Capítulo VI
Aninha assistiu a invasão de Laguna


ANTES DE GARIBALDI CHEGAR, LAGUNA FOI ASSEDIADA PELOS REPUBLICANOS LAGEANOS

Enquanto estes fatos todos tiraram do estado de letargia as autoridades imperiais catarinenses, que passaram a preparar-se através de seu comandante militar João Carlos Pardal, um diminuto grupo de soldados farroupilhas, chefiados pelo coronel Filipe José de Souza Leão, conhecido pelo apelido de Capote, muito tempo antes de Garibaldi chegar à Laguna, desceu dos Campos da Vacaria para a Vila de Araranguá. Ali uniu-se a mais alguns republicanos e marcharam celeremente sobre a guarda da Barra Velha, dos Conventos, a quem derrotaram em rápida refrega.

Narra LINDOLFO COLLOR que "... no distrito de Araranguá engrossou-se a coluna de uns trezentos homens, gente de José Francisco da Silva e da família Rebelo, vítimas de violências das forças legalistas. Com o armamento conseguido na Barra Velha, prosseguiu Capote sem perda de tempo em direção ao norte. Pôs em debandada as guardas do Camacho e da Carniça. Ocupou esses lugares. E confiado no sucesso da empresa, demandou o Campo da Barra. Já da Laguna havia saído a unir-se a ele Marcelino Soares da Silva, à frente dos populares simpatizantes da causa republicana. Isidoro Fernandes, outro filho do lugar, mais tarde marechal do exército brasileiro, foi dos primeiros a corresponder-lhe aos inflamados apelos.

Ao mesmo tempo descia de Lages outro destacamento revolucionário sob as ordens do coronel Serafim Muniz de Moura, e tomava de assalto a vila de Tubarão. De todos os lugarejos próximos, acorriam voluntários para as improvisadas fileiras de combatentes. Grande foi o alvoroço na Laguna à aproximação das colunas revolucionárias - entusiasmo da parte dos filiados ao partido republicano, preocupação e nervosismo nos arraiais da legalidade. Silva França procurou chamar às armas os seus guardas-nacionais. Capote já acampara com a sua gente à margem direita do canal da barra (hoje conhecida como Vila da Passagem da Barra), defronte ao bairro do Magalhães. De lá intimava a tropa legalista à rendição.

O Comandante legalista Vilas-Boas, determinou que a canhoneira -Lagunense- e duas lanchas tripuladas por setenta homens armados, subissem o rio Tubarão até a Carniça, a fim de desalojar os rebeldes daquela posição, e que a escuna "Itaparica" tomando um pelotão de setenta infantes, se dirigisse para o Campo da Barra a fim de expulsar outro agrupamento dos farrapos que ali se entrincheirara. E receando uma possível conivência entre as tropas de linha e os atacantes mandou, desatinado como sempre, desmontar o forte fronteiro à vila, cujo material foi recolhido a bordo de uma das canhoneiras. 0 Lagunense e os lanchões desembarcaram parte da tropa no capão de Miraguaia procurando flanquear os rebeldes, que, alertados em tempo, frustraram o ataque. Houve cerrado tiroteio, com baixas em ambas as partes.

Também a Itaparica, nesse meio tempo, operava o desembarque protegida pela ação da artilharia. Procuravam os republicanos atraí-la ao combate, formados em dois esquadrões. Como os imperialistas não contassem com tropas montadas na ocasião, deixaram de prosseguir no avanço, e os sediciosos, vendo que não lhes seria possível assenhorear-se da Laguna com a facilidade imaginada, retrocederam sobre Campo Bom, onde se instalaram. Na retirada, arrebanharam todo o gado e cavalhada que puderam. E entrincheirados naquele reduto, quedararam-se à espera da divisão de Canabarro, que se aproximava" (19).

Não é difícil imaginar o efeito que tais fatos criaram nos habitantes esperançosos da Laguna, entre eles Aninha, que ansiava por conhecer a materialização humana das acalentadas idéias republicanas.

Algum tempo mais tarde foi colocado em prática um plano de ataque à Laguna, engendrado pelos republicanos riograndenses, e que deveria ser executado em duas frentes: David Canabarro marcharia por terra, partindo das proximidades de Viamão, e o italiano Giuseppe Garibaldi atacaria por mar, com os únicos dois pequenos navios que a marinha da República Riograndense possuía: o Farroupilha e o Seival.


