar, a figura de um homem vestido com roupas diferentes das costumeiras na cidade. Era de estatura mediana, com um cabelo longo e loiro, com olhos claros, por quem, subitamente, foi presa de um sentimento que jamais havia tido a oportunidade de sentir. Garibaldi tinha, então 32 anos de idade.

Vestia botas compridas com calças pretas, parcialmente cobertas por um poncho cinza claro. Ante de entrar na Igreja usava um barrete chato, de marinheiro da Sardenha. Dias após esta missa, em carta que endereçou a sua irmã, datada de 8 de agosto, Aninha demonstrou claramente o despertar dos sentimentos que lhe brotaram durante o ato religioso:

...Ontem, na igreja, entre os comandantes, vi um homem que me pareceu maravilhoso. À luz das velas, seus longos cabelos loiros brilhavam como se fossem de ouro. Era bronzeado, tinha olhos claros. Logo pensei: um marinheiro. Depois, ouvi dizerem à minha volta que ele é estrangeiro e está no comando da esquadrilha revolucionária. Foi ele quem levou os navios rebeldes à captura vitoriosa do nosso porto.

Quanto mais eu olhava para ele, mais sentia uma vontade louca de me aproximar. Mas o momento era inoportuno e eu não poderia ir muito para a frente sem ser observada. Além disso, você sabe que eu não gosto de entrar na igreja. Assim, fiquei hesitando, sonhando de olhos abertos que ele me via no meio da multidão ... . Quando a Fortunata me viu tão emocionada, veio correndo para saber o que tinha acontecido. Parece que ele veio do outro lado do mar, de um país chamado Itália. Você já ouviu falar? Fortunata também ficou sabendo que se chama José e vive a bordo do navio de comando, o primeiro que fundeou no porto (26)

Por estranha coincidência, ou talvez por uma remissão divina, a mesma igreja, que havia servido de palco para celebrar as bodas com um homem conhecido, mas que não amava, estava agora servindo-lhe de palco para despertar-lhe o amor por um homem que não conhecia.


LAGUNA PROCLAMOU A INDEPENDÊNCIA DO ESTADO CATARINENSE

Após libertar a Província do jugo imperial, e para transformá-la em uma nação independente, "tudo estava por fazer", ponderava o italiano companheiro de Garibaldi, Luigi Rosseti, a quem foi confiado todo o trabalho burocrático e formal. Sentiam os farrapos e os lagunenses a falta dos elementos mais imprescindíveis e " ...não encontravam amanuenses, nem mesmo tipógrafos. Dentro do júbilo popular, notava-se uma perplexidade geral. Tudo difícil, tudo fora dos seus lugares. Exigia se ali uma vontade de aço. Equilibrada e firme, para plasmar no caos o arcabouço de um novo Estado. Cinco dias depois da entrada das forças republicanas, reunia-se a Câmara Municipal para tomar conhecimento de um ofício de Canabarro (datado do dia 25).

Presentes todos os vereadores, o presidente Vicente Francisco de Oliveira procede à leitura da mensagem. Pondera o comandante-chefe que a vitória militar e a espontânea decisão com que acorriam os livres americanos em todas as capitais do nascente Estado Catarinense às fileiras libertadoras seriam o garante da sua estabilidade. Que deveremos praticar em um nexo vitorioso - pergunta - quando os fatos procuram os homens e não estes aqueles?

