extraído da revista VOX
novembro de 2000
revista gentilmente enviada por Elizabeth Kasper
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extraído da revista VOX novembro/2000 Reportagem de Rosina Duarte Fotos de Walter Fagundes revista gentilmente enviada por Elizabeth Kasper A Vox é uma produção do IEL - Instituto Estadual do Livro e pode ser visitado em www.corag.rs.gov.br |
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Junto com um bando de interioranos desgarrados na capital, Barbosa Lessa desbravou o folclore do Rio Grande do Sul, até então quase desconhecido no pais e mesmo na capital do Estado. Ajudou a domar o preconceito às tradições campeiras, pealou os bailados populares atocaiados nos rincões perdidos, arrebanhou lendas, costumes, poemas, receitas, ditos populares, contou e recontou "causos", traduzindo-os para a linguagem literátia, e foi um dos semeadores dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), que hoje se espalham por todo o Brasil e muitos países do exterior. As andanças pelo mundo da intelectualidade o exilaram na capital paulista por duas décadas mas nunca arrancaram suas raízes. Nascido na cidade histórica de Piratini, em 13 de dezembro de 1929, Barbosa Lessa é um legítimo filho da terra. Vive no distrito de Água Grande, em Camaquã, há 13 anos, com a companheira de quase quatro décadas, Nilza Lessa, com quem teve dois filhos - Guilhenne e Valéria. A modesta casa pré-fabricada decorada com um imenso mapa do Rio Grande do Sul e quadros & cenas gaúchas - foi construída em um casulo de mata virgem, no coração da Serra do Erval. Apenas o arrulhar dos pássaros e o cascatear das duas cachoeiras quebram o silêncio desse retalho & paraíso. Quando chegou, Barbosa pensava em criar peixes, mas o casal acabou optando pelas ervas medicinais, que vicejam em abundância na região. Os Lessa catalogaram 110 espécies - 40 delas comerciahzadas. Com as plantas, confeccionam também travesseiros artesanais. Nilza é a "empresária" da família mas a redação das receitas fica a cargo do marido. Nem cuia nem bomba Mas se engana quem imagina Barbosa Lessa como uma estampa de gaúcho. É verdade que tem a fala mansa, olhar que busca horizontes largos e um apreço especial por mogango com leite. A pilcha, no entanto, não é a sua segunda pele. Prefere um terno leve - mais fácil de carregar na bagagem - e uma boina tecida à mão. Também guarda um quase segredo: não toma chimarrão. "Nos anos 50 viajei para Natal e minha erva terminou. Fiquei doente, com prisão de ventre e uma terrível dor de cabeça", justifica-se. Depois disso, mate só por cortesia. Do cigarro, porém, ainda não conseguiu se livrar, confessa. Sua deserção não atingiu os hábitos familiares. Os Lessa sâo, inclusive, produtores de uma erva-mate artesanal, cozida e moída à moda antiga no barbaquá (forno) e no monjolo (moinho). Os netos Kyle (que Barbosa chama Calo), de três anos, e André, de um, também já se ensaiam no hábito de chimarrear, sob o olhar orgulhoso do avô. A pouca idade dos meninos já seria suficiente para surpreender, mas acrescente-se aí o fato de que ambos nasceram nos Estados Unidos, onde mora a filha Valéria. Até mesmo o genro, Glenn, que mal balbucia o português, já se habituou ao mate amargo e veste pilchla quando viaja. Embora transpire coerência, nada parece óbvio em Barbosa Lessa. É homem de muitas surpresas. Uma delas é o instrumento musical que executa: o lápis. "Quando era criança vi um gaúcho fazendo isso e fiquei fascinado. Hoje acho que sou o único do país a tocar lápis", gaba-se, ajustando-o entre os dentes e arrancando os acordes iniciais do Hino Nacional através de uma combinação de sopro e percussão. O bom ouvido musical, ele deve à mãe, Alda, que o ensinou a tocar piano, além das primeiras letras, contas e datilografia. O pai, Luis Lessa, era médico e, pensando em garantir um futuro tranqüilo para o filho, exigiu-lhe um diploma. Barbosa o satisfez ao concluir o curso de Direito, embora não tenha exercido a profissão um dia sequer.
Por esta época, o jovem Luiz Carlos já tinha sepultado o sonho de ser peão e desempenhava com destreza as lidas literárias na imprensa de Porto Alegre. Precoce, começou a carreira de pesquisador e jornalista entre os 12 e 13 anos, quando fundou o periódico O Gonzaguiano e começou a colecionar o Almanaque do Rio Grande do Sul. Ao longo dos anos, incurslonou por jornais, revistas, rádios e televisões gaúchas ou paulistas, registrando rápidas passagens pelo cinema. Juramento solene Embora carregasse o gosto pelas coisas da terra marcado a ferro e fogo na alma desde os tempos em que queria partilhar a vida com a peonada, foi como estudante do colégio Júlio de Castilhos - na capital do Estado - que emergiu o folclorista. "Na época, o pessoal do interior era marginalizado e tratado como grosso", recorda. A capital renegava suas origens. Admirador de Bento Gonçalves, Barbosa Lessa custou a encontrar quem lhe indicasse onde ficava o monumento do comandante farroupilha. "Quando consegui locallzá-lo, jurei ao Bento que traria os alunos do Jullnho até ele". Anos mais tarde, o colégio - que ficava na primeira quadra da João Pessoa e foi destruído em um incêndio - seria reerguido na vizinhança da estátua. O preconceito não se manifestava apenas no desconhecimento e na chacota. "Em 1946, um peão de Bagé foi linchado porque ousou atravessar a Praça da Alfândega pilchado", recorda Barbosa. Um ano depois, um grupo de alunos - entre eles Paixão Cortes - fundou o Departamento de Tradições Gaúchas do Grêmio Estudantil, que seria a semente do primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o CTG 35, primogênito de uma imensa prole disseminada até pelo exterior. Barbosa logo se incorporou ao time de rapazes, que se reunia para matear, trovar e declamar. "Nós queríamos ser respeitados mas nunca fomos rebeldes. Ao contrário: procurávamos ser aceitos pela cortesia, para provar que não éramos grossos", faz questão de salientar. Para o escritor, este caráter hospitaleiro (que acabou virando uma espécie de grife gaúcha) foi fundamental para garantir a sobrevivência e a longevidade do movimento que, até hoje, segue crescendo. Ainda não havia um repertório de músicas e danças gaúchas e, por isso, tampouco era possível acomodar as "prendas". "Fogo de chão sempre foi reduto de homens", explica Barbosa. Durante uma viagem a Montevidéu, ao presenciar os bailados de pares, ele e Paixão se deram conta de que esta era a forma de atrair as irmãs, primas e namoradas.
