extraído do jornal Zero Hora
Segundo Caderno - Cultura
28 de outubro de 2000
Redação de Tabajara Ruas
Fotos de Emílio Pedroso/ZH



extraído do jornal Zero Hora de 28/10/2000,
Segundo Caderno - Cultura



Uma dívida impagável

Por que o Rio Grande deve tanto ao escritor,
compositor e folclorista Barbosa Lessa, patrono da
46a Feira do Livro de Porto Alegre e um dos
mais autênticos intelectuais gaúchos



Tabajara Ruas
(escritor, autor de Perseguição a Juvêncio Gutierres e Netto Perde sua Alma)

O patrono da festa, Luiz Carlos Barbosa Lessa, 70 anos, vive e trabalha num sítio em Camaquã

Tem muito intelectual gaúcho que fica constrangido diante de umba bombacha. Tem muito intelectual gaúcho que fica cheio de dedos diante de um retrato de Bento Gonçalves. Tem muito intelectual gaúcho que não tem a menor idéia de quem foi Antônio Souza Netto. E tem muito intelectual gaucho, hoje - sim, nos dias de hoje - que ergue pose de superioridade para quem olhar para a história do Rio Grande do Sul.

Eu sei disso pela via prática: escrevi dois romances sobre o passado do Rio Grande do Sul. Quando publicava Os Varões Assinalados, em capítulos diários em Zero Hora, em 1985, descobri uma espécie de resistência secreta contra a natural e instintiva ação humana de olhar para o passado.

Primeiro foram os amigos, aflitos e cheios de boas intenções: "Sai dessa, cara, gauchismo não tá com nada!" e outras recomendações semelhantes.

Depois, uma surda ironia crescente, algumas até mesmo recheadas dessas expressões pedantes e vazias que permeiam as teses acadêmicas, alertando o escritor novato para o desperdício de seu talento (De alguma maneira isso me fez compreender Victor Hugo, que colocou em sua mesa de trabalho um cartaz, onde estava escrito: "A ignorância é atrevida").

Pois, na época em que escrevia o folhetim sobre a revolução farroupilha, Zero Hora publicou uma carta. "Vai em frente, Tabajara!", ela dizia, e quem assinava era Barbosa Lessa.

Confesso que sabia muito pouco ou quase nada sobre o autor do estímulo. Busquei na memória e me lembrei que tinha assistido em Uruguaiana à peça Nâo te assusta, Zacaria!. Lembrava da peça porque ela nos fazia rir e refletir sobre nós mesmos. E havia, claro, aquela encantadora música que era O Negrinho do Pastoreio.

Eu tinha passado 10 anos longe do Brasil e precisava me atualizar. Comecei a me informar sobre Barbosa Lessa, e o que descobri até hoje me assombra.

O assombro vem não tanto pelo tamanho de sua obra ou pela diversidade do seu talento. Barbosa Lessa não é apenas o precursor do nativismo no Estado, junto com Paixão Côrtes e uma pequena turma.

Barbosa Lessa é romancista, contista, dramaturgo, compositor, jornalista, radialista, pesquisador de folclore e história, roteirista de quadrinhos, executivo de teatro, cinema e televisão, dirignte cultural (transformar o Hotel Majestic em centro de cultura é idéia sua, embora não tenha visto seu nome nas várias placas comemorativas qe infestam o local), cultuvador de erva-mate e apreciador de filmes musicais.

- O melhor filme que eu vi foi Sete Noivas para Sete Irmãos - ele me disse uma vez.

Acho que foi aí que eu me rendi totalmente aos encantos do homem. Mas isso tudo não me causou assombo. E tampouco o assombro vem do fato de que, em todas as atividades onde militou, tenha deixado a marca do talento e da sensibilidade aguçada de artista sutil.

O que verdadeiramente me assomba em Barbosa Lessa é que ele é um raro exemplo do genuíno intelectual, o intelectual instintivo, esse monstro raro e execrado, que não se apóia em PhDs ou mestrados nem em citações intermináveis das idéias dos outros para justificar as suas próprias.


Barbosa Lessa estudou, pesquisou e trabalhou duro para dar consistência a idéias originais e polêmicas. Em 1947, quando ele iniciou o movimento cultural que marcaria para sempre o Rio Grande do Sul, o gênio de Erico Verissimo ainda não tinha produzido o Tempo e o Vento. Quem andava de bombacha em Porto Alegre era espancado nas ruas. Ser moderno era pertencer à geração Coca-cola.


Todos nós, rio-grandenses, devemos muito a Barbosa Lessa, mesmo os que torcem o nariz para o nativismo. Já pensaram que, se em vez dos CTGs, proliferasse por aqui outro fenômeno cultural, como o country, que assola São Paulo? Já pensaram o constrangimento de ter que explicar nossa gnte fantasiada de cowboy e cantando música de cowboy?

O que devemos a Barbosa Lessa não há homenagem que pague.