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O escritor, compositor e folclorista abre para o público o sítio que escolheu como refúgio O olhar castanho-claro de Barbosa Lessa brinca pelas estandes, percorre as lombadas dos livros, enfrenta a folha de papel em branco enfiada na máquina de escrever manual. Depois segue a fumaça de um cigarro que raramente se apaga e que acompanha, esquecido em algum cinzeiro, o dedilhar dos artigos que compõe. Os olhos com 70 anos - comemorados em dezembro de 1999 - de mundo bailam pelos cantos da casa de madeira no meio do mato, chamada biblioteca, até serem iluminados pela luz vinda da única janela da construção. É nessa hora que o castanho adquire um brilho verde. O reflexo de uma infinidade de árvores que cobre o morro em frente invade a vista do folclorista gaúcho. O horizonte das estantes com suas janelas de papel amplia-se. - Lá habitam meus vizinhos mais próximos-, aponta o proprietário do sítio Água Grande, em Camaquã, um lugar com bugios, borboletas azuis e uma cachoeira de cinema, onde o escritor vive há 12 anos com a mulher, Nilza. Lessa refere-se a uma tribo de índios guaranis que pode ser observada numa clareira abert ano meio do manto verde do morro.
- É a única vez que deixo o sítio para ir à Capital -, conta esse viajante que nunca na vida ocupou o assento da direção de um carro. Se dirigir não fo preciso para poder viajar, não se pode dizer ao certo se o que Barbosa Lessa buscava nessas itineranças era a tal terra sem males dos vizinhos guaranis. Nem ele confirma a busca. O que se pode é agora ouvir a voz de quem parece ter encontrado alguma resposta depois de tanto ver estradas, de tanto olhar horizontes: - Esse é meu Ivi-maraé-, afirma com convicção, olhando para as paredes forradas de livros e periódicos e para o horizonte verde que atravessa o vidro da janea do cômodo de madeira bruta. O autor do clássico regionalista Negrinho do Pastoreio parece ter definitivamente encontrado a sua querência perdida. |

Um dia com o mestre
- Venho junto no ônibus, colocando todo mundo no clima -, explica Paulinho. Entusiasmado chegou o economista Marcos Raul Câmara Canto. Cantando com o colega de excursão, Luiz Ibarra foi se apresentando ao dono da casa, logo na chegada ao local. Câmara Canto, que também é presidente de uma entidade tradicionalista de Uruguaiana, a Tão Longe do Pago, logo depois de encerrar a sua canção não disfarçou os motivos supraturísticos da visita ao sítio: - Tinha muita vontade de conhecer o lugar, mas também vim convidá-lo para a festa de aniversário da nossa entidade. Animda pelo interesse no movimento nativista e por uma grande vontade de conhecer Barbosa Lessa, a bibliotecária Carmem Tadday acordou cedo para viajar ao encontro de um dos idealizadores do 35 CTG sem pestanejar. - Estou satisfeita com o passeio, sem palavras - reiterou. Não é para menos: as atrações oferecidas vão além da hospitalidade do articulista do Caderno de CUltura, de Zero Hora e de sua mulher, Nilza, que recebem os convidados com palavras, afeto e um bom churrasco. A beleza da mais alta cachoeira do Arroio Duro, cenário de um duelo filmado por Tabajara Ruas e Beto Souza no longa-metragem Netto Perde sua Alma, tira o fôlego de quem a encara. O u exige o necessário fôlego para quem nela mergulha.
As lembranças do pioneiro
A solidão foi a companhia de Barbosa Lessa na criação da música Negrinho do Pastoreio. - Mas para compor é preciso companhia -, ensina o autor de um dos maiores clássicos do repertório musical gaúcho. - É preciso alguém para cantarolar, para dizer se está bom ou se está ruim. Esse desejo de escuta, de fuga de um isolamento, de escape ao silêncio, levou o solitário compositor a uma outra invenção: o movimento tradicionalista. Corria o ano de 1948 e o jovem estudante do Colégio Júlio de Castilhos há pouco chegara à Capital. - A gurizada do Interior era muito mal-recebida-, lembra. - Todos tinham que ser Inter ou Grêmio, não era possível ser Brasil de Pelotas. Isolados, excluídos, os rapazes de fora usavam como QG uma pensão na Rua Marechal Floriano para trocar idéias. Uma delas foi a de inventar uma associação tradicionalista. Um caderinho, hoje guardado na biblioteca do sítio Água Grande, é a prova das intenções dos jovens: "Este é um convite aos gaúchos que, embora residindo na Capital e tendo os hábitos citadinos, ainda guardam o sangue forte da terra rio-grandense". Nas páginas vão as assinaturas de 82 fundadores, entre elas as de Glaucus Saraiva e Paixão Côrtes. - Saímos pelas ruas, convencendo as pessoas a assinar nosso manifesto, - recorda Lessa. O critério de abordagem? Se parecesse interiorano, atacávamos. barbosa Lessa não revela o que seriam os traços de um "interiorano". O que o pesquisador revela era o caráter maçom que Glaucus Saraiva desejava imprimir ao movimento: - o uso de espadas cruzadas numa cerimônia de iniciação e a proibição da participação de mulheres eram algumas idéias que deveriam ser dotadas. Como iríamos dançar sem parceiras? Sem influência maior da maçonaria, o movimento vingou com idéias envolvendo hábitos e atitudes solidárias fortalecidos, segundo o idealizador, pela cordialidade proporcionada pelo chimarrão. Pouco tempo depois, em 1954, um Congresso em Santa Maria já reunia 20 CTGs. - HOje há CTG espalhado por todo mundo - contabiliza quem, com certeza, deve ter dissipado seu desconforto com a solidão. Transcrito por Roberto Cohen, el autor da |