Quebra-cabeça De volta ao Brasil, os dois amigos se lançaram à tarefa de desentocar as danças populares autênticas, guardadas a sete chaves nas cornunidades perdidas pelo imenso Rio Grande. Como ambos já trabalhavam - Barbosa na Revista do Globo e Paixão na Secretaria da Agácultura -, sacrificavam os fins de semana e as férias percorrendo o Estado. "Eu tinha bom ouvido musical e gravava as músicas na cabeça, mas Paixão precisava levar um gravador tão grande, que tinha que pagar passagem para carregá-lo no banco ao lado", diverte-se. A primeira descoberta foi a dança do Pezinho, ensinada por uma menina em uma festa de casamento na cidade de Palmares do Sul. "Era dançada como cantiga de roda, recorda o pesquisador. Ao cabo de dois anos, a dupla havia catalogado cacos de 20 músicas e coreografia, geralmente confidenciadas por velhas senhoras. Os fragmentos foram remontados como um quebra-cabeça e compuseram o livro Manual de danças gaúchas. Para divulgá-lo e transformá-lo em disco (gravado pela então estrela do rádio lnesita Barroso), Barbosa migrou para São Paulo. Lá, para sobreviver, trabalhou na TV Record. E foi com os próprios colegas paulistas que montou a comédia musical Não te assusta, Zacaria, recheada de danças gaáchas. O espetáculo fez sucesso e, mais tarde, foi encenado em Porto Alegre e no interior, com Paixão Cortes de protagonista. Ainda em São Paulo, escreveu o romance Os guaxos, premiado pela Academia Brasileira de Letras. A despeito da distinção e do sucesso alcançado entre os pauüstas, foi lançado em Porto Alegre com a presença de apenas cinco pessoas na fila de autógrafos. "Entre estes escassos fãs estava uma morena mui linda que eu tinha conhecido em um Congresso Tradicionalista." Era Nllza. Poucos meses depois estavam casados. Terra sem males Os Lessa voltaram ao sul nos anos 80. Barbosa saiu, então, em busca da sua "Terra sem Males". "Depois de vinte anos morando no centro de São Paulo, eu precisava desintoxicar", brinca. Queria água e mato por perto mas o sonho, aparentemente tão simples, foi difícil de concretizar. Quando finalmente chegou a pé ao local (não havia estradas), soube, com surpresa, que a terra lindeira havia pertencido a um excêntrico tio-avô que causava escândalo na família por seguir a doutrina de Alan Kardec. "Acho que este avozinho espírita me chamou", sorri. De facão em punho, o próprio Barbosa ajudou a abrir a clareira exata para a construção da casa e do escritório feito em tronco de eucalipto. A vinda da água, da luz e do telefone foi uma saga. Até hoje o acesso é difícil, principalmente em dias de enxurrada, quando a água dos arroios invade a estrada. Mas não são tais dificuldades que atualmente fazem Barbosa cogitar uma mudança para a cidade "Preciso manter dois celulares, um carro e um motodsta e isso tudo está se tornando muito caro para um jornalista aposentado", lamenta. Enquanto a mudança não acontece, o escritor desfruta o seu refúgio, transitando pela natureza, a casa famiiar e o escritório anexo, onde aninha três mil livros, alguns deles caríssimos. Ali passa grande parte do tempo, pesquisando, fazendo anotações manuais com canetas de cores diferentes e escrevendo crônicas - dedilhadas na inseparável Olivetti - para os jomais Zero Hora e Extra-Classe. Esta é sua rotina pelas manhãs e tardes, quando não está fora para proferir palestras ou ser homenageado. Barbosa também alinhava um ensaio sobre duas personagens quase desconhecidas mas consideradas por ele como pioneiras da estirpe gaúcha: as irmãs Lucrécia e Beatriz. Há momentos, porém, em que fica apenas sentado olhando pela janela de sua cabana de costaneira. Dali se enxerga a mata virgem e o acampamento dos índios Guaranis, que costumam recolher sua provisões na propriedade dos Lessa transfonnada em uma espécie de entreposto da Fundação Nacional do Índio (Funai). Com os sinais da civilização distantes, o tempo parece retroceder e Barbosa se revela. É um desbravador. Da cultura e da terra.
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