Capítulo V
O Abandono pelo Marido
ANOS ANTES DA INVASÃO, LAGUNA CONSPIROU CONTRA A MONARQUIA
As idéias de autonomia e substituição do regime monárquico pelo republicano, tinham em Laguna fervorosos e intransigentes adeptos, e quando a Revolução Farroupilha foi deflagrada no Rio Grande do Sul, ali encontrou terreno propício para proliferação do ideal republicano. Mais tarde ali seria aberta uma nova frente de combate, enfraquecendo ainda mais o Império, o que motivou os farroupilhas a elaborarem um plano de invasão à Santa Catarina.
De fato, em 9 de março de 1838 o coronel farroupilha Jose Mariano de Matos, à testa de 1300 homens, invadiu e tomou a Vila de Lages, proclamando a nova república dois dias após, em 11 de março. Para a consolidação da República Catarinense, deveriam conquistar a cidade de Laguna, mais importante ainda em virtude de seu porto, permitindo o aceso dos farroupilhas ao mar. Se exitosa a empreitada, conquistariam Desterro e, conseqüentemente, toda a Província de Santa Catarina estaria sob o comando dos farroupilhas, quando consolidar-se-ia a nova república, apta a fazer parte da acalentada confederação de países livres e independentes.
Muito antes deste plano ser colocado em prática, os mais exaltados lagunenses, contrários a manutenção da monarquia, tentaram insuflar os soldados a uma revolta, pois estes também estavam descontentes, com seus soldos em atraso. A oligarquia monarquista em Laguna era representada pelo juiz de paz e tenente coronel de milícias Francisco da Silva França, que além de usar seus poderes para vinditas pessoais, destinava os cargos públicos aos seus parentes, como João Francisco França, coletor das rendas nacionais.
Nos meses que se seguiram houveram diversas manifestações, boletins foram distribuídos, exortando a população às armas para deporem os membros da Câmara Municipal e a monarquia. No início de 1836 a guarnição militar imperial de Torres foi tomada pelos farrapos.
No mesmo ano, diversos atos de solidariedade aos farroupilhas riograndenses foram praticados pela população de Laguna. Prova desta solidariedade é o fato de que em 23 de julho de 1836, o Ministro da Justiça do Império, oficiou ao Presidente da Província de Santa Catarina pedindo explicações e providência enérgicas para coibir os embarques clandestinos de pólvora, que os lagunenses remetiam aos farrapos republicanos na Província do Rio Grande do Sul. O Juiz de Paz de Laguna foi energicamente repreendido e a sua reação não tardou.
O presidente da Província de Santa Catarina, Jose Mariano Cavalcanti de Albuquerque, sendo informado da simpatia que os lagunenses nutriam pelos sistema republicano, em janeiro de 1836 fez publicar uma proclamação ao povo catarinense, advertindo que "os que aspiram a forma republicana são aqueles que nada têm a perder, pois só ambicionam a riqueza e o poder, não se importando com o padecimento do povo, com o entorpecimento do comércio, com o definhamento e paralisia das artes "(15) .
EM 1836, A GUARDA LAGUNENSE RECUSOU-SE COMBATER OS REPUBLICANOS
José Mariano, de olho nos acontecimentos e notícias que vinham da Província do Rio Grande do Sul, dois meses após, em 12 de março de 1836, ordenou que de Laguna partisse um contigente de guardas nacionais para guarnecer a fronteira com o Rio Grande do Sul. A soldadesca recusou-se a cumprir a ordem, posto que também eles já estavam imbuídos com o propósito republicano, graças ao trabalho de conscientização que foi feito junto a população local durante os anos anteriores. Como desculpa oficial, os oficiais menos graduados informaram que a ordem não podia ser cumprida, em virtude de que os soldados, por estarem com seus soldos em atraso, estavam com suas família passando por necessidades. Também não dispunham de equipamentos, fardas e armamentos adequados. Por tais motivos, recusaram-se a empreender a marcha. Estavam abertas as portas de Laguna aos farroupilhas, pois a resposta inflamou ainda mais os lagunenses adeptos às idéias do Partido Republicano, que pretendiam aqui fundar uma república, com o apoio dos farrapos.
Segundo narra Lindolfo Collor (16), na noite em que os oficiais recusaram-se a cumprir as ordens, um lagunense exaltado - João Tomas de Oliveira, a frente de numeroso grupo de civis foi postar-se a frente da residência da casa de Silva França, onde intitularam-se "partidários de Bento Gonçalves, o pai dos pobres e não de um ladrão..."
Este fato, acontecido quase três anos antes de Garibaldi chegar a Laguna, comprova a existência de um clima de inconformidade, de conspiração e revolta em adiantado grau de evolução, que já fazia ruir as estruturas do poder monárquico unitarista, ao ponto de simples soldados recusarem-se ao cumprimento de uma ordem do presidente da Província. A perda do poder da autoridade monárquica ficou ainda mais caraterizado quando cidadãos comuns, insultaram publicamente o todo-poderoso tenente coronel Silva França, a maior autoridade monárquica em Laguna.
Em represália a estes fatos, limitou-se a mandar prender dois ajudantes de tenentes, um sargento e os seis praças mais exaltados. Temeroso, no dia seguinte abandonou a Vila, deixando seus oficiais leais no comando, pois como ele próprio narrou a seus superiores, "convulsionado estava o distrito de Laguna ... a maioria da população comunga das mesmas idéias que agitam os filhos do Rio Grande "(17).
