extraído do jornal
Zero Hora
12/03/2002

REPORTAGEM ESPECIAL

Épico em qualquer cantinho de linguagem

Capital farroupilha se despede de tradicionalista
O escritor Barbosa Lessa foi sepultado ontem na cidade histórica de Piratini com a presença de autoridades, amigos e parentes

FÁBIO SCHAFFNER
Casa Zero Hora/Pelotas

Ilustre piratinense: cavaleiros pilchados acompanharam o cortejo fúnebre pelas ruas da cidade na manhã de ontem (foto Nauro Júnior/ZH)

        O Rio Grande do Sul chorou ontem a morte de um dos mais aguerridos defensores das tradições e do folclore gaúcho.

        Aos 72 anos, morreu ontem em Camaquã Luis Carlos Barbosa Lessa, artífice do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) e um dos fundadores do CTG 35, o mais antigo centro de tradições gaúchas do Estado.

        Barbosa Lessa morreu à 1h, no Hospital Nossa Senhora Aparecida, onde estava internado desde quinta-feira. Autor de obras fundamentais na cultura do Rio Grande do Sul, o escritor e compositor foi sepultado em Piratini, sua terra natal e berço dos ideais farroupilhas que tanto preconizou. O governador Olívio Dutra decretou luto oficial de três dias no Estado, e o prefeito Tarso Genro decretou três dias de luto oficial em Porto Alegre. As prefeituras de Camaquã, onde Barbosa Lessa morou nos últimos 15 anos, e de Piratini também decretaram luto de três dias.

        O tradicionalista foi hospitalizado com insuficiência respiratória aguda, causado por um câncer pulmonar contra o qual lutava havia seis anos. Em 1997, ele se submeteu a uma cirurgia no Hospital Moinhos de Vento, na Capital, e o tumor foi retirado.

        Porém, segundo o cardiologista Mário Warlet, que o tratava há seis anos, o câncer ressurgiu no ano passado, disseminando-se por outros órgãos. Na sexta-feira, ele entrou em coma irreversível.

        A saúde debilitada, no entanto, não o impedia de trabalhar. Na última quarta-feira, um dia antes de ser internado, concluiu a seleção de fotos para sua mais recente obra, Fulano de Tal. No livro, a ser lançado pela Editora Alcance, ele reproduz as correspondências que recebeu dos amigos nos últimos 50 anos.

        Ontem pela manhã, o corpo do escritor foi velado no salão nobre da prefeitura de Camaquã. Às 10h, ele foi conduzido a Piratini, onde foi recebido na entrada da cidade por oito cavalarianos com as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do Sul, do município, do MTG e do CTG 20 de Setembro. À frente do cortejo, o prefeito Francisco de Assis Luçardo puxava um cavalo com a sela vaga e a bandeira do Piquete Barbosa Lessa, simbolizando a perda do amigo de três décadas.

        Desde as primeiras horas da manhã, um carro de som circulava pela cidade anunciando a morte do mais ilustre piratinense. Quando o cortejo alcançou o centro, uma multidão se aglomerava nas calçadas e aplaudia a passagem do corpo. Levado ao salão do CTG 20 de Setembro, foi velado durante toda a tarde, enquanto uma chuva fina cobria o município.

        A primeira dama do Estado, Judite Dutra, o secretário estadual da Cultura, Luiz Marques, o ex-governador Amaral de Souza – de quem Barbosa Lessa foi secretário da Cultura –, autoridades tradicionalistas e culturais, músicos, amigos e curiosos se revezaram em torno do caixão, prestando homenagens e amparando a viúva Nilza Lessa.

        Num dos momentos de maior emoção, o conselheiro do MTG Ivo Benfatto fez todos repetirem, com o braço estendido na direção do corpo, o lema criado por Barbosa Lessa para o CTG 35: em qualquer chão, sempre gaúcho, pelo Rio Grande e pelo Brasil.

        O escritor foi sepultado às 18h, no Cemitério Municipal de Piratini. Instantes antes, um grupo nativista fez uma última homenagem, entoando duas das mais célebres composições de Barbosa Lessa, Quero-Quero e Negrinho do Pastoreio.

