extraído do jornal
Zero Hora
Caderno de Cultura
16/03/2002




Colunas

Barbosa Lessa foi colunista do caderno Cultura de janeiro de 1995 a janeiro de 2002. "Como se fundou Montevidéu" foi sua última crônica, publicado em 12 de janeiro. Leia a seguir trechos das colunas do escritor em ZH ao longo desses sete anos:


"Até o nome, guarani, era bonito. Era e é. Piratini. Quando o sol batia na coxilha, a vila resplandecia como um presépio antigo. Quando o som batia no ouvido, a alma da gente ia se reencontrar com os primitivos índios da região. Dezembro de 1929. Meus pais moravam numa chácara perto da Vila. Já se acendia o lampião, na saleta, quando minha mãe começou a sentir os primeiros sinais. Meu pai não perdeu tempo e gritou ao cria-da-casa. "Antônio, monta a cavalo e vai ligeiro avisar a Dona Pura". Pouco depois chegava dona Pura Amaral, confiante como sempre. E naquela noite nasci eu. (...) Hoje moro numa propriedade que nem chácara é. Um pedaço de mato, simplesmente. Mas vivo feliz convivendo com a capivara, o cateto, o coati, o gambá, o graxaim, jaguatirica e preá, tatu e até tamanduá. E adoçando minha boca com guabiju e araçá."
1o de abril de 1995


"Comunicação é o jeito pelo qual um ente, um vivente qualquer, se dá forma e se acomoda com o ambiente, para poder guapear e viver. Ou o jeito pelo qual um qüera que veio ao mundo solito e desgarrado, chega a se entropilhar num magote maior - a família - ou vira banana de um cacho ainda maior - o grupo local - ou se entrevera no rodeio grande chamado de sociedade. Não mal comparando, comunicação é que nem um tiro de laço. De um lado se posta o laçador - que, pra o causo, se chama emissor. Os tentos que se trançaram formam o laço - que, pra o causo, é chamado meio; e por esse laço, desde a presilha até a argola, escorrega uma força que se chama informação. Do outro lado, se cuidando do laçador, está o terneiro ou potrilho - o receptor. Atirado o laço, e acertando, deu-se a comunicação. Se, em vez do campeiro e do animalzito, são duas pessoas se comunicando, ainda carece mais uma coisa: a mensagem. Quer dizer, uma mãozada de sinais que troteiam pelo meio afora levando um chasque, um recado. Para que a comunicação dê certo, é preciso que os índios das duas pontas usem de um mesmo código, de um mesmo jeito de falar, de um conjunto de sinais que represente a mesma coisa para um e para o outro. Se não, vira engrolação de doido."
13 de maio de 1995


"Não mais os 18 bisonhos e esparramados redutos de antes, mas sete fortes cidades concentradas apenas na área do Ijuí e com proximidade bastante para se prestarem mútuo socorro em caso de necessidade. Cidades lindas - com Catedral, Cabildo administrativo, praça, edificios, quartéis - e uma população feliz cantando nos corais litúrgicos e contando com religioso suprimento diário de carne bovina e erva-mate. Ainda hoje a gente tem a tendência de imaginar o território dos Sete Povos circunscrito à área das sete cidades vizinhas, de onde emanavam os poderes espirituais e administrativos dos Curas e Cabildos. Mas, na verdade, a posse efetiva da terra chegou até onde, houvesse boas pastagens para a criação de gado e viçosos ervais nativos para a colheita do mate."
6 de abril de 1996


"Pode ser muito agradável, hoje, desfilar em homenagem à Revolução Farroupilha e reverenciar heróis como Bento Gonçalves, Davi Canabarro e José Manoel de Leão. Mas, para os que viveram aquele sangrento decênio, foi um sufoco terrível. Estancieiros que se desfaziam de parte de suas terras para custear, por puro idealismo, as despesas de um esquadrão de cavalaria. Chefes de família empurrados para prisões do Rio de Janeiro e da Bahia. Pilhas de mortos e feridos. Com a assinatura da paz de Poncho Verde, caíram todos numa dura realidade. Em Triunfo, olhando a casa em que havia nascido Bento Gonçalves, o pessoal evocava toda uma vida de luta e se indagava: "Para quê?". Olhando para a outra margem do Jacuí, na tapera das Charqueadas, esse mesmo pessoal se lembrava do coronel Leão morrendo numa emboscada e deixando o filho José Joaquim meio aos deus-dará. Continuar assim, não dava. Cumpria descortinar novos rumos. Mas quais?"
9 de janeiro de 1999


"Nem bem retomou da Itália, onde fora observar de perto a nova técnica de plantio do 'arroz do molhado' ou 'arroz do banhado', em 1907, o fazendeiro pelotense Pedro Osório viu imediata e nova aplicação para as águas do Rio São Gonçalo, em sua Granja do Cascalho. Ainda com a força de bois puxando arado, abriu na várzea as longas canaletas por onde se espalharia a irrigação. Mas, para puxar a água do rio, desde logo apelou para um motor elétrico, marca Lanz, de 60 cavalos de força. E, com a força de modernos locomóveis, garantiu a cobertura dos terrenos onde fora espalhando as sementes do "japonês" e do "agulha" trazidas da Itália. Esperava uma colheita sensacional, mas, no fim, deu a mesma proporção de 4 por 1 habitual do 'arroz do seco'. O que teria acontecido de errado? Só poderia ter sido culpa dele mesmo, um ignorantão nos assuntos de eletricidade e mecânica."
13 de maio de 2000


"A campanha eleitoral de 1907 trouxe uma linda novidade: em vez de continuar sendo tramada nas rodas de chimarrão e na conversa ao pé do ouvido dos eleitores, ganhou as praças públicas através de calorosos meetings (comícios). Pela primeira vez foram vistas caravanas' percorrendo cidades e vilas - servindo-se principalmente das,rotas da viação férrea."
6 de janeiro de 2001


"Para não me enredar nas encruzilhadas, sempre que vou escrever algo sobre o Rio Grande do Sul, eu começo olhando o Rio Ibicuí e me venho pelo Jacuí afoara até a beira do Guaíba. Esse é o Corredor Central, por onde entrou um dia o padre Roque Gonzales na primeira tentativa de nos integrar ao mundo civilizado. Em etapas subseqüentes surgiram os paulistas, açorianos, alemães, italianos, até enfeitarem o Rio Grande inteiro com as luzes da vibração e do progresso. Mas o pessoal do Corredor Central nunca se atirou nas cordas e, ainda hoje, me admiro da maneira comedida, sem bravatas nem estardalhaço, com que contribuem para o sucesso de qualquer empreendimento valioso. Tiro o chapéu para meus conterrâneos de ltaqui, São Francisco de Assis, Cacequi, Santa Maria, Cachoeira, Rio Pardo, Santo Amaro, São Jerônimo, Arroio dos Ratos, Triunfo e circunvizinhanças. Que gente buena!"
24 de fevereiro de 2001



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