Capítulo III
Jovem, Aninha adquiriu consciência republicana
EM MORRINHOS, UMA VIDA SADIA E LIVRE
Com a família numerosa, Bentão necessitava dar-lhes residência fixa, o que aconteceu em Morrinhos, durante os últimos anos de sua existência, muito embora ele estivesse ausente do lar na maior parte do tempo, em virtude de suas prolongadas viagens. Em determinado período, tentou mudar sua profissão, dedicando-se à pesca, já que havia bom comércio para os pescados salgados. No entanto, esta foi apenas uma tentativa, com duração efêmera, pois não deu-se bem economicamente, mesmo porque toda sua vida havia sido tropeiro, atividade esta, bem diversa.
Habitavam em uma rústica residência, de pau-a-pique, construída com os materiais que as pessoas mais humildes possuíam na época: barro e madeira fina e roliça trançada, com a cobertura de capim e o chão de terra batida. Ficava localizada próximo a antiga estrada que conduzia a Lages, junto ao local onde as tropas de gado, deviam cruzar um dos diversos braços sinuosos do antigo delta Rio Tubarão. Este braço, é hoje conhecido como Rio Seco, em virtude da dragagem do Rio Tubarão, que enxugou praticamente todo o antigo delta, deixando apenas um largo leito, por onde desliza atualmente.
A fixação da família facilitou para que passassem a possuir os animais indispensáveis a sua sobrevivência, de onde provinham os derivados para sua manutenção. Segundo consta pela tradição oral, também possuíram alguns cavalares, indispensáveis a atividade profissional do patriarca.
Logo que veio ao mundo, Ana Maria de Jesus Ribeiro foi carinhosamente alcunhada de "Aninha", talvez por ser franzina ao nascer. Mas a pequena Aninha cresceu rápido e sua fragilidade foi sendo gradativamente substituída por uma infância robusta, solidificada por uma vida livre e sadia, construída com a paixão que desenvolveu pelos animais e pelo seu convívio com estes, revelando-se, desde muito cedo, uma exímia amazona.
Em 11 de maio de 1831, quando Aninha contava com dez anos, sua irmã mais velha, Felicidade, contraiu matrimônio e foi residir no Rio de Janeiro com seu esposo. Em virtude da numerosa prole, Aninha passou a desempenhar o papel de auxiliar principal da dona de casa, fazendo os serviços domésticos e cuidando dos irmãos, a despeito de ter uma irmã mais velha. Despertou-lhe, assim, desde sua mais tenra idade, um grande senso de responsabilidade.
PAI FALECEU QUANDO ERA MENINA-MOÇA
Como não existe ato lavrado que comprove oficialmente, deduz-se que Bento Ribeiro da Silva, o pai de Ana Maria de Jesus Ribeiro, faleceu entre os anos de 1833 a 1835, pois estas duas datas compreendem o nascimento de Salvador, seu último filho, e o casamento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, em cuja lavratura constou ser órfã de pai, como veremos na sequência .
Ao falecer, Chico Bento deixou desamparados a esposa e nove filhos menores, sendo a mais velha Manoela, seguida de Aninha, que contava com pouco mais de 12 anos de idade. A família ficou sem quaisquer recursos ou receitas que garantissem sua sobrevivência, o que motivou sua mãe e buscar trabalho em residência de famílias. É bem provável que antes de falecer, Chico Bento tenha vivido com sua família na localidade do Mirim, ao norte da então Vila de Laguna, às margens da Lagoa, onde o casal tinha diversos parentes. Ali teria dedicado-se às atividades de pesca.
Não existem registros, mas nesta localidade pode ter ocorrido a morte de Chico Bento. Há quem diga que faleceu em Morrinhos. O que sabe-se com certeza é que a família, após a morte do varão, procurou maior segurança, já que o local era muito pouco povoado, e havia constantes assédios às filhas mais velhas. A mãe providenciou, então, na mudança da família, transferindo sua residência de Morrinhos, hoje Bairro Anita Garibaldi, de Tubarão (ou do Mirim?), para a Carniça, localidade hoje conhecida como Campos Verdes, nos arredores de Laguna, de onde poderia facilmente, atravessando o Rio Tubarão, ir trabalhar nas ricas residências da fluorescente Vila de Laguna, provendo, assim, o sustento de seus filhos.
