extraído do jornal
Zero Hora
Segundo Caderno
30/03/2002




foto de Emílio Pedroso - Banco de Dados/ZH - 03/10/2000

Depois de 1987, Barbosa Lessa retornou a suas raízes no interior
se instalando no Sítio Água Grande, na cidade de Camaquã




O pai da música gaúcha

CD "Barbosa Lessa 50 Anos de Música" reúne 25 composições do folclorista

Mais que uma homenagem ao folclorista e escritor Barbosa Lessa, morto no dia 11 de março passado, o CD "Barbosa Lessa 50 Anos de Música" é um ato de justiça.

Reunindo 25 músicas compostas por Barbosa Lessa especialmente nas décadas de 50 e 60, o disco deixa claro: o gaúcho de Piratini não deve ser lembrado apenas por ter criado Negrinho do Pastoreio, mas por ser um dos definidores do que seria a música gaúcha.

Aquele que segue os passos de Barbosa Lessa pela vida suspeita que ele sempre correu atrás de inspiração. Nascido em 1929, foi alfabetizado e aprendeu datilografia, piano e teoria musical em casa, com a mãe. Aos 12 anos, em Pelotas, formou seu primeiro conjunto musical. Com 16, era repórter da Revista do Globo e já se interessava pela cultura gaúcha. Dois anos depois, com Paixão Côrtes, ajudava a criar o CTG 35. Entre 1950 e 1952, a grande jornada: ele e Paixão saem pela América do Sul a pesquisar e recolher elementos para construir o folclore gaúcho.

Entre 1954 e 1974, período em que morou em São Paulo trabalhando em publicidade, teatro, cinema e literatura, aproximou-se de intérpretes do centro do país e teve seu período de maior produção musical. O talento como compositor é explicado de maneira direta pelo próprio Barbosa Lessa, no encarte do disco:

– Ainda na adolescência, fiz minha primeira canção, Quero-Quero, e achei até que ficou bem engraçadinha. Me entusiasmei e fui em frente.

Pelo caminho, Barbosa Lessa foi compondo toadas e polcas missioneiras, valsas campeiras, xotes, recortado, limpa-bancos e mazurcas. No final, acabou criando música e modelos, num pioneirismo que ele novamente relativiza:

– Para saber o que o público entenderia como música do Rio Grande, fui tenteando os ritmos.

Repertório tem toadas,
valsas, milongas
e até marcha-rancho

O CD Barbosa Lessa 50 anos de Música prova também que houve mais acertos do que erros. O disco abre e fecha com a clássica Negrinho do Pastoreio, nas versões do Conjunto Farroupilha (lançada em 1953, no primeiro elepê do grupo) e do maestro Luiz Arruda Paes e sua orquestra (de 1959). Traz a rara gravação que Luiz Gonzaga fez para o xote Aroeira (1961) e as divertidas interpretações de Inezita Barroso para Rancheira de Carreirinha e Balaio (ambas lançadas por ela em 1957, com jeito de sucesso nacional).

O adorável método de tentativa e de erro dá seus bons resultados em Milonga do Moço Novo e Balseiros do Rio Uruguai, na voz autêntica de Noel Guarany. Ana Silva canta a quase guarânia Feitiço Índio (1957). O Conjunto Farroupilha (com suas vozes femininas solando músicas gaúchas) mostra também Me Dá um Mate, Entrevero no Jacá, Milonga do bem Querer e Carreteiro. Há as escorregadelas, como a marcha-rancho Pôr-do-Sol no Guaíba (1976), que ao menos reafirma a versatilidade de Barbosa Lessa. E é dele a melhor definição para o disco:

– Tive a estranha sensação de que um bando de 26 crianças veio ao meu encontro, pulando de alegria mas protestando: “Papai! Por que te esqueceste da gente?”.

Depois de Barbosa Lessa 50 Anos de Música, será impossível esquecer que o folclorista e escritor era também um excelente músico.