Capítulo I
As origens familiares
DE LAGUNA PARTIU A COLONIZAÇÃO DO SUL DO BRASIL
Foram os bandeirantes portugueses que iniciaram a ocupação do Sul do Brasil, durante o processo de consolidação da conquista do território e de expansão das divisas acordadas pelo Tratado de Tordesilhas e dos demais que se seguiram, firmados que foram pelos então reinos de Portugal e Espanha. A partir de Laguna, organizaram-se diversas expedições visando a ocupação meridional do território sulista, em nome da Coroa Portuguesa. Laguna era o último povoado do Sul. Daí sua importância estratégica para ocupar o território do atual estado do Rio Grande do Sul, ameaçado que estava pela colonização espanhola, que iniciava adentrá-lo pela bacia do Prata.
Para tomar posse e colonizar a região depois conhecida como Colônia de S. Pedro e parte da Colônia do Sacramento, centenas de lagunenses, na maioria das vezes acompanhados de suas esposas e familiares, participaram destas expedições, o que fez com que, em diversos momentos da sua história, Laguna ficasse com uma população reduzida a crianças, idosos e poucas mulheres.
Famílias tradicionais, cujos membros e sucessores foram posteriormente os responsáveis pela construção da história e epopéia riograndense como os Peixoto, Amaral, Silva, Almeida, Pinto, Ribeiro, Antunes, Magalhães, Pereira, Silveira, Andrade, Abreu, Salvador, Souza, Cabral, Melo, Dias, Azevedo, Bento, Ribeiro, e muitas outras, partiram do antigo povoado de Santo Antônio dos Anjos da Laguna para o início da construção da epopéia sulista.
A ocupação sulista, a partir do povoado de Laguna, tinha o claro propósito de plantar novos centros populacionais nos imensos espaços vazios, que se alongavam de Laguna aos domínio espanhóis platenses, como forma de cumprir o desejo de Lisboa de garantir a posse da ainda inabitada área. Este vasto território era rico em gado e cavalares, cujas matrizes haviam sido trazidas e ali soltas para criarem-se alçadas pela Casa de Castela e pelos jesuítas das reduções missionárias que estabeleceram-se na região banhada pelo Rio Uruguai.
Foi no início do século de 1700 que os primeiros lagunenses estabeleceram-se em Viamão, onde formaram as primeiras estâncias sem aramados, dali fazendo incursões até às proximidades de Maldonado, no Uruguai de hoje, para recolherem o abundante gado xucro existente nas pradarias que encontraram. Ao peso de muitas vidas, enfrentaram com sucesso os primitivos proprietários da terra, os índios charruas e os minuanos, que anos antes já haviam repelido tentativas de ocupação que foram realizadas pelo Governador do Paraguai, na época sede dos domínios de Castela, que compreendia a vasta área entre Buenos Aires e o Peru.
A epopéia lagunense, ainda não conhecida e devidamente difundida pela maioria dos livros e currículos escolares, é reconhecida por expoentes pesquisadores e nativistas riograndenses, que são unânimes em reconhecer que o tipo gaúcho foi fecundado com o sêmen da coragem lagunense e gestado no ventre do espírito libertário dos índios charruas, carijós e minuanos. A expressão contida na bandeira do atual Município de Laguna, traz uma inscrição latina que traduz toda a gloriosa epopéia de seu pioneiro povo, afirmativa de que para o sul levou o Brasil: "Ad Meridiem Brasiliam Duxi".
Os bandeirantes portugueses oriundos de Laguna e os indígneas foram os principais elementos que miscigenaram-se para moldar o perfil e a cultura rio-grandense
Quer seja pelas dificuldades geográficas da então possessão portuguesa, quer pelas enormes distâncias de seu vasto território, ou ainda pelos precários e quase inexistentes meios de comunicação, as estruturas governamentais eram raras. Para exemplificar e ter-se melhor compreensão desta obra, deve ser recordado que no início do século passado, época destes fatos, não existiam os cartórios de registro civil, nos moldes que estão implantados hoje. Tal função era feita exclusivamente pela Igreja Católica, que lavravam em registros próprios os atos da vida civil, em forma de fatos religiosos, de cada uma de suas respectivas paróquias.
Diversas foram as pesquisas feitas para desvendar as origens dos pais de Ana Maria de Jesus Ribeiro, depois conhecida como Anita Garibaldi, todas, porém sem muito sucesso, tendo em vista a distância de tempo ocorrida entre o início e o final destes cinco séculos de nossa história, associado ainda pela precariedade e quase inexistência dos registros públicos da estrutura organizacional das capitanias hereditárias e do vice-reinado brasileiro.
