Luiz Carlos Barbosa Lessa
Porteira Aberta



1939. Eu, nove anos de idade. Antes, meu pai tinha morado numa chácara; perto; mas agora a gente estava na cidade. Quer dizer, cidade mesmo não era. De verdade, uma vila. Na fronteira com os castelhanos. Tinha a praça, a rua principal, o clube, a prefeitura, o quartel, a igreja e a aldeia. Esse era o nome bonito que se havia dado a uma coisa feia: o amontoado de biongos do pobrerio. Ranchinhos humildes, famílias que vinham sendo despacito enxotadas do campo.

A gente chamava de campeiro a quem morava no campo e lidava a cavalo; mas os castelhanos chamavam de paissano. Gente buena, essa. Eu gostava. O velho Eusébio Manco, então, sabia contar cada causo! Só vendo. Só ouvindo.

Meus primos, que eram campeiros, seguido falavam no pago e davam muita importância aos pagos. De princípio custei a entender. Mais tarde cheguei a pensar que era o mesmo que distrito, pedaço administrativo do município; e só bem mais tarde atinei que não tinha nada a ver com a prefeitura e tinha muito a ver com o coração. Pago era o pedaço de chão onde a gente morava, com os vizinhos, e se delimitava pelos cascos do cavalo: seu limite alcançavam até onde a gente podia ir e voltar pra casa no mesmo dia, sem precisão de pousar fora. Os vizinhos de um mesmo pago tinham muita obrigação de se ajudarem. Ninguém vivia solito.

Mas por aquela época do princípio o Doutor Orlando comprou um automóvel; foi o primeiro; depois, uns outros poucos foram comprando; famosa foi a barata do filho de Seu Júlio Bica; e com tudo isso a idéia de pago foi se demundando e mermando, num só dia o vivente podia "galopar" até mui longe e voltar: e o mais pior era ver gente desconhecida atravessando a estrada, levantando poeira no corredor, cortando campo, apeando no terreiro mui sim-senhor e indo embora com pose de povoeiro. Os tempos começavam a ser outros. Pra quemtinha nascido e passado a vida inteira a cavalo, não foi nada bom.

Não mal comparando, o rádio também foi um automóvel que rompeu os limites da querência. A Dona Querubina tinha um. Eu vi. Eu escutei. Ela de noite acompanhava as novelas; ou, pela Rádio Municipal de Buenos Aires, se encantava com as óperas diretamente do Teatro Cólon. E a qualquer hora do dia ficava sabendo das notícias de longe, do Rio de Janeiro, do Getúlio.

O Getúlio - esse era mui falado. Só mais tarde vim a saber que, dois anos antes de 39, ele havia dado o golpe do Estado Novo. Para garantir a unidade e integridadedo Brasil, ele havia mandado queimar em praça pública todas as bandeiras dos estados e mandado que dessem sumiço a todos os livros que, nas escolas, ensinavam professores e alunos a conhecer a História, a Geografia e a Tradição de seu Pago. Até aí, não havia escola que não seguisse a Chronologia da história riograndense, de A.C. Lima, e as Ephemerides riograndenses, de Clemenciano Basnasque. (Preste atenção: riograndenses). Mas, tal como a bandeira rio-grandense, esses livros tinham sido obrigados a desaparecer.

Nós, a gurizada de Boa Ventura, também tínhamos nossa espécie de pago: era a própria Boa Ventura, inteirinha. De ponta a ponta das ruas a gente conhecia todos os garotos que viviam nela; podia até não se saber direito o nome de cada um, mas mesmo assim a turma era mui unida. Nas brincadeiras de rua e no Grupo Escolar.

As brincadeiras incluíam montar em petiço, correr carreira, tomar banho no arroio, pescar lambari, campear ninho de tico-tico, soltar pandorga, jogar pião e bolinha-de-unha, pular corda, pealar pinto com boleadeira-de-sabugo, tropear gadinho-de-osso e até cantar com as gurias nos brinquedos-de-roda. "Passa, passa, passará, quem de trás ficará, a porteira está aberta para quem quisé passá." As gurias gostavam que os guris também brincassem com elas. Só que... não podia ser "boca-suja".

