UM ÉPICO NO MAPA DO CORAÇÃO
Barbosa Lessa insistia na disposição para a fraternidade e a liberdade ao fazer o mapa de Viagem pelo Rio Grande multicultural
RENATO DALTO
Jornalista. Em parceria com Barbosa Lessa, escreveu Missões Jesuítico-Guaranis (Editora da Unisinos, 1999) e Terra da Gente (Ceape-Ana Terra, 1998)
O vento acalmou e nunca tinha visto tanto beija-flor assim naquelas terras, próximas ao arroio Velhaco, nos campos de Camaquã. Alguma alma pura devia estar partindo para a Terra sem Males naquelas horas. Barbosa Lessa contou assim em Era de Aré: quando morrem as crianças guaranis, sua alma se deposita numa flor, depois vem o beija-flor e a leva no bico até a Tem sem Males. Naquele domingo de um calor intenso, era a alma dele que já devia estar ali. Depois, o silêncio entrecortado pelo galope dos potros na coxilha, o retoço da cachorrada, as éguas atadas na sombra das árvores pareciam compor um quadro onde se misturavam ternura, lembrança, dor. O Lessa já devia andar estrivado no vento, orvalhado nas flores, tramando alguma conversa com o matraquear das folhas.
Barbosa Lessa foi tudo aquilo que escreveu, mas a palavra é apenas uma parte de sua obra. Porque a obra não está nos livros, mas no homem. Lessa foi sua própria obra, na casa sempre de portas abertas, nos relatos, na minúcia dos fatos históricos, no contar, recontar, reler, construir a memória coletiva de um Estado que, para ele, poderia se resumir numa frase. Gostava de dizer que o mapa do Rio Grande do Sul tem a forma de um coração. Insistia em nossa tendência para a fraternidade, embora não se furtasse de descrever degolas e rivalidades resolvidas a sangue. Ele nos deu o mapa e a chave para seguir viagem por este Estado de imigrantes e pêlos-duros. Nos falou de origens, do fogo ancestral capaz de nos reunir em torno do mate, nas cantigas de roda, nas almas que partem carregadas pelo beija-flor.
A palavra, a geografia e talvez essas coisas inexplicáveis do destino nos aproximaram. A descoberta da obra foi há muito tempo, na pnmeira edição de Rodeio dos Ventos (co-edição RBS e Editora Globo, 1978). Lá estava Cabos Negros, o baio que só se deixou montar por João Batista, o escravo rebelde que só pensava na liberdade. A Gênesis Guarani contando que nascemos da comunhão das forças que regem a noite e o dia. O espanto do cachorro Pitoco ao deparar com a crueldade da cidade, a saga de Anaí.
Moro em Porto Alegre por contingência; continuo um fronteiriço desgarrado que só se acha campo afora e isso me obrigou a também buscar um refúgio nas proximidades de Camaquã. Tenho tendência a só me encontrar quando sigo para o Sul. Conheci o Lessa nessas lides jornalísticas de entrevistas, relatos, reportagens e daí nos tornamos próximos. Participamos, em parceria, de dois projetos. Conheci Água Grande, o pedaço de paraíso onde ele e dona Nilza abriam a casa e o coração a quem chegasse. Era ali que o Lessa redemoinhava em seu próprio centro.
E ele passeava naquelas matas com pés de erva-mate, mostrava o monjolo triturando as folhas movido pelas águas da cachoeira, comovia-se com os olhos mansos de Apolo, o cachorro que era filho de um graxaim. Dona Nilza se orgulhava de suas alquimias e receitas, entre elas os bolinhos de urtiga. E dos bálsamos que fazia para suavizar o sono das pessoas, seus travesseiros de macela e outras ervas medicinais. E havia as indicações de ervas redigidos pelo Lessa. E os temperos e cheiros bons da cozinha conjugado com a grande sala. No café da manhã na grande varanda, se avistava o paredão de mata de frente, os tons de verde se sucediam e o Lessa chuleava a bonança depois da chuva para ver o arco-íris. Em volta da casa, muitos bebedouros para o passaredo. E eles vinham, bebiam e partiam serenos.
Ali estava a obra. Bastava silenciar, observar e depois relatar. Porque um texto não nasce apenas do domínio da palavra, que pode ser apenas um disfarce. Nem na apropriação de um grande fato histórico, de um ato de bravura em uma batalha, em acordos de honra que vivem nos ludibriando numa saudade sem sentido de uma glória perdida. Pelas mãos do Lessa, bebemos em outras fontes. Ele nos ensinou: não somos heróicos por nossas hipérboles; somos do tamanho das coisas que o nosso coração consegue tocar.