Quais os embaraços que faltam apurar? E o próprio redator do oficio responde às perguntas que formula: Nem um só resta para declarar já e solenemente a Nação Catarinense livre e independente, formando um Estado Republicano Constitucional. Esse dia de grandeza nacional pertence hoje à representação municipal desta fila, que deverá servir de capital interinamente, visto que o município da cidade do Desterro, único onde um limitado número de baionetas se conserva, ainda que por curto espaço de tempo, está privado de partilhar da glória de elevar com os demais concidadãos a pátria ao nível das nações do globo. E o comandante das forças, concretizando o pensamento propõe à Câmara que declarada a independência do Estado, tome ela a si a eleição provisória do presidente, que governará até que uma Assembléia Constituinte regularize definitivamente a situação. E recomenda não haja demora na convocação dos eleitores". (27)

Colocada a proposta do comandante das forças de ocupação à Câmara Municipal, por unanimidade declarou-se a "independência do Estado Catarinense, Livre e Independente, adotando o sistema republicano ... ficando assim formado um Estado Republicano Livre Constitucional e Independente. (28)

A histórica sessão aconteceu em 29 de julho de 1839, tendo sido presidida pelo vereador Vicente Francisco de Oliveira e dela participado os vereadores Domingos Custódio de Souza, Antonio José de Freitas, José Pereira Carpes, Floriano José de Andrade, Emanuel da Silva Leal. Deixou de comparecer sem causa justificada o vereador Antônio Joaquim Teixeira. Os vereadores haviam prestado juramento e investidos no cargo na Sessão Extraordinária do dia 27. Passou à história com o nome de "República ", mas também conhecida como "República Juliana", por ter sido fundada no mês de julho. Como presidente provisório foi eleito o Sr. Joaquim Xavier das Neves, em 7 de agosto, por 17 votos a favor contra outros 4 dados ao padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro. O presidente eleito morava na Vila de S. João, e não chegou a ser empossado, posto que, além de ter titubeado em aceitar a indicação, residia muito distante de Laguna, próximo ao Desterro, o que permitiu ser coagido e ameaçado pelo legalista Presidente da Província de Santa Catarina. Assim, em virtude da ausência do presidente escolhido, assumiu o vice-presidente da jovem república, Padre Vicente Ferreira dos Santos, que como um dos seus primeiros atos decretou, após ouvir o Conselho Governativo, que a Bandeira Nacional fosse disposta horizontalmente, com as cores verde, branca e amarela, sendo o verde na extremidade superior.

Estas cores permanecem até hoje na bandeira do Município de Laguna, e seu brasão de armas traz as palavras dos decretos governamentais da Republica Catarinense de 1839: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE.


ATA DE PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DA REP. CATARINENSE


Foto do documento  histórico que encontra-se...
Foto do documento histórico que encontra-se...


no Museu de Anita Garibaldi, em Laguna.
no Museu de Anita Garibaldi, em Laguna.


GARIBALDI PREPAROU A DEFESA DE LAGUNA

Passada a euforia inicial, tomadas as primeiras medidas que institucionalizaram a República Catarinense, foi necessário organizar sua defesa, já que tinham consciência de que haveriam de enfrentar a reação dos imperiais. A Giuseppe Garibaldi foi outorgado o posto de Capitão Tenente, Comandante da Esquadra Naval Catarinense.

Como ato inicial de suas atividades, Garibaldi determinou a recuperação das embarcações que haviam sido avariadas durante os rápidos combates da tomada de Laguna, e a reconstrução do Fortim do Atalaia, localizado na Ponta da Barra, que os imperiais, por ordem de seu comando, haviam destruído ao retirarem-se. Com diversos homens, passou a reconstrução do pequeno forte, lá instalando três canhões que, pela sua proximidade com a única parte navegável do canal da barra, poderia impedir o acesso de navios.

No lado direito do canal, na parte frontal à pequena fortaleza, ancorou suas embarcações, onde as recuperou e armou, durante os diversos dias que seguiram-se. Face a distância da Vila - cerca de dois quilômetros - Garibaldi passou a residir na escuna Libertador, que após ter sido apreendida, foi rebatizada com o nome de Rio Pardo. Foi a bordo deste barco que fixou seu alojamento e instalou o comando naval, de onde supervisionava as operações e os preparos da defesa naval da emergente República. No Rio Grande do Sul, quando ainda estava na Fazenda Camaquã, construindo as embarcações que mais tarde o trouxeram à Laguna, Garibaldi havia conhecido uma jovem conhecida pelo nome de Manoelita, uma sobrinha de Bento Gonçalves, o líder farroupilha, com quem pretendeu estabelecer e aprofundar uma relação afetiva. A mãe de Manoelita, sentindo o interesse do estrangeiro por sua filha, solicitou a intervenção de Bento Gonçalves, para impedir o namoro. Este, prontamente, chamou Garibaldi e falou-lhe que Manoelita estava comprometida em casamento com um filho seu.