Assim foi que a mudança para a Carniça obedeceu a necessidade de buscar mercado de trabalho, mas o foi também por questões de segurança. Residindo na Carniça, com a mãe trabalhando nas residências de Laguna, de sua auxiliar na difícil tarefa de cuidar dos irmãos, preparar refeições e manutenção da modesta residência, Aninha foi guindada, pela força das circunstâncias, à responsável principal, aumentando ainda mais suas responsabilidades. À medida que crescia, também aumentava sua paixão e amor pela vida livre, junto aos animais e a beira dos canais e das praias que banhavam a Carniça de outrora, onde costumava banhar-se, a despeito do fato de que banho de mar era considerado um ato insano, socialmente proibido, ainda mais para uma menina-moça. Nada adiantou a repressão da mãe sobre os banhos de mar e o seu apego pela vida agreste e livre. Gestava-lhe a personalidade que era peculiar em seu falecido pai ...
AS PREGAÇÕES DO TIO ANTONIO, O ATIVISTA REPUBLICANO
Influenciada pelas novidades e histórias que durante as breves estadias lhe eram contadas pelo pai, que, em virtude de suas viagens, tinha um nível de conhecimento acima da média dos vizinhos de Morrinhos, Anita despertou, desde cedo, vivo interesse por tudo quanto lhe foi narrado por seu pai, cujos contos passou a agregar ao seu imaginário e enigmático mundo exterior.
Após o falecimento deste, Aninha e sua mãe foram visitadas diversas vezes pelo irmão de Bentão, conhecido como Antonio da Silva Ribeiro, que, por também ser tropeiro, em suas vindas a Laguna não deixava de visitar a cunhada e os sobrinhos, auxiliando na superação das dificuldades conômicas que os penavam, sempre que possível.
Este Tio Antônio era um ativista político, precursor das ideais de igualdades sociais e da instituição do regime republicano, e de tempos que pregava mudanças através de uma revolução, como forma de dar um basta ao descaso do governo central do Rio de Janeiro, na época representada pela Regência do Padre Antônio Feijó, em virtude abdicação acontecida em 7 de abril de 1831, de D. Pedro I, em favor de seu filho menor D. Pedro II.
Por suas idéias contrárias à monarquia, foi cruelmente perseguido, tendo sido incendida sua casa em Lages pelos soldados imperiais, obrigando-o a refugiar-se nas cercanias da Vila de Laguna, conforme será relatado nos próximos capítulos. A perseguição que lhe foi desencadeada, ao invés de faze-lo cessar com a "agitação" de que era acusado, redobrou sua disposição contrária ao Império. Por um longo período permaneceu no litoral, provavelmente como hóspede do irmão Chico Bento, pai de Aninha.
Sempre que tinha oportunidade, nas casas ou nas estradas, a luz de lampiões ou do sol, sempre que havia alguém disposto a ouvi-lo, Tio Antônio fazia a apologia das vantagens do regime republicano. Aninha foi sua mais constante e atenta ouvinte.
A REGÊNCIA DA MONARQUIA CRIOU INSATISFAÇÕES NO SUL
Após abdicação de D. Pedro I, o Governo Regencial Monárquico impôs pesada carga tributária à Região Sul, que incidia sobre o gado, charque, sebo, erva mate, trigo e outros produtos que eram ali produzidos em escala menor. Também tributou pesadamente as propriedades rurais. A arrecadação tributária, muitas vezes, era feita de forma arbitrária, sem que o Governo Imperial retribuísse com um mínimo de investimentos nas melhorias de condições do desenvolvimento da Região, que era, na época, o maior produtor rural do Império.
A política fiscal do Rio de janeiro não era bem recebida no Sul. Em determinado período, o Governo Imperial, por omissão, tornou-se conivente com contrabandistas da América do Norte, que despejaram na Região Sul, grandes quantias de moedas de cobre, que eram falsas, o que gerou pânico nas cidades e nas campanhas (9) Houve quebra de muitos produtores de gado e de charqueadas. Para evitar a ruína da economia, o Governo Imperial mandou estampar outras moedas, mas logo em seguida as desvalorizou. Depois emitiu cédulas de papel, para substituir as falsas e as desvalorizadas. A cada emissão era seguida de mudança, que desvalorizava a moeda anterior, retirando o poder de compra da população. O Governo especulava com a própria moeda e locupletava-se com as desvalorizações que promovia.
Os deputados mais conseqüentes denunciaram que o Império estava prestes a implodir pela falta de uma política financeira estável e confiável. Em resposta, em 1832, a Regência criou as Juntas de Tributos Diversos, instalando postos de arrecadação compulsórios nas divisas entres as províncias e fronteiras com os países do Prata, que estavam autorizados a arrecadarem os tributos em percentuais de mercadorias, na ausência de moeda aceita pelo Governo. O descontentamento dos produtores aumentou mais ainda, refletindo-o junto aos pequenos comerciantes e a população em geral.
Todos amargavam o descaso que a Regência dedicava à Região Sul com sua política tributária e monetária.
Por tais fatores, instituições como a maçonaria, aliadas a correntes políticas majoritárias então existentes na Região Sul, clamavam pela mudança do regime centralista imperial, desejando substitui-lo por um modelo de maior autonomia administrativa às províncias, no estilo federativo, que alguns o queriam republicano e outros imperial.