Seguiremos, neste "mundo véio sem porteiras", como dizia o capitão Rodrigo Cambará, folheando, revendo, redescobrindo a obra de Barbosa Lessa. E vamos encontrar sempre novidades.
Uma história em quadrinhos, um caso policial ligado ao marketing, um relato infantil, uma recontagem da formação do Rio Grande. No contato pessoal, ele também era um homem sempre revelando outras facetas. Foi um esteio para o Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas desde 1959 havia parado de tomar chimarrão. Estava fazendo uma pesquisa no Rio Grande do Norte, a erva-mate terminou e, sem o chimarrão, teve dor de cabeça e outros embaraços. Decidiu então eliminar o mate da rotina, para não atrapalhar as pesquisas. Nessa época, andava pelo país pesquisando o folclore, esse costume que nunca abandonou. Sempre tive a desconfiança de que tudo isso era um pretexto para o Lessa conhecer mais gente, estabelecer mais laços, abrir mais possibilidades de encontros e afetos.
Era comum ele conceder uma entrevista e depois pedir telefone e endereço do entrevistador. E não era raro que telefonasse depois. Gostava de fazer visitas e receber pessoas. Mantinha sempre um pé no paraíso de Água Grande e outro no mundo. E fazia questão de manter uma espécie de convite permanente para que os visitassem (ele e dona Nilza) no refúgio ao pé da Serra do Herval.
Na obra também está esse fascínio pelos encontros. Nos relatos, há sempre a figura humana no centro da ação. Os fatos têm nome, sobrenome, origem e sentimento. O fogo não é apenas o crepitar da labareda no cerne da lenha. Como Francisco, santificado na simplicidade, o fogo é irmão. No fulgor da chama, o guri se torna homem ouvindo e entendendo a si mesmo. É a bela descrição de Lessa sobre um ritual dos guaranis, a passagem de um jovem à maturidade. Primeiro, ele vem de longe até a roda do fogo onde os mais velhos falam. Depois, vai se aproximando aos poucos, até o centro, sempre ouvindo e silenciando. Ninguém saberá com precisão quando este menino se tornará homem. Somente ele, ao ouvir sua voz interior, identificará a plenitude da maturidade. Agora é um homem: aprendeu a escutar.
Era preciso ter tempo e discernimento para escutar o Lessa falando. Porque era um homem cheio de pausas e lembranças. Não era a fala a serviço do verbo. Era o verbo sorvido pelo relato no seu tempo certo, essa medida entre falar e silenciar. Atahualpa Yupanqui costumava contar a história de um camponês. Parado, campo ermo à frente, de costas para a montanha, ele canta. Chega então um viajante e, ao perceber o forasteiro, o camponês silencia. Ouve então o pedido do recém-chegado para continuar cantando. Então-responde: "0 senhor não deve escutar o meu canto, mas o canto da montanha, que é muito mais bonito do que o meu."
As melhores canções e relatos são aqueles que levamos pelo resto da vida. Jamais esquecerei Cabos Negros. Não propriamente a ficção, mas o que ela suscita. Sou um homem dos cavalos e as duas primeiras éguas crioulas que tive têm uma pelagem: são baias cabos negros. São dóceis, mas de temperamento brioso. Há algo ancestral nelas, como se avisassem que nasceram para a liberdade. A rédea e o arreio são concessões, não submissão.
Todo o cavalo é como Cabos Negros e todos nós somos um pouco como o escravo João Batista: o ferro do feitor nos faz muitas vezes trabalhar contrariados, mas um dia vamos espatifar essas correntes e partir. É o velho sonho da liberdade guardada em segredo. E disso tem se ocupado a espécie humana desde que se descobriu, neste planeta, que um ser pode dominar o outro, embora o Lessa insista na contramão. Para ele, nascemos para a fraternidade e a liberdade. E um dia saberemos a hora de partir e nos encontrar.
O vento que soprava naquele domingo é agora brisa da lembrança. Mas ainda guardo seus sinais. O galpão rescende a cheiro de couro, arreios, suor de cavalos e o azul empina serenidade no céu. Guardei o trajeto de cada beija-flor. Um deles foi nas flores perto do cocho onde os cavalos bebem água. Outros voaram próximos a umas pitangueiras e teve um deles que chegou muito perto na hora do mate em frente à casa. As almas puras estavam partindo naquele momento, deixando um rastro de ternura, um incomodo na memória, uma saudade que só vai aplacar quando enxergarmos as coisas com outros olhos. Uma criatura vai embora mas deixa sua obra, as palavras transmutadas nos cantos, nas matas, nos cavalos, nas vozes de quem fica. Lessa nos deixa uma obra aberta. A obra que ele mesmo foi muito além da palavra. E o coração agradece por isso.
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