Desde cedo a gente aprendia que a palavra tinha sido um dom só concedido aos homens, e não aos bichos, e que um homem de verdade não podia achincalhar a si próprio, e aos outros, achincalhando a fala dele. Mentira, nome-feio, bagaceirada, a agressão - jamais. Cordialidade, com alma forte e coração sereno - sempre.

Entretido com a rua, quase eu ia me esquecendo do Grupo Escolar. Cada um levava pras aulas a sua "pedra" ou lousa, que escrevia e apagava e ia passando dos mais velhos para os irmãos mais novos sem botar fora o dinheiro dos pais. as quatro operações, a tabuada. Ve-o, vo, ve-o, vo: vovô. E o gostoso dos ensaios para o festival de encerramento do ano letivo: conforme a queda de cada um, a professora ensinava a tocar, a cantar, a dançar, a declamar poesia. Que lindeza!

Mas bueno, estpa na hora de falar mais precisamente sobre as gentes de Boa Ventura. Tinha o filho da Dona Marcolina, Lilico; às vezes eu ajudava ele, com o Manequinho, a trazer água do algibe do Seu Jardim, em latas de querosene. Tinha as filhas da Dona Querubina - aquela rica, aquela que ouvia o rádio. Tinha os filhos da Siá Gertrudes, a benzedeira. Tinha, já rapazotes, os filhos da Dona Fausta, mulher do bolicheiro Capitão Fagundes ("capitão" da revolução, não mais que isso). Tinha os guris que, embora pequenos, da minha idade, já trabalhavam como gente grande: um, montado num burro-chorro, vendia lenha, e outro, de balaio, vendia laranja a dez mil-réis o cento.

Tinha os quatro guris do João Biga, limpador de latrinas e capinador de quintais; mas a gente nunca foi capaz de desrespeitar eles só por causa que o pai mexia com cocô. Tinha o Piá, afilhado do COronel Ramiro, o manda-chuva de toda aquela fronteira; até que poderia ser posudo, mas não; a função de todo dia cevar mate pro padrinho ensinara-o a ser humilde, da mesma iguala, cordial; buenacho barbaridade!

Tinha os filhos da Dona Maria José; além das duas já moças, da minha faixa de idade eram a Picucha, a Aurora e o Lelo; nunca consegui entender por que, sendo táo pobres e moradores da aldeira, eram primos dos filhos da Dona Querubina, a ricaça; o Lelo nos dizia que tinha muita saudade da vida campeira, de andar à toa a cavalo, de manguear as vacas mansas de manhãzinha e ao fim da tarde. O pai de Lelo, o Seu João Guedes, arrendava um campo até o dia em que o Seu Júlio Bica chegou pra ele e disse: "Acabo de comprar do Bentinho este campo, pra engordar boi em final de safra. O quanto antes, mude-se!" E terminou se mudando para aldeia.

Vez por outra minha mãe precisava me mandar de noite a comprar alguma coisa no bolicho do Capitão Fagundes e lá eu sempre encontrava o João Guedes, esse. Encostado mui triste no balcão, a beber cachaça junto como João Biga, o Quevedo e o bolicheiro - cada um deles a relembrar o tempo de dantes. "E balançavam em silêncio as cabeças tontas, penalizados de si mesmos e do mundo que era outro. Mas em breve um menos entorpecido destorcia a língua, reavivando as lembranças. E aqueles homens estropiados assanhavam-se por instantes, sofregos por reviver cada qual as suas façanhas, as caras como que incendiadas por uma labareda".

Quem contou a história toda, em palavras como essas recém-escritas, foi o romancista Cyro Martins, em 1944, quando Porteira fechada impactantemente desvendou para os rio-grandenses a nova realidade social da campanha. Eu li o livro no ano seguinte, aos quinze anos de idade, já morando em Porto Alegre, cursando o noturno do COlégio Estadual Júlio de Castilhos e meio que procurando emprego (finalmente conseguido como revisor da Revista do Globo). Comovi-me quando João Guedes teve de vender su último cavalo, um mouro macanudo. "Depois saiu a passos trôpegos, levando os seus arreios de campeiro para vender ao primeiro que lhe desse vinte ou trinta mil-réis. Cortava assim o último tento que o prendia à vida passada. Curvava-se à fatalidade, cedendo a um desígnio doloroso de Gaúcho a Pé."