Depreende-se, portanto, que havia um elevado grau de consciência na população, que atingia os mais humildes, que estavam cansados dos desatinos e do autoritarismo monárquico. Clamavam pela mudança que esperavam alcançar com a implantação de uma república, que poderia substituir o regime monárquico em todo o vasto território brasileiro, ou então, na impossibilidade de mudança, que fosse secionada a Província e criado um novo país, sob o regime republicano. Embora importante pelo seu Porto, a jurisdição da Vila da Laguna abrangia apenas 20.000 "almas", que habitavam nas suas diversas "freguesias", sendo as mais importantes, pela ordem, as de Nossa Senhora das Dores do Campo Bom (atual Jaguaruna), Senhor Bom Jesus do Socorro da Pescaria Brava (atual distrito lagunense de Pescaria Brava), Sant'Ana de Vila Nova (atual Imbituba), São João Batista do Imarui (atual Imarui), Sant'Ana do Mirin (atual distrito de Imbituba), Ararangua, Garoupaba do Norte (atual Garoupaba) e Poço Grande do Rio Tubarão, atual cidade de Tubarão (18).
A área da Vila de Laguna, propriamente dita, contava com aproximadamente 5.000 habitantes, o que fez com que toda a comunidade se envolvesse nestes episódios, direta ou indiretamente, motivo pelo qual o fato que não passou a margem do conhecimento da adolescente Aninha, que no mínimo, como testemunha ocular, vivenciou e acompanhou estes a rebeldia lagunense contra a ordem monárquica.
O MARIDO ALISTOU-SE NO EXÉRCITO IMPERIAL, ABANDONANDO ANINHA
O governo do Desterro, devidamente informado das pretensões dos farrapos e prevendo a invasão à Laguna que em breve poderia acontecer, tratou de preparar-se, convocando homens para o exército imperial, cuja responsabilidade ficou a cargo do enérgico comandante militar português João Carlos Pardal, que para seu exército evitou de convocar os brasileiros natos, preferindo portugueses e apenas os brasileiros comprovadamente leais à Monarquia, que não viessem a desertar em favor dos farrapos, como estava acontecendo na Província do Rio Grande do Sul.
Manoel Duarte de Aguiar, o sapateiro marido de Aninha, foi um destes que alistou-se nas hordas do exército legalista imperial, e assim o fez por dois motivos: a) porque era monarquista convicto e a Laguna de então era amplamente republicana, o que não lhe permitiria continuar a convier em meio tão antagônico, com discussões acaloradas, o que poderia colocar em risco sua própria vida; b) porque seu casamento já ruíra, e não lhe havia dado os filhos e os prazeres que imaginava, já que não tinha sabido conquistar as virtudes e a forte personalidade temperamental de sua jovem esposa.
A infeliz união teve um ano, aproximadamente de relações frívolas, tornando-se praticamente inexistente, já que Aninha vivia maior parte do tempo junto aos seus parentes, do que propriamente em sua casa. Logo que passou a curiosidade natural de uma menina que casa-se com menos de quinze anos, adveio a impossibilidade de convivência de pessoas tão diferentes, quer quanto a compleição física, quando a personalidade e as idéias. Já não podia mais suportar a permanente companhia de um homem indiferente, alcoolizado, por quem não nutria nenhuma simpatia e afeto.
Para piorar, tinham pensamentos contrários quanto a manutenção da monarquia e a sua mudança pelo regime republicano. Estes fatores a levaram aos longos passeios em casa de parentes e das poucas amigas que possuía.
Manoel Duarte Aguiar soube compreender a oportunidade que lhe surgia quando o coronel João Carlos Pardal o convocou, e sem maior perda de tempo, provavelmente no ano de 1837 ou 1838 abandonou a Vila de Laguna e a jovem esposa definitivamente.
Há um relato que uma senhora, natural de Laguna, que o teria encontrado, muitos anos após, já bastante envelhecido, em uma das ruas de Desterro, onde teria ficado residindo definitivamente após ter dado baixa do serviço militar. Teria abandonado o casamento e retirado-se de Laguna por vergonha da rejeição que Aninha lhe devotou e por medo do que estava por acontecer. Existem ainda afirmações de que teria sido preso e morto por alguns farroupilhas, que bem antes da invasão à Laguna, havia acampado nos campos da Carniça.
A verdade, porém, até hoje não se sabe. Por diversos fatores que não serão analisados nesta obra, o autor filia-se a corrente majoritária entre os pesquisadores e historiadores, de que Manoel Duarte alistou-se no exercito imperial, afastando-se definitivamente de Laguna e abandonando Aninha quase dois anos antes dela conhecer Giuseppe Garibaldi.
Assim como surgiu repentinamente, imposto que lhe foi por um casamento sem sentimentos, sem desejo e sem amor, da mesma forma o viu sair subitamente de sua vida, sem qualquer pré-aviso ou formalismo, abandonando-a, não tendo mais dele qualquer notícia digna de crédito.
Morando na cidade, próxima a estes episódios todos, testemunha ocular dos fatos, Aninha assistiu os efeitos e os primeiros acontecimentos que foram propulsionados pelas idéias republicanas e pelo sentimento de independência e liberdade, que as haviam sido transmitidas por seu Tio Antônio, as quais ela aderira ainda na sua puberdade.
(15)- COISAS VELHAS - SAUL ULISSEA - pg. 63.
(16)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINDOLFO COLLOR - pg 213
(17)- GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINFOLDO COLLOER - pg 213
(18)- Conforme senso relatado pelo viajante francês Van Lede in A LAGUNA ANTES DE 1880 - Pe. JOAO LEONIR DALL' ALBA - pgG 75
|