GIUSEPPE GARIBALDI

Giuseppe Maria Garibaldi era italiano, filho de Domenico Garibaldi e de Rosa Raimondi. Nasceu em 04 de julho de 1807, na cidade de Nizza, que mais tarde passou ao domínio da França, com o nome de Nice. Filho de armador e capitão de navios. "Era belo e forte como um atleta, e as melenas alouradas caindo-lhe até os ombros, davam-lhe a mais romântica das aparências - uma estranha e buliçosa aparência de espadachim inquieto... " (20)

Encontrava-se no Brasil porque em sua pátria tinha sido condenado a morte por suas lutas em prol da Jovem Itália, sociedade fundada por patriotas que pretendiam unificar as diversas regiões da península itálica, criando o Estado Italiano sob a forma de governo republicano. Os interesses internacionais e os governos da Espanha, Áustria e França, que não queriam a unificação italiana, logo o declararam inimigo. Sua formação democrata o transformou em aguerrido inimigo dos regimes despóticos e unitaristas. Perseguido, logrou fugir, tendo sido condenado a morte pelo Rei do Piemonte Carlos Alberto. Em sua fuga teve a oportunidade de conhecer os ensinamentos são-simonianos, que pregavam um novo cristianismo.

Estas idéias emprestaram-lhe um caracter anticlerical, piedoso, desprovido de qualquer ambição de bens materiais, concebendo a mulher como uma companheira, que possuía os mesmos direitos e igualdades que desfrutavam os homens. Chegou ao Brasil em 21 de novembro de 1835 acompanhado de um punhado de "patriotas italianos", que também haviam sido proscritos pelos mesmo motivos. Ao chegarem encontrou no Rio de Janeiro mais alguns companheiros e passou a dedicar-se aos serviços marítimos, transportando mercadorias de um porto para outro, internamente.

Brevemente, seu espírito revolucionário, auxiliado pela maçonaria, o colocou em contato com o General Bento Gonçalves, líder dos farroupilhas, que havia sido preso e estava encarcerado. Deste encontro saiu com uma carta de Bento Gonçalves que determinava ao presidente da Republica Riograndense dar a Garibaldi uma carta de corso, já que a Marinha Republicana riograndense não existia, e era necessário admoestar o Império também por mar, libertando o Porto de Rio Grande, indispensável a consolidação da República. De posse da carta de corsário, fez-se ao mar e aprisionou um navio e sua carga. Esteve no Uruguai, onde após ser preso e torturado, fugiu para o Brasil, entrando pelo sul do Rio Grande do Sul. Como estava a serviço da marinha republicana, foi-lhe dado a incumbência de construir embarcações e combater a frota imperial que patrulhava a Lagoa dos Patos para evitar que o Porto do Rio Grande caísse nas mãos farroupilhas.


DIVERSAS FOTOS DE GARIBALDI

Giuseppe Garibaldi    Giuseppe Garibaldi

Giuseppe Garibaldi    Giuseppe Garibaldi


A TRAVESSIA DO SEIVAL POR TERRAL, PUXADO POR 100 JUNTAS DE BOIS

Havia construído os lanchões Farroupilha e Seival, mas estava impedido de fazer-se ao mar pela Barra do Rio Grande, fortemente guarnecida pela Marinha Imperial. Para atingir e invadir Laguna em Santa Catarina, deveria passar pela Barra do Rio Grande. Encontrou uma solução audaciosa, e após convencer os chefes farrapos do projeto, determinou a construção de dois carretões, com rodas de quase quatro metros de diâmetro, que sendo construídos somente com madeira encaixada, sem nenhum prego ou parafuso, foram colocadas na água até submergi-los. Depois deslizaram as naus sobre a água, até onde estavam submersos os lanchões, quando, então, duzentos bois emparelhados e atrelados puxaram as carretas e sobre ela vieram para fora d'água os lanchões. A epopéia foi realizada no extremo norte da Lagoa dos Patos, no local conhecido como Saco da Roça Velha, onde o Rio Capivari desemboca na Lagoa.

O inusitado e estranho cortejo partiu por terra no dia 5 de julho de 1839 e seguiu em direção nordeste por cerca de oitenta quilômetros. Partiram abrindo estrada na mata, cruzando campos, baixios alagadiços, pântanos e regiões de areia mole. Chegaram na Lagoa de Tramandai em 11 de julho, em cujas águas lançaram o palhabote Seival e a escuna Rio Pardo. A audaciosa operação levou seis dias de ininterrupta marcha e contou com o conivente sigilo da população local, o que garantiu o êxito do projeto. Devidamente equipadas com diversos canhões, da Lagoa as duas embarcações cruzaram a Barra de Tramandai às 20 horas, fazendo-se ao mar, rumo a Laguna. O comando do lanchão Farroupilha estava sob a responsabilidade de Giuseppe Garibaldi, que era um pouco maior, mas de menor resistência. O comando do Seival foi confiado a John Grigs, um americano que voluntariara-se aos ideais republicanos.