OS PAIS E AVÓS DE ANITA
Assim, embora alguns historiadores e pesquisadores tenham tentado, não foi possível até o presente momento encontrar as origens familiares mais distantes de Bento Ribeiro da Silva, o pai de Anita. Sobre ele descobriu-se apenas que era brasileiro, natural de S. José dos Pinhais, no Paraná, e que era filho de Manoel Colaço e de Angela Maria.
Melhor sorte foi obtida quando foram pesquisadas as origens da mãe de Anita, D. Maria Antonia de Jesus Antunes, restando comprovado ser filha de Salvador Antunes e de Quitéria Maria de Souza. Os Antunes haviam migrado de S. Paulo, onde nasceu Salvador, tendo fixado residência em S. José dos Pinhais em data desconhecida. Quitéria Maria de Souza era filha de Antonio Jose de Souza, originário da Ilha de S. Miguel, nos Açores - Portugal.
Segundo registrado pelo historiador Amádio Vetoretti, (1), em 1803 as plantações de Salvador Antunes, localizadas nas margens do Rio Tubarão, teriam sido atacadas por índios. Em 1807, o mesmo Salvador Antunes teria recebido uma sesmaria de terras, por doação, naquelas cercanias. Seu registro de óbito consta que faleceu em 05.10.l830, em Laguna. Por dedução lógica, tais fatos levam o autor a acreditar que Bento Ribeiro da Silva conheceu Maria Antonia de Jesus Antunes nas cercanias de onde encontra-se a cidade de Tubarão, levando-a para esposar em Lages.
A origem da cidade de Tubarão está ligada a construção de uma estrada que ligava a Vila de Lages à Vila de Laguna. Talvez porque a tivesse encontrado no caminho da Laguna/Lages, durante suas tropeadas, ou talvez porque a conheceu em Lages, após para lá ter migrado, a verdade é que Bento Ribeiro da Silva, em 13.06.l815, na "Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages", casou-se com Maria Antônia de Jesus Antunes, natural da então Vila da Laguna, que após o casamento, ficou sendo conhecida pela alcunha de "Maria Bento".
BENTO RIBEIRO DA SILVA, O PAI, ERA TROPEIRO
Pode-se afirmar que, quer seja pelos sobrenomes de seus antepassados, quer seja pela conhecida origem lusa de sua mãe, Anita era descendente de portugueses que já estavam radicados desde muitos anos no Brasil.
Bento Ribeiro do Silva, por ser bastante alto, corpulento e por demonstrar grande disposição e habilidade para as lidas com tropeadas de gado, ficou conhecido em todos os caminhos de tropas como "Chico Bentão" ou, simplesmente, "Bentão". Pelas dificuldades de comunicação da época, e dado a natureza de seu trabalho como tropeiro, que cruzava por estradas diferentes e distantes, tornou-se uma espécie de porta-voz, trazendo e levando notícias sobre as novidades políticas, narrando os acontecimentos de uma região para a outra. Assim, também ficou conhecido como sendo um "politiqueiro" (2).
Naquela época, os campos de Viamão, localizados no Rio Grande do Sul, produziam muito gado, e necessitavam transportá-los por estradas, que nada mais eram do que grandes picadas, cujo destino final eram Sorocaba e S. Paulo. Também o Planalto Serrano tinha sua economia alicerçada na criação bovina, cujas tropas eram conduzidas aos mesmos mercados. Após chegarem aos centros consumidores, os animais eram abatidos e sua carne era transformada em charque, destinado a alimentar a força do trabalho escravo existente nos canaviais, engenhos e minas das províncias do Rio de Janeiro, S. Paulo e Minas Gerais.
As lideranças econômicas de Lages necessitavam de um porto mais próximo para receber o sal, tecidos, ferramentas e outros manufaturados que consumiam. Também necessitavam escoar suas produções de couro, sebo, charque, pinhão e outras mercadorias que produziam. Distante do litoral e verificando que Laguna oferecia maior proximidade portuária, a Câmara de Vereadores de Lages, no ano de 1773, patrocinou a abertura de uma nova estrada, um novo caminho para as tropas subirem e seus produtos descerem a serra.
Como o Sul era o grande produtor de gado, e o transporte era feito por estas rústicas estradas, a atividade gerou a profissão do "tropeiro", que pacientemente, de passo em passo, tinham a responsabilidade de conduzir e deslocar os rebanhos bovinos do sul para o norte, atravessando extensas regiões das províncias sulistas.