Na verdade, Garibaldi deve ter entendido que Bento Gonçalves o chamou a razão, e a desculpa dada serviu para mostra-lhe que a vida de guerreiro e errante não permitia oferecer conforto e muito menos segurança a uma moça de boa família, mesmo que fosse com as intenções de transformá-la em sua esposa. Manoelita nunca casou-se e muitos anos mais tarde, ao falecer ainda solteirona e bastante idosa, os jornais de Pelotas noticiaram a morte da "Noiva de Garibaldi" (29)

Mesmo afetivamente abatido, Garibaldi compreendeu imediatamente a situação e afastou-se voluntariamente, não mais assediando-a. Havia ficado, no entanto, o vazio, a frustração afetiva. Italiano aportado no Brasil há pouco tempo, Garibaldi ainda não tinha apreendido corretamente o português, o que, entretanto, era compensado pela constante presença de seus conterrâneos, que fielmente o acompanhavam, mas que infelizmente, poucos dias antes de chegarem a Laguna, haviam morrido no naufrágio já narrado.

Assim, encontrava-se Garibaldi em uma região cujos costumes e línguas lhe eram quase que totalmente estranhos. Residindo no próprio navio ancorado, bastante distante do convívio social da Vila de laguna, ainda sentia-se abalado com o trágico desaparecimento de seus fieis amigos.

Todos estes fatos acontecidos dias anteriores o haviam frustado em seu íntimo, deixando-o afetivamente carente, o que compensava com duros dias de trabalho braçal, junto com seus comandados. Sentia a falta de uma amizade sincera, de um amigo, de uma companhia, como ele próprio afirmou em suas Memórias: "...no imenso vazio que criou-se ao meu redor, sentia eu a necessidade de uma alma que me amasse; sem esta alma parecia que minha existência era improvável. . Voltei a ver Rossetti, que era como irmão, porém, Rossetti estava ocupado demais com os deveres de seu cargo, e não poderia vir morar comigo e eu o podia ver apenas uma vez por semana. Tinha necessidade, como disse, de alguém me amasse rapidamente. Ademais, a amizade é fruto do tempo; são necessários anos para amadurecer, enquanto que o amor é como relâmpago, as vezes é filho da tormenta. Então, que me importava, eu sempre fui dos que preferem as tempestades, quaisquer que sejam, às bonanças da vida, á tranqüilidade do coração" (30)


GARIBALDI ENCONTROU-SE COM ANINHA. TRANSFORMOU-SE EM ANITA

Um dia porém, quando encontrava-se no tombadilho do Rio Pardo, ao cair da tarde, Garibaldi observou por sua luneta, que na rua principal da pequena vila formada pelas humildes casas de pescadores, localizada na encosta do Morro da Barra, próximo de onde estava sendo reconstruído o forte, diversos vultos femininos, envolvidos em seus afazeres domésticos. Uma delas, porém chamou-lhe a atenção: era um vulto feminino, esbelto, gracioso, que descia pela ruela com passos rápidos, em direção às casas da praia, carregando um jarro com água, o que chamou-lhe a atenção.

Nos dias seguintes, no mesmo horário, passou a apontar e fixar sua luneta naquela mesma direção, alimentando a tênue esperança de que ali poderia estar o fim de sua solidão, a companhia da qual tanto necessitava. Nos dias que seguiram-se viu-a pela luneta diversas vezes. Um dia, resoluto e sabendo o que queria, encorajou-se e determinou a seus marinheiros que, com um bote, o levassem a terra. Chegando ao local, não a viu mais, mas estava disposto a descobrir aquele "anjo" que o perturbava durante dias. Encontrou, então, no núcleo de casas, um conhecido a quem tinha sido apresentado logo após sua chegada à Laguna.