OPINIÕES
Geraldo Huff, presidente da Câmara Rio-grandense do Livro:
Foi maravilhoso ter Barbosa Lessa como patrono da 46ª Feira do Livro. O que mais me impressionou foi a maneira como ele se relacionava com a imprensa e com o público da feira, sempre muito atencioso, cordial e carinhoso.
Luís Carlos Borges, tradicionalista:
Conheci Lessa como compositor desde as primeiras canções de sua autoria, como Quero-Quero e Negrinho do Pastoreio. Durante uma entrevista, ele contou que, desde os 15 anos, já se sentia impelido a compor, por absoluta falta de repertório gaúcho que lhe agradasse.
Paulo Flávio Ledur, ex-presidente da Câmara Rio-grandense do Livro:
Dizem que quem faz muitas coisas acaba não desempenhando bem nenhuma delas. A Lessa essa regra não se aplica. Ele ficou 20 anos fora do Estado e não perdeu o contato com suas origens. Guardo dele a imagem de um homem culto que, por ser culto, era extremamente simples.
Armindo Trevisan, poeta:
Barbosa Lessa foi uma enorme surpresa para mim. De repente, descobri um grande escritor e um grande homem. Grande escritor da melhor estirpe do Simões Lopes Neto. Grande homem de coração generoso, humano. Gente assim só nasce de vez em quando.
Luiz Antônio de Assis Brasil, escritor:
Se o Rio Grande tem uma alma, nela vive, e agora pela eternidade, Barbosa Lessa. Amigo querido, ele sempre me deu razões para acreditar naquilo que nos torna diferentes.
Amaral de Souza, ex-governador do Estado:
Perdi um grande amigo. O Lessa foi tão grande que o Estado jamais vai esquecê-lo.
Judite Dutra, primeira-dama do Estado:
Barbosa deixa um grande capital de sabedoria na cultura, na história e nas lendas gaúchas, coisas que aprendi ainda na infância.
Luiz Marques, secretário de Estado da Cultura:
Barbosa Lessa foi um grande intelectual, um artista que legou a obra que enriquece nosso imaginário.
Celso Souza Soares, presidente da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha:
Mais de 3 milhões de tradicionalistas ficaram órfãos.
Francisco Luçardo, prefeito de Piratini:
Foi uma perda para a municipalidade, para o Estado e o país, sobretudo uma perda prematura.
João Carlos Machado, prefeito de Camaquã:
Perdemos uma pessoa de passado glorioso, em defesa do tradicionalismo, da cultura.
Manoelito Savaris, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho:
Barbosa Lessa era um ícone. Foi nosso maior teórico, dando a base filosófica do MTG. Não há como substituí-lo.
Rudi Borghetti, ex-patrão do CTG 35:
Barbosa Lessa era o homem de maior expressão, o maior ideólogo do MTG, dotado de uma inteligência invulgar e uma antevisão extraordinária.
Eraci Rocha, presidente do Instituto Gaúcho da Tradição e Folclore:
Ele era uma das figuras mais importantes da nossa história, responsável por muito do nosso imaginário e pela auto-estima de sermos gaúchos.
Angélica Panatieri, diretora do Museu Histórico Farroupilha de Piratini:
Jamais esquecerei uma história de Barbosa Lessa. Ele disse que, quando era criança, brincava em frente ao busto de Bento Gonçalves em Piratini. Quando ficou sabendo que em Porto Alegre havia uma estátua em tamanho natural do líder farroupilha, não descansou até conhecê-la. Anos depois, foi estudar na Capital e saiu pelas ruas perguntando onde ficava a estátua, mas ficou desapontado, pois ninguém sabia informá-lo. Ao chegar ao local, aos pés de Bento Gonçalves, ele prometeu ao general que um dia todos saberiam quem ele era.


Capital farroupilha se despede de tradicionalista

Épico em qualquer cantinho de linguagem

CRIS GUTKOSKI

        Barbosa Lessa escrevia ficção desde os 10 anos de idade. Seu primeiro livro, Um Assassinato no Texas, 60 páginas datilografadas, começava assim: “Tom Derbey, proveniente de Austin, chegou à cidadezinha de Queler e logo torceu as rédeas do seu cavalo na direção do Joy Saloon”. Conta a lenda da sua iniciação na literatura que o irmão mais velho, Paulo, incentivou-o com um “vai em frente, tchezinho!” e sugeriu que ele substituísse os cowboys norte-americanos por heróis farroupilhas. Paulo guiou a curiosidade do irmão para a leitura de Almanaque do Rio Grande do Sul e para as rodas de causos do domador Donato no galpão.

        Nasceu deste respeito à história simultaneamente oral e impressa a obra caudalosa de Barbosa Lessa, cerca de 60 títulos lançados de 1951 a 2000, a maioria de não-ficção. Com o passar dos anos e com a consolidação de sua importância como agitador cultural, o ficcionista do romance Os Guaxos (1951) e da novela policial O Crime é um Caso de Marketing (1975) foi ficando menos importante do que o pesquisador e historiador de livros como Nativismo: um Fenômeno Social Gaúcho, Mão Gaúcha: Introdução ao Artesanato Sul-riograndense e Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo. Ser reconhecido só como folclorista angustiava Lessa, a ponto de ele comemorar, quando foi patrono da 46º Feira do Livro de Porto Alegre, em 2000, que “finalmente” o haviam reconhecido como escritor.

