extraído integralmente do jornal Zero Hora de 15/08/2000


FEIRA DO LIVRO

“Reconheceram que sou escritor”

CRL troca polêmica por consenso
Câmara Rio-grandense do Livro voltou atrás na idéia da votação popular. Barbosa Lessa será o patrono da Feira do Livro

CRIS GUTKOSKI

Barbosa Lessa soube que seria patrono da Feira do Livro por duas amigas que ouviram a novidade no rádio (foto Emílio Pedroso, Banco de Dados/ZH – 16/4/2000)

        O escritor, folclorista e compositor Luiz Carlos Barbosa Lessa é o patrono da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre.

        A escolha, anunciada ontem pela Câmara-Rio Grandense do Livro (CRL), deu fim melancólico à polêmica instaurada por uma tentativa inédita de nomear o patrono com o auxílio do voto popular, etapa que foi abortada diante da desistência de cinco escritores em participar da lista de 15 “patronáveis”.

        O presidente da Câmara, Paulo Flávio Ledur, manteve a elegância ao explicar o recuo da entidade, mas não pôde esconder a frustração. Ledur lembrou que ampliar o leque de votantes na escolha do patrono é uma reivindicação antiga dos setores ligados ao livro, que acabou sendo cumprida em parte este ano. Barbosa Lessa foi eleito por uma comissão de notáveis formada por 62 pessoas, das quais 48 registraram seu voto por escrito. Cada um dos “eleitores” podia dar voto a três nomes da lista de 15 escritores (ou 10, excluindo-se os desistentes). Segundo Ledur, Barbosa Lessa venceu com larga vantagem.

        A etapa que não vingou foi a que levaria três nomes de escritores – os três mais votados pela comissão de notáveis – a votação popular. Isso iria acontecer de hoje até 21 de setembro, mas a polêmica iniciada em 28 de julho pelo protesto do escritor Sergio Faraco contra a competição fez a Câmara voltar atrás.

        Ledur disse ontem que a Câmara reconheceu a crítica dos escritores ao suposto constrangimento que uma disputa poderia provocar.

        – Houve escritores que se sentiram ofendidos, e precisamos entender essas razões. Mas eu demonstraria mais confiança com o voto dos leitores – afirmou.

        Os três finalistas, explicou Ledur, receberiam farta divulgação de sua obra nos jornais, rádios e TVs ao longo de um mês, parecida com a que ganha o patrono, tradicionalmente. São essas vitrinas da mídia que hoje vendem livros, lembrou Ledur. Sem a democratização da escolha, a divulgação recai sobre um único nome.

        Nos bastidores, comenta-se que um grupo de escritores temia que a votação final se desse entre nomes como o best-seller Eduardo Bueno, o Peninha, e escritores com maior presença em jornais e rádios, como Walter Galvani, Ruy Carlos Ostermann e Martha Medeiros, o que tornaria a competição duríssima para os “sem mídia”. Mas Ostermann, por exemplo, desistiu de concorrer em solidariedade a Faraco, como o fizeram Tabajara Ruas, Armindo Trevisan e Mozart Pereira Soares.

        O contista Sérgio Faraco fez ontem elogios à escolha de Barbosa Lessa:

        – A mudança de critério significa que, felizmente, prevaleceu o bom senso nas decisões da Câmara do Livro. A indicação do Dr. Barbosa Lessa é inquestionável, ele é um grande nome na história de nossa cultura, responsável, inclusive, pelas bases sólidas que ela tem. Se eu fizesse parte do conselho que definiu os três últimos nomes, certamente teria votado nele, no Dr. Mozart e em Armindo Trevisan – comentou Faraco por e-mail, depois de uma entrevista por telefone em que declarou que não via necessidade de levar a escolha do patrono a votação popular. – É uma homenagem, não tem muito a ver – acredita.

        O jornalista e escritor Carlos Urbim (na lista dos patronáveis juntamente com Alcy Cheuiche, Charles Kiefer, João Gilberto Noll, José Clemente Pozenato e Rovílio Costa, além dos já citados) disse que abriria mão de competir se figurasse na lista tríplice com Barbosa Lessa, “uma escolha sensata”. Peninha também afirmou que estava feliz com a vitória de um de seus mestres devotados à preservação da memória gaúcha e brasileira.

        – Venceu o bom senso, eu tenho muitos livros do Barbosa Lessa. Só não acho que tenha sido justo punir a Câmara pela iniciativa totalmente bem-intencionada – disse Peninha, referindo-se à votação que não houve.


CRL troca polêmica por consenso

“Reconheceram que sou escritor”

        Barbosa Lessa está “feliz da vida” e surpreso com a escolha de seu nome para patrono da próxima Feira do Livro de Porto Alegre. Ontem à tarde, o escritor contou por telefone que soube da novidade por intermédio de duas amigas, que ouviram no rádio por volta das 11h. Curiosa essa comunicação informal para um posto tão importante. Porque no anúncio feito pela Câmara Rio-Grandense do Livro, às 10h, quando indagado se o novo patrono aceitava a homenagem – afinal houve quem recusasse participar da lista prévia de 15 nomes –, o presidente Paulo Flávio Ledur disse que Barbosa Lessa havia topado a incumbência e ficado “muito emocionado”.

        O escritor, folclorista e compositor gaúcho que nasceu em Piratini em 13 de dezembro de 1929 explica a sua surpresa recordando-se que a “inteligência oficial no Rio Grande do Sul, até hoje, tem prevenção quanto a temas regionais”, o cerne de sua vasta obra, de 59 títulos.

        – Vejo esta escolha para patrono como um reconhecimento de que eu sou escritor – diz, já acostumado a ser identificado como folclorista, como se este tipo de pesquisa fosse menor.

        Barbosa Lessa escreve artigos quinzenais para o caderno Cultura, de Zero Hora, e prepara a seqüência de Nheçu (Editora do Brasil), um volume paradidático de História do Rio Grande do Sul que ele autografou na feira do ano passado.

        O escritor mora num sítio em Camaquã com a mulher, Nilza. Formado em Direito pela UFRGS, foi fundador do CTG “35”. Compôs, entre várias outras, Negrinho do Pastoreio e Levanta, Gaúcho!. Foi repórter da Revista do Globo e também trabalhou com rádio, TV, teatro e cinema. É um dos idealizadores da Casa de Cultura Mario Quintana e foi secretário da Cultura no governo de Amaral de Souza.