Só que, em Porteira fechada, Cyro Martins precisou se ater exclusivamente à tragédia dos adultos e não pode desenvolver também a saga do Guri a Pé. Esta tocou para nós mesmos escrever. Ao vivo e a cores.

O futuro se nos apresentava, parece, com duas únicas alternativas ou modelos. De um lado, o modeo do almofadinha motorizado, do filhinho-de-papi sem ocupação alguma - tão bem caracterizado na personalidade de Hélio Bica. "Esportivamente trajado, com o espcoço livre, um casaco de couro, umas calças de flanela e uns sapatões grossos." Ele zunia com sua barata pelas ruas de Boa Ventura, de escapamento aberto, pouco se incomodando com os ouvidos dos outros. "Nunca tinha pensado seriamente na necessidade alheia. A vida era tão boa, o mundo tão divertido!" Mas a outra perspectiva nos agradava ainda menos, por sombria. João Guedes roubando ovelha para matar a fome da família, João Guedes na cadeia, João Guedes se suicidando, nõs no velório e no enterro, depois o triste retorno para o biongo. "Lelo, de cócoras, assoprava, tentando prender fogo com uns gravetos molhados. As filhas tiritavam empoeiradas num catre. Tinham no olhar - um olhar fundo, parado, interrogativo - a expressão aflita de todas as crianças maltratadas."

Na pensão de estudantes da Rua Marechal Floriano, à descida da Duqeu de Caxias, reuníamo-nos sempre que possível o Ariosto, o Aurélio, o Krieger e eu. Uma cena mutíssimo semelhante à do João Guedes, do Quevedo, do João Biga e do Capitão Fagundes se encharcando de canha no bolicho; mas também mui diferente, porque éramos quatro adolescentes e, em vez de canha, era o mate. A erva, especial, vinha diretamente de Venãncio Aires, o pago do Ariosto. O Aurélio era catarinense de Caçador (e terminou indo parar em Cascavel e Paranavaí, no Paraná). De São Luiz Gonzaga era o Krieger; um missioneiro, portanto. Eu sentia orgulho de ser natural de Piratini, a histórica capital farroupilha. Mas, embora provenientes de regiões tão distantes entre si, vínhamos de uma mesma sociedade campeira. Éramos moços "do interior". E, além disso, pertencíamos à, então, chamada Geração Coa-Cola...

Não era nada fácil agüentar a barra como moço "do interior".

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, já explicou direitinho os efeitos sociológicos de termos tido nossa formação burocrático-administrativa a partir de São Vicente, Salvador, São Luís do Maranhão, Florianópolis, Laguna, Porto Alegre e outros portos assim. Disse ele: "A influência da colonização litorânea ainda persiste até nossos dias. Quando hoje se fala em interior, pensa-se, como no século 16, em região escassamente povoada e escassamente atingida pela cultura urbana." Tal preconceito era sentido na própria pele por nós quatro e por tantos outros que, tangidos por circunstâncias várias, pedíamos pouso nessa outra "aldeia". Em Porto Alegre sentíamo-nos semi-marginalizados, ao lado do negro, do homossexual e da prostituta. Só que a prostituta, o homossexual e o negro podiam transitar livremente pela Rua da Praia; mas um "grosso", trajado de botas e bombachas, à campeira, seria inapelavelmente alvo de agressivas chacotas. E mesmo pagando entrada, como os demais, um "bombachudo" seria barrado, por inconveniente, á porta de um cinema. Verdade!

Pior ainda era o fato de integrarmos a Geração Coca-Cola. Sob o prestígio da vitória alcançada na Segunda Guerra Mundial, a cultura norte-americana começara a entrar avassaladoramente em nosso País e nos cercava por todos, todos os lados. Na música, no disco, no cinema, nas histórias-em-quadrinhos, na moda, na gíria, em tudo. Nessa hora o Tio sam (e à sombra dele outros tios) nos dizi que esquecessemos tudo e saíssemos logo de nosso campinho arrendado, pois ele carecia muito de engordar boi no final de safra...