Como mandava o costume, o lagunense convidou-o a tomar um café em sua casa. De bom grado Garibaldi aceitou, na esperança de assim obter informações sobre a graciosa moça que o encantou. Imaginou que durante a conversa ao redor do café, quando tivesse oportunidade, faria as perguntas adequadas para descobrir tão cobiçado tesouro.

O destino reservou-lhe agradável e inesquecível surpresa. Quando entrou na soleira da porta, ali estava a jovem Aninha, com suas delicadas feições. O dono da casa apresentou sua família, mas Aninha adiantou-se para dizer que já o conhecia, pois o havia visto quando as tropas entraram na Vila de Laguna e por ocasião da celebração da missa em ação de graças. Garibaldi respondeu indagando quem era a moça, ao que foi informado tratar-se de Ana Maria de Jesus Ribeiro, mas que era conhecida pelo seu nome no diminutivo - Aninha.

Extremamente feliz, sem esconder seu contentamento explicou, então, que o diminutivo de Ana, em italiano, era Anita.! Nasceu assim, a mudança do nome de Aninha, que doravante, como veremos, será conhecida nos dois continentes como Anita, a Heroína de Dois Mundos.

Aninha e toda Laguna já conheciam a fama e os heróicos feitos do bravo marinheiro italiano. Seu prestígio obtido com a travessia do lanchões, puxados por bois e por terra, associado ao seu naufrágio e a audácia de invadir Laguna pela retaguarda, vencendo e apreendendo diversas naus imperiais com apenas uma pequena e rústica embarcação, o tornaram respeitadíssimo. Era, portanto, uma honra para aquele lagunense, receber em sua casa tão valente e famoso marinheiro, agora comandante da Marinha da República Catarinense, sem que suspeitasse que ali tinha ido apenas para procurar seu futuro grande amor.

Em meio a conversa sobre a revolução, e outros assuntos, Garibaldi não parava de olhar Aninha nos olhos. Chamado pelas suas obrigações, levantou-se para ir embora, não sem antes prometer que voltaria outra vez para conversar e tomar café novamente. Ao erguer-se, instintivamente, dirigiu-se até a porta da casa, e ao estender a mão para despedir-se de Anita, tomou suas mãos, fitou-lhe nos olhos e disse-lhe:

-"tu devi essere mia !"

Quando escreveu suas memórias, ao descrever este histórico e marcante episódio, Garibaldi afirmou que naquele instante, não disse apenas o que estava sentindo, mas estava dando a sí próprio uma sentença, sem apelação.

Foi neste dia, cuja data exata não se conhece, mas deduz-se tenha sido na primeira quinzena de agosto de 1839, que o comandante de marinha Giuseppe Garibaldi "escobriu" na Barra da Laguna, onde hoje é um bairro conhecido como Ponta da Barra, o amor de sua vida, a lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro, cujas convicções, atos de bravura e fidelidade a um grande amor, a tornariam ilustre no mundo inteiro como ANITA GARIBALDI - A HEROINA DE DOIS MUNDOS.

(24)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - ANITA GARIBALDI
(25) - IDEM
(26)- IDEM
(27)- GARIBALDI E A REVOLUÇÃO FARROUPILHA- LINFOLFO COLLOER pg 226
(28)- ATA DA PROCLAMAÇÃO DA REPUBLICA CATARINENSE, EXISTENTE NO MUSEU MUNICIIPAL DE LAGUNA
(29)- REVOLUÇÃO FARROUPILHA - REPUBLICA JULIANA - GARIBALDI E ANITA- GUALDINO BUSATO - PG 17
(30)- MEMORIE - GIUSEPPE GARIBALDI