        Com o premiado Os Guaxos, os críticos costumam destacar na sua obra os títulos Rodeio dos Ventos (1975) e Era de Aré (1993). Um fascículo que mapeia bastante bem a biografia do escritor de Piratini morto ontem foi lançado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) em 2000. Neste exemplar, o jornalista e mestre em Letras pela PUCRS Leandro Sarmatz assinala que Rodeio dos Ventos e Era de Aré procuram recontar, em chave mítica, o passado latino-americano: “Lessa recolhe aquelas histórias dispersas na memória popular, mesclando-as com leituras históricas e lhes dá uma costura narrativa. (...) O autor reconta a história autóctone, compreendida aqui como núcleo formativo do Rio Grande do Sul, dotando-a de intensidade épica”.

        O tom épico, aliás, deliciava Lessa até na hora de escrever sobre colheitas de arroz. Uma de suas biografias romanceadas foi a do herói Garibaldi, lançada com o título Garibaldi Farroupilha. O guri fã de filmes de faroeste introduziu a bela Manuela nas cenas de luta e foi publicando a história como folhetim no jornal Última Hora, em 1965. Também apresentou na forma de história em quadrinhos Chica da Silva, Marília de Dirceu e Jacobina. Lessa tinha esse dom raro de mostrar o épico em qualquer cantinho ou linguagem, num xote e num copo de chifre ornado de prata, em qualquer saloon do Texas. Deixar uma lista de 56 títulos publicados, sem contar as canções e os CTGs, também foi basicamente épico.

NAS LIVRARIAS
De Barbosa Lessa:
• Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo (AGE)
• Missões Jesuítico-Guaranis, co-autoria (Editora Unisinos)
• Nheçu (Editora do Brasil)
• O Crime é um Caso de Marketing (Mercado Aberto)
• CD Coleção Palavra, com narração de Paixão Côrtes (Espaço Engenho e Arte)
Sobre Barbosa Lessa:
• Autores Gaúchos (IEL)

O VELHO LESSA
Antônio Augusto Fagundes
Piratini. O rio do peixe que faz barulho. Ali começou tudo. Ali terminou tudo. Ontem, segunda-feira. Ali, 72 anos atrás, nasceu um gurizinho miudinho como aquele seu parente que ficou famoso no conto Deve um Queijo, de Simões Lopes Neto. Os Lessa sempre foram muito respeitados!
O guri recebeu o nome de Luiz Carlos Barbosa Lessa e cedo revelou uma inteligência espantosa: fazia circo em casa, sapateava de pés descalços sobre cacos de vidro, cobrando entrada dos guris da vizinhança para exibir-se como O Homem dos Pés de Aço, batia com um lápis nos dentes, com o dedo tocando até o Hino Nacional, escrevia e desenhava histórias de vaqueiros do Texas, porque tinha verdadeira fascinação por cavaleiros nos seus grandes espaços abertos e eram essas histórias que ele via no cinema. Quando tirava uma melodia no violão ou na gaitinha de boca, era alguma coisa com gosto campeiro.
Um dia, mais crescidito, já morando em Pelotas, o irmão Paulo (que se revelaria uma sumidade no Direito e foi paraninfo da minha turma em 1964) o estimulou a escrever sobre os gaúchos. E a partir daí Barbosa Lessa deixou de lado os cavaleiros mascarados do Texas, os mexicanos bigodudos, os apaches e os índios da pradaria que encantavam seus sonhos. Quis conhecer os escritores que já haviam escrito antes sobre o gaúcho e a história da nossa terra.
Mudou-se para Porto Alegre para ler melhor as grandes bibliotecas. Fez-se amigo de Coelho de Souza, Othelo Rosa, Walter Spalding, Moisés Vellinho, Dante de Laitano e tantos outros, tornando-se íntimo, pelo conhecimento da leitura, de escritores como Pereira Coruja, Caldre e Fião, Apolinário Porto Alegre, Carlos Kozeritz, Roque Callage, Alcides Maya, Ramiro Barcelos e o grande João Simões Lopes Neto. Aos 16 anos, já publicava trabalhos nas revistas do Globo e Província de São Pedro.
Em setembro de 1946, Luiz Carlos Barbosa Lessa já sabia o que queria: estava na Praça da Alfândega com um caderninho na mão. Queria colher assinaturas para a fundação de uma associação tradicionalista. Ali vai encontrar um Piquete de Cavalarianos Gaúchos – oito rapazes vestidos corretamente, comandados por um taura bigodudo, com cheiro de fronteira chamado João Carlos Paixão Côrtes. Ali vai encontrar também o escoteiro graduado, bem conhecido como poeta gauchesco, um pé de vento, um furacão chamado Glaucus Saraiva. Pronto! Estava reunida a santíssima trindade do tradicionalismo.
O que o Rio Grande do Sul deve a esses homens não se paga com dinheiro: de lá para cá, todos sabem o que aconteceu e todos sabem que Lessa foi o leme firme desse grande barco. Paixão Côrtes está aí e estará sempre, porque já é estátua-símbolo de Porto Alegre. Glaucus encilhou o pingo e se foi bochinchar nos galpões do infinito. Lessa, agora, estendeu os arreios e foi sestear.
Piratini. Aqui tudo começou. Mas aqui tudo não termina.