Muitas vezes os rebanhos eram abatidos, salgada sua carne e embarcada em cidades portuárias em direção ao norte. No sul do Brasil, no início do Século XIX, existia o Porto de Rio Grande, que liderava a produção e exportação de charque. O porto de Laguna também exportava charque, porém em menor quantidade, mas, por sua posição geográfica, era o segundo porto em importância de todo o Sul, daí decorrendo naturalmente que fosse transformada na principal cidade portuária da província de Santa Catarina. E era necessário, portanto, para lá conduzir mercadorias para serem embarcadas, cujo transporte também era feito em lombo de burros e em rudes carretas puxadas por juntas de bois.
Das cidades portuárias retornavam com ferramentas agrícolas, tecidos, sal, manufaturados os mais diversos, oriundos dos grandes centros ou importados de outros países. Os tropeiros, assim, quando seguiam com tropas, voltavam com mercadorias, ou vice-versa.
Esta era a atividade econômica principal de Chico Bentão, que tropeava gado entre a região serrana, na vasta região que vai de Viamão (RS) até Sorocaba (SP), ali compreendido o litoral de Viamão (RS) à Laguna (SC) e o planalto serrano de Vacaria (RS) até S. José dos Pinhais (PR).
As dificuldades geográficas entre a serra e o litoral faziam os tropeiros demoravam-se por muitas semanas, e as vezes por meses para vencerem estas distâncias com suas tropas. Dado o caráter quase que nômade desta profissão, e embora não fosse uma prática comum, era encarado com naturalidade que alguns tropeiros levassem consigo suas esposas e filhos, que acabavam auxiliando durante as tropeadas, quer no manejo, zelo e condução do gado, quer nas lidas dos rápidos e improvisados acampamentos.
Caminho percorrido pelos tropeiros conduzindo gado de
Viamão (RS) para Sorocaba (SP). Provavelmente os pais de Anita
conheceram-se no Poço Grande do Rio Tubarão, onde o
avô materno habitava.
OS PAIS CONHECERAM-SE NO "POÇO GRANDE DO RIO TUBARÃO" E CASARAM-SE EM LAGES.
Em uma destas tropeadas, provavelmente quando passou conduzindo gado ou mercadorias pela localidade onde posteriormente erguer-se-ia a pujante cidade de Tubarão, Bentão conheceu Antonia, desposando-a. Embora estivesse próximo, o novo caminho das tropas não passava pela Vila de Laguna, e como residia em Lages, levou-a para esposar nesta cidade, onde celebraram bodas.
Por serem descendentes de famílias católicas praticantes, os atos religiosos do casal, tais como nascimentos, batizados, casamentos, crismas e óbitos foram registrados na igreja mais próxima de onde encontravam-se momentaneamente. Na época, em Santa Catarina existiam igrejas apenas em Lages, Laguna, Desterro e São Francisco. Casaram-se no dia 13 de junho de 1815, na Vila de Lages e além de seu casamento ter sido realizado sob as benções da Igreja Católica, o casal cumpriu com os sacramentos que os obrigava a efetuar os batismos de todos os seus filhos.
Após algum tempo de casados em Lages, definitivamente ou temporariamente, o casal transferiu-se para Laguna, fixando-se com a família na margem direita de um dos canais do delta que a época formava o Rio Tubarão, no local que era conhecido como Rincão de Morrinhos, um local com poucas casas, e provavelmente, próximo de onde a esposa Maria Benta tinha nascido, em terras de propriedade do pai desta. Por ali passavam os tropeiros, acompanhado o Rio Tubarão, para cruza-lo mais adiante, ora com seus rebanhos, ora com suas mercadorias. O Rincão dos Morrinhos, como era conhecido o hoje Bairro Anita Garibaldi da cidade de Tubarão, distava seis quilômetros da localidade do "Poço Grande" (3), que então pertencia a Laguna, de quem emancipou-se em 1870.
Como já referido, Bentão voltou a Lages muitas vezes, e é bem provável que algumas vezes tenha voltado com sua família, quer em tropeadas de gado, quer para rever parentes ou até para lá voltar a residir temporariamente. Além de seu casamento, lá registrou o nascimento de outros dois filhos. Outros seis foram batizados e registrados na Igreja de Santo Antônio dos Anjos de Laguna.
Porém, não logrou-se encontrar o registro do batistério de duas filhas, Manoela e Ana Maria, que, se foram registradas, perdeu-se o histórico documento, onde, em seus respectivos batistérios, deveriam estar consignados seus locais e datas de nascimento, conforme veremos na sequência.
(1) A HISTORIA DE TUBARAO - pg. 59/60- AMADIO VETORETTI
(2) GARIBALDI E A GUERRA DOS FARRAPOS - LINDOLFO COLLOR.
(3) A HISTORIA DE TUBARÃO - AMADIO VETORETTI - pg. 15
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