O fascículo da série
Autores Gaúchos que o IEL (Instituto Estadual do Livro) lança hoje tenta dar
conta da vasta atividade intelectual de Barbosa Lessa.
O patrono da 46ª Feira do
Livro de Porto Alegre costuma torcer o nariz quando reduzem ao rótulo de
“folclorista” todo o seu talento e trabalho em prol da divulgação da cultura
gaúcha.
Luiz Carlos Barbosa Lessa
está com 70 anos e escreve desde os 10. Datilógrafo mirim e leitor de O Globo
Juvenil por incentivo dos pais (ele médico, ela professora de música), seu
primeiro livro tinha 60 páginas grampeadas e o título de Um Assassinato no
Texas. O fascículo do IEL recorda em duas passagens a reviravolta definidora
de sua opção pela história local. Em Piratini, o menino Luiz Carlos mostrava
seus textos ao irmão mais velho, Paulo, e ouvia críticas à mania de só
escrever sobre cowboys dos Estados Unidos.
– Por que não escreves
sobre Piratini, sobre as proezas do domador Donato ou os heróis farroupilhas?
– quis saber Paulo.
Barbosa Lessa revidou,
admirado:
– Mas pode?
Podia, ainda que nos anos
30 o Estado Novo tivesse proibido até as bandeiras e os hinos estaduais. E com
tanto afinco ele se lançou à missão de arqueólogo da cultura sulista que a sua
bibliografia soma hoje 56 títulos. O primeiro romance, Os Guaxos, de 1959 (na
época, o escritor já havia se transferido para São Paulo, onde trabalhou por
20 anos em rádio, TV e publicidade), foi premiado pela Academia Brasileira de
Letras e elogiado por Jorge Amado.
– Eu recebi este elogio do
Jorge e saí todo bobo – contou Barbosa Lessa em uma entrevista ao professor
Luís Augusto Fischer concedida em setembro do ano passado.
Barbosa Lessa relembra sua
estréia como escritor e insiste no seu estilo espontâneo de composição. Diz
que se sente melhor quando escreve ficção baseado em história e refuta as
intenções de uma suposta ciência do folclore.
– Para mim, é o mesmo
trabalho escrever uma novela policial ou um livro regionalista – afirma.
No fascículo, Leandro
Sarmatz, mestre em Letras, assinala que o escritor é movido por ímpeto
pedagógico, mais do que artístico. Dezenas de fotografias ajudam a compor a
história privada do homenageado. Uma pena que um conteúdo tão esclarecedor
esteja embalado numa capa e contracapa tão desleixadas em época de incrementos
diários na programação visual.