Foto de uma réplica do Seival com o qual Garibaldi invadiu e tomou Laguna
Foto de uma réplica do Seival com o qual Garibaldi invadiu e tomou Laguna.

O Seival e o Farroupilha atravessaram matas, campos e banhados, transportados por dois carretões, puxados por cem juntas de bois.
O Seival e o Farroupilha atravessaram matas, campos e banhados, transportados por dois carretões, puxados por cem juntas de bois.


GARIBALDI NAUFRAGOU PRÓXIMO A FOZ DO RIO MAMPITUBA

Forte chuvas caíram e um temporal surpreendeu o Farroupilha na traiçoeira costa, nas proximidades da foz do rio Mampituba, região que tem seu fundo raso e com pedras, o que a faz ser respeitada e conhecida como "cemitério de navios". Era o dia 15 de julho, quando a frágil embarcação, com trinta homens a bordo, atingida pela violência dos ventos de das ondas, não resistiu, fazendo-a afundar. Garibaldi, após tentar ajudar seus companheiros, salvou-se nadando até a praia. No desastre marítimo morrem diversos soldados farroupilhas, entre eles os italianos que o acompanhavam, amigos íntimos, de sua absoluta confiança: Eduardo Mutru, Luigi Carniglia, Luigi Staderini, Navona, Giovanni e outros.

Com os homens que salvaram-se empreendeu e uma caminhada pela praia, rumo norte. Após transporem nadando a foz do Mampituba, chegaram a Barra da Lagoa do Camacho, onde surpresos, encontram o Seival ancorado, que havia escapado milagrosamente do furacão que abateu o Farroupilha. Também encontraram a tropa do Valente Capote, aguardando a chegada de Canabarro e seus homens. Ali permaneceram alguns dias, restabelecendo-se do naufrágio, sem que os imperiais de Laguna tomassem conhecimento, contando, para tanto, com o cúmplice silêncio da população que habitava a Barra do Camacho e arredores, em virtude destes nutrirem simpatia pela causa que propunha o fim da monarquia.

Próximo aos Conventos, em Araranguá, o Farroupilha naufragou, morrendo quase todos os seus patriotas italianos.
Próximo aos Conventos, em Araranguá, o Farroupilha naufragou, morrendo quase todos os seus patriotas italianos.


APENAS COM O SEIVAL, GARIBALDI SURPREENDEU E TOMOU LAGUNA

Aproveitando o conhecimento de um prático do local, conhecido como João Henrique Teixeira, acostumado a navegar pelo sinuoso sistema de canais e lagoas interligadas pelo delta que o Rio Tubarão formava, soube Garibaldi, que poderia por ali chegar ao Rio Tubarão, o que lhe permitiria burlar a vigilância e atacar a flotilha imperial pela retaguarda, que o esperava na embocadura do Rio Tubarão. Embora a lâmina de água da Barra do Camacho fosse baixa, de pouca profundidade, contou com o aumento do volume das águas, que naqueles dias caiu copiosamente dos céus.

Com a força braçal da determinante vontade de seus soldados, jogaram-se a água e empurraram o Seival com suas mãos e com improvisadas alavancas de árvores, quando este encalhou na areia dos baixios da Barra. A dificuldade natural foi transposta e o desafio era contar com o elemento surpresa para conseguir vencer a superioridade da Marinha Imperial ancorada a poucos quilômetros, em Laguna.

A defesa de Laguna estava montada com muito homens armados e uma flotilha composta por cinco embarcações O primeiro combate deu-se em um estreito canal do Rio Tubarão, junto a costa dos campos da Carniça, cujo ataque foi desfechado pelos imperiais de bordo do Catarinense, comandado por José de Jesus, que abriu fogo contra os homens do republicano Jacinto Cordeiro Freitas. Houve combate renhido, com tiros de fuzilaria e artilharia, impondo derrota aos imperiais que, após descerem da embarcação fugiram, perecendo o navio e mais da metade dos praças.