Havia ainda os que queriam a formação de uma confederação de províncias independentes, e neste projeto incluíam a Província Cisplatina, depois chamado de Uruguai, a quem, recentemente, o Governo Imperial havia reconhecido independência, e mais as províncias argentinas limítrofes com a então Província do Rio Grande do Sul. Haviam também os que aspiravam o transforma-la em país independente, desvinculada completamente do Império Brasileiro.
PERSEGUIDO PELA MONARQUIA, O TIO DE ANINHA TEVE SUA CASA INCENDIADA
Portanto, neste período, o Sul ainda buscava sua identidade como uma região emergente, que ainda não havia formado sua nacionalidade, a despeito de estar vinculado politicamente e territorialmente ao Brasil, que resistia como a única nação americana a manter um regime monárquico.
Ao invés de aplacar estes ânimos de forma democrática, a Monarquia, representada pela Regência, tratou de extinguir estes sentimentos com o emprego da força e da violência, reprimindo e perseguindo os que pregavam as mudanças. Em 1829 foram criados tribunais militares especiais, que tinham por finalidade julgar rebeldes que se opunham ao regime monárquico e os desertores de suas tropas, colocando a Região Sul sob lei marcial (10).
A elite social sulista era formada pelos estancieiros produtores de gado e chaqueadores, sediadas, em ampla maioria, nas campanhas, de onde emergiriam os líderes da revolução que se avizinhava. Estes agentes revolucionários não dispunham de exércitos, e passaram, então, a incitar seus peões, escravos, dependentes e os errantes, a se rebelarem contra o sistema político vigente, formando uma nova consciência política na campanha, como forma de levar avante uma revolução que modificasse a estrutura política e administrativa centralizadora e despótica.
O pai de Aninha e seu tio Antônio, em virtude de suas andanças como condutores de tropas de gado, tratando diretamente com os criadores e produtores de charque, vivenciaram todos estes acontecimentos, passando a defenderem as propostas de mudança e transformação do regime imperialista para republicano. Deslocando-se de uma cidade para outra, tornaram-se, principalmente o Tio Antônio, em propagadores e fomentadores da revolta que se avizinhava. Apregoaram a esperança que o regime republicano poderia trazer ao povo mais humilde, caso ajudassem a combater e a destruir a monarquia.
Na então Vila de Lages, a repressão a estas idéias, estava a cargo do Coronel Manoel dos Santos Loreiro, do Exercito Imperial, que desencadeou perseguição a Antônio da Silva Ribeiro - tio de Aninha. Sua residência foi incendiada, obrigando-o a refugiar-se na litorânea Vila de Laguna com seus familiares, para escapar às truculências desta repressão, conforme já narrado.
Durante o tempo que esteve refugiado em Laguna, ou mesmo durante às suas posteriores visitas à cunhada e sobrinhos, após a morte de seu irmão, Antônio continuava com suas pregações. A atenta e curiosa Aninha interessou-se por tudo quanto foi dito pelo tio, alimentando desde tenra idade a sua vocação libertária e republicana.
Foram com estas pregações simples, que implantou-se em Aninha a semente do ideal pela defesa das igualdades sociais e pelo regime republicano, fatores estes que viriam a dota-la de uma fantástica coragem e um incomum espírito revolucionário, que poucos anos após iria germinar de forma fecunda, produzindo a guerreira corajosa que jamais foi gestada pela humanidade.
As notícias e os sentimento trazidos por seu Tio Antonio já não eram tão estranhos ao ambiente em que Aninha vivia, já que estes assuntos também eram trazidos regularmente pelos navios que atracavam no porto e pelos refugiados do Sul, que para a Vila de Laguna vinham fugindo das perseguições políticas e militares. Seguidamente estas conversas voltavam ao ambiente de sua residência, principalmente nas diversas vezes que seu Tio Antonio voltava de novas tropeadas, ou mesmo quando ali refugiou-se da repressão que o queria prender em virtude de suas idéias.
Aparentemente, em Aninha, a pregação não produziu efeitos instantâneos, pois uma simples e humilde menina, ainda não alfabetizada, não tinha a consciência sobre a importância da semente que lhe estava sendo gradativamente plantada. Ainda não havia sido envolvida pelo turbilhão dos acontecimentos revolucionários que estavam prestes a arrebatá-la.