Era duplo, pois, o nosso sufoco. E foi aí que um outro aluno noturno do Júlio de Castilhos, e funcionário da Secretaria da Agricultura, "prendeu o grito" em setembro de 1947 e mostrou novamente a Porto Alegre a bandeira rio-grandense, desaparecida já havia dez anos. Paixão Cortês não foi preso porque isto não se constituía mais em ato subversivo; no mês anterior, com a promulgação da Constituição Estadual, restabelecera-se oficialmenteo velho pavilhão tricolor. Nessa mesma semana Paixão Cortês instituiu, com meia dúzia de gatos pingados, a Chama Crioula, ponto de partida para as comemorações populares da Semana Farroupilha.

O grupo de mateada passou a ser outro, já com duas dezenas de estudantes. Iniciava-se desse maneira, com caráter bem associativo, o movimento tradicionalista. Meses depois, em abril de 48, em torno de um fogo-de-chão, era fundada uma entidade que pretendia restaelecer, no meio urbano, o espírito solidário do pago. Ela podia se denominar Crioula ou Campeira, mas foi preferida a sonoridade, a eufonia da palavra Gaúcha. Centro de Tradições Gaúchas. Para os íntimos, CTG. CTG "35".

Disseminando-se pelos vários municípios rio-grandenses - mui lentamente a princípio e, depois, em vertiginosa progressão geométrica -, os CTGs vieram a valorizar e prestigiar a figura humana do gaúcho. Núcleo básico: o ritual do mate, como escola de cordialidade. Invernada Campeira: recuperação do cavalor, em práticas desportivas. Invernada Artística: preenchimento da lacuna deixada pelas escolas públicas e privadas, que já não mais ensaiavam a gurizada para festivais de encerramento de ano letivo. Invernada Mirim: uma atenção especial às crianças, considerando-as como gente amiga e transmitindo-lhes através da dança as noções básicas de sociabilidade. Fandango: incrível antídoto ao conflito de gerações, com pais e filhos comungando alegria em pé de igualdade. Em resumo: o retorno moral ao tempo de dantes. Não se trata de reviver, esterilmente, o Passado. Mas sim, de resgatar, a Esperança perdida.

Com a gradativa adesão da Igreja Católica (missa Crioula), do Estado (oficialização da Semana Farroupilha, dezessete anos após o acendimento da primeira Chama Crioula) e de jovens músicos urbanos (o chamado Nativismo é expressão estritamente musical e sem nenhum caráter associativo), o gauchismo chegou a tal expansão que, numa fase que poderíamos dizer de modernidade a palavra gaúcho se tornou um tentílico. Se antes havia a Chronologia riograndense e as Ephemerides riograndenses (que, aliás, nunca mais reapareceram nas escolas), a Associação Riograndense de Imprensa, a Companhia Riograndense de Telecomunicações, e por aí afora, na fase de modernidade pasosu a haver a Associação Gaúcha das Empresas de Rádio e Televisão, a Associação Gaúcha de Preservação do Ambiente Natural, a Fundação Gaúcha do Trabalho, o governo gaúcho, a representação gaúcha em Brasília, e por aí afora. Gentílico discutível, aliás, pois existe muito rio-grandense que não é gaúcho e muito campeiro que não é rio-grandense...

Na atual fase, da pós-modernidade, a coisa se complicou. Além do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) do Rio Grande do Sul, há o MTG de Santa Catarina, o MTG do Paraná, o MTG de Mato Grosso do Sul e a Federação Paulista de Tradições Gaúchas. A cidade de Curitiba, por ser do "interior", não tem tido nenhumconstrangimento (muito pelo contrário) em ir se transformando paulatinamente em capital do gauchismo. E aporteira continua aberta para quem quiser passar.

Tudo isto digitado numa noite de sábado, 24/07/99, com um baita prazer duplo: de estar lendo este belíssimo e raro texto e, segundo, por poder disponibilizar pra ti, que vieste até aqui.

Um baaaaita abraço de mim mesmo, Cohen, pra ti ;-)