Vencida a primeira resistência, Garibaldi agora comandando o Seival, atingiu o rio Tubarão e velozmente, chegou ao Canal da Barra, a poucos metros do mar, surpreendendo os navios imperiais Lagunense, Itaparica e Santana, que foram todos apresados, tendo logrado escapar apenas o Cometa. Senhor das embarcações ancoradas, resolveu Garibaldi desembarcar e após uma rápida troca de tiros, rendem-se os marinheiros e o comandante do Itaparica Tenente Muniz Barreto. Faltava apenas a Vila da Laguna ser tomada, o que foi feito ao final da tarde de 22 de julho, com os quarenta homens, que foram transportados por Garibaldi e comandados por ele e por Jerônimo Castilhos. As forças de Teixeira Nunes chegaram logo após a tomada da Vila, provenientes de Lages, sucedidos de David Canabarro, que veio com sua tropa de Viamão. A guarnição imperial havia abandonado a cidade, muito embora seu comandante houvesse anteriormente ordenando que deveriam opor resistência máxima possível. Ao chegarem apreenderam as escunas referidas, 14 pequenos veleiros, 15 canhões, 463 carabinas e 30.620 cartuchos (21)

O Seival adentrou pela barra do Camacho, passou pela Lagoa de Santa Maria e atingiu o rio Tubarão, surpreendendo os navios legalistas pela sua retaguarda, que fugiram.
O Seival adentrou pela barra do Camacho, passou pela Lagoa de Santa Maria e atingiu o rio Tubarão, surpreendendo os navios legalistas pela sua retaguarda, que fugiram.


LAGUNA FESTEJOU A CHEGADA DOS REPUBLICANOS RIOGRANDENSES

Os imperiais fugiram em direção norte, parando em Garoupaba. Perseguidos, ofereceram resistência, mas depois dali bateram em retirada, sendo perseguidos até o Morro dos Cavalos, onde o comandante farroupilha Teixeira Nunes, às margens do rio Massiambú, ficou acampado com seu exército.


Na Vila da Laguna a alegria foi geral. Escreve SAUL ULISSEA (22) que "a entrada das forças na Vila foi um verdadeiro hino aos revolucionários. Uma moça, Maria da Glória Garcia, filha do patrão-mor do Porto foi tomada de tal entusiasmo que tomou a bandeira das mãos do oficial que a conduzia, marchou com garbo no meio da tropa, sob delirante aplauso da população... Foram feitos festejos populares com iluminação a noite. O vigário Francisco Vilela, fervoroso republicano, promoveu festejos religiosos em honra aos farroupilhas. Eram tão intensos os festejos populares e a alegria da população da Vila, que David José Martins Canabarro foi tomado de entusiasmo proferindo estas palavras: - deste porto sairá a hidra que devorará o Império".

Como pode muito bem deduzir o leitor, a chegada foi festejada porque a população realmente havia sido de muito tempo preparada psicologicamente para o momento, e desejava sinceramente a extinção do regime imperial, sentimento este que, conforme já vimos em suas cartas transcrita em capítulo anterior, também era nutrido por Aninha, já defensora das idéias republicanas, a serem implantadas com uma revolta: "... Imagine só que maravilha poder ser livre! ... ajudar meu tio a preparar a revolução. ... sentia que estávamos todos unidos, amigos para toda a vida .... procurei entender o que é a liberdade ... as pessoas deveriam escolher quem as governa e lutar para os pobres não sofrerem mais .... Tio Antônio ... parece mesmo decidido a organizar a revolta, e você vai ver como ele vai conseguir..".(23) Com a invasão de Laguna, o destino acabara de construir importante capítulo, cujos acontecimentos materializaram os acalentados e tão almejados sonhos da criação do regime republicano, que embora trazidos por um levante armado, significavam a implantação efetiva dos ideais de igualdade, de justiça social, liberdade e de fraternidade. Tais fatos colocaram Aninha nos limites da linha que a separaria de sua vida humilde, faltando-lhe apenas um passo para transpo-la, tornando-a protagonista de uma vida de glorias e de decepções, de grandes vitórias e de amargas derrotas, de alegrias e de sofrimentos, de dores e de esperanças, de vidas e de mortes ... .

(19)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINFOLDO COLLOR
(20)- GARIBALDI E ANITA - BRASIL GERSON, pg 31
(21)- A HISTORIA DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA MORIVALDE CALVET FAGUNDES - pg. 260
(22)- COISAS VELHAS - SAUL ULYSSEIA - pg. 67
(23)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - ANITA GARIBALDI