ANINHA OUVE PREGAÇÕES REPUBLICANAS DO TIO ANTONIO
A PRIMEIRA CARTA DE ANINHA
Felicidade, sua irmã mais velha, que após casada tinha ido residir no Rio de Janeiro, comunicava-se com a família através de correspondência, que a época levava meses e as vezes nem chegava ao seu destino. Estas correspondências deixavam Aninha entusiasmada, e o fato repetiu-se muitas vezes. Aninha, por não ser alfabetizada, valia-se de suas poucas amizades para poder escrever as respostas, limitando-se a ditá-las. Posteriormente, muitas foram as cartas escritas por Aninha, mesmo após quando passou a ser conhecida como Anita..
Ao que parece, mesmo depois de ter sido alfabetizada, quando adulta, Aninha continuou com o hábito de ditar, limitando-se a assiná-las, algumas vezes. Tais cartas foram remetidas ora para sua irmã no Rio de Janeiro, ora para seu Tio Antônio, em Lages, e ora para sua mãe em Laguna. À alguns amigos dos Rio Grande do Sul, do Uruguai e da Itália também foram escritas cartas. Muitas destas cartas foram recuperadas, e atualmente estão arquivadas e guardadas no Museo del Rissorgimento, em Roma, que funciona no último andar do monumento construído em homenagem ao Rei Vitor Emanuel.
Em carta que endereçou a sua irmã Felicidade, em janeiro de 1935, quando então contava com 13 anos de idade, Aninha demonstrava já estar despertando sua consciência que clamava por mudanças e narra o seu caracter da futura mulher altiva, independente e aguerrida:
"Laguna, janeiro de 1835. Minha Querida Irmã. ... Que grande invenção a escrita! Também quero aprender a escrever. Um dia vou encontrar alguém que me ensine ... Imagine só que maravilha poder ser livre! Poder fazer o que eu quiser! Por exemplo, ajudar meu tio a preparar a revolução. E não me diga que estou louca.
Você se lembra das noites que passamos em casa, ouvindo as aventuras dele e dos amigos, perto do fogo? Quando os ouvia, eu tinha sensações estranhas, fortes, sentia que estávamos todos unidos, amigos para toda a vida. Desde então procurei entender o que é a liberdade de que eles falam. Acho que as pessoas deveriam escolher quem as governa e lutar para os pobres não sofrerem mais, para todos poderem ler e escrever e para os doentes não serem abandonados à morte.
Tio Antônio está cada vez mais bravo. Desde que queimaram a casa dele, parece mesmo decidido a organizar a revolta, e você vai ver como ele vai conseguir. ... Nunca sei o que dizer aos rapazes. Eles parecem crianças. Ficam ali sem fazer nada, em grupinhos, rindo feito tontos. Eu tento evitá-los. ... Também tento evitar as comadres, principalmente aquelas fofoqueiras e carolas que não preciso dizer quem são. Se vejo algumas delas a tempo, mudo de caminho ou entro em algum jardim.
Quando não dá, passo com o nariz empinado. A única coisa que elas fazem o dia inteiro é falar mal dos outros. As piores passam horas e horas na igreja e depois ficam o resto do tempo condenando todos ao inferno.
Além do mais, para elas, eu nunca seria uma pessoa correta. Minha saía é muito curta, não ando na rua com os olhos baixos, não vou à missa, saio sozinha, faço caretas, rebolo. As línguas delas disparam sempre que me vêem. Nunca vou me esquecer daquela história do banho de mar. Lembra? Parece que ainda estou sentindo o calor pesado do começo da tarde, o suor grudando meus cabelos na nuca. Ainda vejo meu lindo vestidinho florido, que eu não queria estragar, a tua cara espantada quando, depois de termos molhado um pouco os pés, você me viu voltar até o seco, tirar a roupa, estendê-la cuidadosamente na areia e depois correr para as ondas aconchegantes, a delícia da água fria sobre a pele nua. Tudo parecia muito natural. De repente eu me havia transformado numa parte da espuma do mar, num peixe.
Mas você se lembra do escândalo? Se pelo menos eu não tivesse tido a idéia de contar tudo quando voltamos e encontramos a mamãe e a comadre Marta na cozinha. Logo entendi que alguma coisa estava errada quando vi os olhos arregalados da mamãe e os lábios finos da comadre sibilando como uma cobra. Mas era tarde demais... Para variar, eu tinha dado um escândalo. Querida irmã, as sombras estão ficando mais longas e tenho que voltar para casa. Amanhã, Maria Rosário vai a Lajes fazer umas visitas, mas quando ela voltar vamos acabar estas notícias para você. Enquanto isso, penso em você e te beijo, Aninha. " (11)
(9) - AS RAÍZES SÓCIO-ECONÔMICAS DA GUERRA DOS FARRAPOS - SPENCER LEITMAN - pg 142
(10)- RAÍZES SÓCIO-ECONÔMICAS DA GUERRA DOS FARRAPOS - SPENCER LEITMAN.
(11)- ANITA GARIBALDI A MULHER DO GENERAL - A . GARIBALDI
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